O Agente Secreto e o cinema brasileiro que já amarrou o jegue no mundo
O filme com Tânia Maria leva o Brasil ao centro do Oscar com linguagem própria, campanha consistente e um cinema que não se avexa nem pede licença para existir
Escrevo este texto também a partir de um lugar pessoal. Sou mestre em Cinema pela Universidade de Brasília e tive a honra de integrar o júri do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2007. Aprendi ali, entre sessões longas e debates intensos, que o cinema não vive apenas de talentos individuais, mas de encontros improváveis entre linguagem, tempo histórico e coragem estética. O Agente Secreto nasce exatamente desse ponto de interseção: quando um filme deixa de ser apenas um título promissor e passa a carregar o peso simbólico de um país inteiro em movimento.
As quatro indicações ao Oscar 2026 — Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção, Melhor Ator para Wagner Moura e ainda Melhor Elenco, categoria inédita da Academia — não são apenas números expressivos. Elas sinalizam maturidade, persistência e estratégia. O Brasil volta ao centro do debate cinematográfico global não como exceção exótica, mas como presença consistente. É um dado raro e precioso: dois anos consecutivos com filmes brasileiros atravessando a temporada internacional com fôlego, algo que poucos países fora do eixo anglófono conseguem sustentar.
O New York Times, ao comentar a trajetória do filme desde Cannes, foi direto ao ponto ao afirmar que “O Agente Secreto confirma Kleber Mendonça Filho como um cineasta que transforma o local em linguagem universal”. Em outra análise, o jornal destacou que “o longa confia na inteligência do espectador e recusa atalhos fáceis”, observação que toca no nervo de uma obra que não explica demais nem pede permissão para existir. Não é pouco quando um veículo dessa estatura reconhece densidade artística sem exotizar a origem.
Há algo ainda mais significativo nesse reconhecimento. O Agente Secreto concorreu em pé de igualdade com produções milionárias, faladas em inglês, sustentadas por campanhas agressivas. Um filme em português precisa correr duas maratonas simultâneas: a do mérito artístico e a da visibilidade política dentro da indústria. Chegar entre os dez melhores filmes da temporada já é um feito que desmonta velhos discursos sobre supostos limites naturais do cinema brasileiro.
A nova categoria de Melhor Elenco ajuda a iluminar uma virtude central do filme. Ao lado de nomes internacionalmente conhecidos, como Wagner Moura e Fernanda Cândido, surge um conjunto de intérpretes pouco familiar ao grande público, muitos deles profundamente ligados ao Recife que o filme habita. Não se trata de figurantes funcionais, mas de presenças orgânicas. O diretor de elenco Gabriel Domingues construiu um corpo coletivo que respira o espaço e a história narrada. Um cineasta do porte de Alfonso Cuarón resumiu isso com precisão ao comentar o filme em um evento nos Estados Unidos: “Poucos filmes recentes entendem tão bem que elenco não é soma de estrelas, é arquitetura humana.”
Wagner Moura, em entrevistas durante a campanha internacional, foi honesto ao falar do impacto desse trabalho. “Esse filme me devolveu a sensação de risco”, disse ele, “e atuar é justamente isso: caminhar sem rede.” Em outra ocasião, destacou que O Agente Secreto “não pede compreensão, pede escuta”, frase que revela muito sobre o pacto que o longa estabelece com o espectador. Não há condescendência, há convite.
Kleber Mendonça Filho, por sua vez, afirmou algo que me parece central para entender a trajetória do filme: “Eu sempre quis fazer cinema pensando no mundo, mas sem abandonar Recife nem um centímetro.” Em outra fala, ainda mais direta, resumiu o espírito do projeto: “Se o filme chegou até aqui, é porque não tentou parecer outra coisa.” Há uma ética silenciosa nessa recusa ao disfarce, algo que o público internacional percebe com clareza.
A disputa pelo Oscar de Melhor Ator será dura. Wagner Moura enfrenta nomes consagrados como Timothée Chalamet, Leonardo DiCaprio, Ethan Hawke e Michael B. Jordan. Ele não chega como favorito estatístico, especialmente pela ausência nas indicações do SAG e do BAFTA. Ainda assim, o Globo de Ouro que conquistou funciona como um selo de legitimidade. A indústria escuta quando um ator vence ali. A história recente mostra que trajetórias irregulares podem se cruzar de forma imprevisível no momento final.
No campo do Filme Internacional, Valor Sentimental desponta como concorrente forte, com mais indicações técnicas. Mas a experiência recente ensina cautela. O Oscar não é mera contabilidade. Há contexto, afeto acumulado, percepção de urgência. O fato de O Agente Secreto também disputar Melhor Filme altera completamente o jogo. Ele deixa de ser “o estrangeiro” e passa a ser parte do centro.
Como alguém que acompanha cinema há décadas, dentro e fora das salas de júri, afirmo sem hesitação: este é um daqueles raros momentos em que talento, estratégia e tempo histórico se alinham. O Agente Secreto não representa apenas uma vitória possível. Ele representa a consolidação de uma linguagem brasileira capaz de dialogar com o mundo sem perder densidade, sotaque ou ambição. E isso, independentemente de estatuetas, já é uma conquista definitiva.
Há ainda um elemento humano e político que atravessa O Agente Secreto e que não pode ser tratado como detalhe lateral: Wagner Moura. Ele carrega, como poucos artistas brasileiros contemporâneos, esse zeitgeist inquieto de um país que parece estar sendo devorado, testado e reinterpretado pelo mundo. Wagner não atua apenas; ele se posiciona. Defende políticas públicas de inclusão social, enfrenta o racismo sem rodeios, rejeita qualquer forma de xenofobia e sabe dizer o que pensa e sente sem pedir autorização a ninguém. Em tempos de silêncios convenientes e discursos domesticados, isso é mais do que postura: é respiro. Há nele uma brasilidade lúcida, progressista, que incomoda alguns e conforta muitos — e que dialoga com públicos internacionais cansados de personagens anestesiados. Wagner não é neutro, e talvez por isso seja tão universal.
E aí entra o tempero pernambucano — aquele que não pede licença, chega avexado, faz zoada boa e ainda deixa o recinto melhor do que encontrou. O Agente Secreto tem humor, mas não é fuleiro; tem densidade sem ficar borocoxô; e sabe ser arretado no melhor sentido da palavra. Kleber conduz o filme como quem já amarrou o jegue faz tempo, sem ficar abilolado com tapete vermelho nem aperreado com termômetro de mercado. O elenco não está amostrado à toa: cada caba sabe exatamente quando bulir na cena e quando deixar o silêncio trabalhar. Avalie só: o filme roda o mundo sem dar o lavra da própria identidade, não se avexa, não se arrodeia, não perde tempo fazendo o balão para agradar ninguém.
E se alguém estranhar esse jeito direto, paciência. Que nem aruá lerdo, há quem demore a perceber. O Agente Secreto é desses filmes que chegam de mansinho, parecem simples, e quando você vê já deram um nó cego na cabeça do espectador. É cinema virado no molho de coentro, com coragem estética, inteligência emocional e aquele humor seco que só quem conhece Recife reconhece de longe. No fim das contas, não é exagero dizer: o filme é da gota serena de bom — e quem discordar, bora conversar, mas sem leseira.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
