O Agente Secreto, filme nordestino sem os preconceitos da Globo
Espero que se faça mais filmes genuinamente brasileiros como O Agente Secreto
Já é sabido que, em todas as produções brasileiras, filmes e novelas, principalmente aquelas onde há a mão da Globo, a figura do nordestino é retratada de forma caricata de três formas: o comediante, o pobre e o cangaceiro. Em todos os casos, o sotaque é o mesmo, mais precisamente aquele da personagem Maria do Carmo, interpretada por Suzana Vieira, na novela Senhora do Destino. Aliás, há até pouco tempo, mesmo que o ator ou atriz fossem oriundos de algum estado do nordeste brasileiro, eles eram obrigados a falarem igual à personagem em questão.
A coisa começou a mudar após uma sequência de filmes produzidos pelo diretor Kleber Mendonça Filho. Já assisti algumas cenas de O Som Ao Redor; e na íntegra, Aquarius, Bacurau, Retratos Fantasmas e recentemente O Agente Secreto. E é sobre esse último especificamente que irei falar nesse artigo, que aliás acabou de vencer dois prêmios no Globo de Ouro: “Melhor Filme de Língua Não Inglesa” e “Melhor Ator em Filme de Drama”.
Não sou crítico de cinema, sou músico profissional, no entanto, certas manifestações artísticas que envolvem aspectos, problemáticas e debates de dois elementos: a música e a região onde nasci, me atraem para que eu escreva sobre. Já escrevi aqui na Brasil247 textos criticando filmes biográficos de cantores e instrumentistas que só se focam em tragédias e comportamentos negativos dos mesmos para gerarem engajamento e público; e também já critiquei o filme O Auto da Compadecida 2, uma produção caça-níquel, depreciativo quanto ao Nordeste, além de ser uma peça de propaganda subliminar contra o PT e o recente desenvolvimento econômico da região. Portanto, o incitamento que me leva a escrever esse texto é o segundo elemento.
Apreciando a obra no modo clássico (indo até o cinema), no Imperator, localizado no Méier, Rio de Janeiro, percebi desde as primeiras cenas de que esse filme, além de ser melhor que os anteriores, tinha as características típicas dos filmes gringos que caem no gosto do público. Kleber conseguiu unir aquilo que é apelidado de “filme-arte”, uma influência no Brasil do cinema europeu (apesar de eu particularmente não gostar muito, pois geralmente só os cineastas curtem e assistem), com a dinâmica dos filmes de Hollywood, mais especificamente, as cenas de ação. Estou simplificando ao máximo para facilitar a compreensão, mas adianto que, quando for assistir, preste bastante atenção pois diversos detalhes podem passar batido.
Mas o que quase me levou às lágrimas e me fez sentar perante o computador para redigir esse texto, foi o que atualmente se popularizou chamar de identidade. Eu me vi no filme. Não como das outras vezes, como um nordestino pobre, tentando sobreviver na seca do sertão, tentando ser engraçadinho para os sudestinos como uma forma de aceitação ou como cangaceiro. Obviamente não estou negando nossas origens sofridas e nosso folclore, até porque isso seria uma contradição para quem ama e defende a sua cultura. Mas nesse momento, em pleno ano de 2026 essas fórmulas já estão batidas e está na hora de mostrarmos nossa verdadeira face, porém a burguesia brasileira não quer que isso aconteça pois seria uma maneira implícita de admitir que as melhorias no Nordeste foram conquistas de Lula e do PT. O enredo é ambientado durante a ditadura militar, período em que a região era sim tudo o que é mostrado nas telas, pobreza e mais pobreza. Contudo, quando eu digo que me vi no filme, estou me referindo especificamente a outras particularidades, como o sotaque (falado por pessoas nativas, sem ser forçado), o dia a dia dos moradores, as datas festivas, as ruas, os móveis das residências juntamente com os quadros pendurados nas paredes, ou seja, sem composições ou objetos de cena colocados para “ambientar”, mas sim, ligar a câmera e mostrar tudo o que já é e já estão lá; esperando apenas serem filmados.
Espero que se faça mais filmes genuinamente brasileiros como O Agente Secreto, e que o brilhantismo e o profissionalismo atinjam um nível tal que, se apague das nossas mentes a frase que se tornou pejorativa “filme brasileiro”, como algo mal feito. Kleber Mendonça Filho está mostrando que podemos ser sim um país do cinema.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
