O amor em tempos de culto ao ódio
Como o avanço tecnológico convive com o crescimento do ódio e por que o amor se torna o único antídoto possível diante da barbárie contemporânea
“No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido”… Assim Chico Buarque escreveu estes versos, e assim canta, assim cantamos… Quisera que o tempo da maldade já tivesse passado, quisera que nunca tivesse existido… A história da humanidade, em seus movimentos cíclicos, foi e tem sido cenário de horror e de carência de paz, em razão da ganância e do egoísmo humano, cujos produtos são, dentre outros, a intolerância às diferenças culturais e religiosas e o preconceito de classe, intensificados pela disseminação do ódio.
O tempo presente é marcado por avanços tecnológicos e midiáticos admiráveis, ao mesmo tempo em que quase toda a riqueza do mundo se concentra nas mãos de poucos e a miséria infame se alastra entre muitos, resultando na repulsiva realidade da fome, da violência, da ambição desmedida, da destruição voraz da natureza etc.
Dados do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), referentes a 2024-2025, denunciam que o mundo convive hoje com o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que ocorram atualmente cerca de 130 conflitos armados, internos e externos, demonstrando o crescimento da violência, com o registro de 26 guerras de alto impacto envolvendo mais de 60 Estados.
O fato é que a magnitude de interesses privados em defesa de padrões ideológicos ancorados em valores patriarcais põe em risco o futuro da humanidade. Aniquila conquistas sociais, descredibiliza a ciência e o conhecimento produzido ao longo dos séculos. Na prática, a violência se instala não somente na constância de bombardeios atingindo prédios públicos e civis, em espaços geográficos apinhados de gente — em especial, mulheres, crianças e idosos —, mas também nas atitudes e comportamentos que denotam o descaso pela vida alheia e os propósitos nefastos das mais variadas formas de comunicação, que desagregam e disseminam a intolerância.
Não há como negar que vivemos num mundo que intencionalmente se submete ao comando da insanidade que se decide pela morte e pela exacerbação do ódio, amparado no fundamentalismo político e religioso. Uma era marcada pela presença de gigantes tecnológicos e pigmeus morais, conforme lucidamente descreveu o escritor Regis de Moraes. Assim, os homens caminham entre um passo à frente da ciência que controla o mundo sem fronteiras e, por cliques, descobre fórmulas capazes de fazer tetraplégicos andarem e da conjunção de átomos que, em átimos de segundos, pode sentenciar a destruição do planeta. Assim, as utopias se perdem, sonhos se desfazem, relações se esfacelam e a esperança se desencanta. É um indício vigoroso de que a máxima cristã do “Amai-vos uns aos outros” não tem lugar neste cenário. Contudo, como disse Nelson Mandela, “Ninguém nasce odiando. Aprende-se a odiar. Se é possível aprender a odiar, também é possível aprender a amar”. Será?
Nesse contexto de soberania da insensatez, a poesia e a literatura, aliadas à filosofia, emergem como ferramentas fundamentais que nos permitem refletir sobre o que será de nós e qual o futuro que se desenha para as novas gerações. Sim, “O amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer”, proclamava Camões, em 1598, cantando o amor e evidenciando suas formas de contradição e exigências. Talvez seja um convite que nos desafia a não abdicarmos de pensar e de questionar as veredas desprovidas de empatia e de tantos outros valores nobres em que trilha a humanidade nos dias de hoje. Faz-se necessário não ignorarmos o contraditório, e a nossa fragilidade humana indica que a contradição nos habita; por isso, é fundamental reavaliarmos nossa forma de ver, de agir e de estar no mundo.
Diante de uma realidade em permanente conflito, em que o ódio que enodoa as relações triunfa revestindo-se de um fanatismo de viés político-religioso, o qual se dissemina através do racismo, da misoginia, da homofobia, do sexismo, da intolerância, da aporofobia e da desinformação, não é possível vislumbrar outro tipo de antídoto que não seja o amor. E amar, como ensina a escritora francesa Simone Weil, não é possuir, fundir-se nem projetar fantasias sobre o outro. É vê-lo com rigor, suspender o ego e reconhecer uma realidade que não gira em torno de nós. Reforçando a ideia de que o amor amadurece na medida em que o compartilhamos nas relações entre as pessoas e que não se trata de mera emoção passageira, o filósofo alemão Max Scheler descreve o amor como movimento que revela valores e reorganiza a percepção do que verdadeiramente importa. De sua parte, condenando a objetificação e a coisificação do ser humano, o filósofo judeu Emanuel Levinas defende que não se vive o amor sem a revisão dos valores éticos e uma tomada de posição sobre o sentido de nossa existência no mundo, pois o outro não é objeto que eu compreendo por inteiro, nem extensão do meu ponto de vista. Ele é presença que interrompe a soberania do eu e limita sua pretensão de domínio.
Assim, amigas leitoras e amigos leitores! Em nome do amor, da paz e da vida, por intermédio da literatura, da poesia e da filosofia, convido-os a utilizarmos a voz ativa no combate a toda forma de opressão, de intolerância e de ideologias que promovem o ódio, moralismos perversos e as desigualdades, alimentando crenças cruelmente excludentes que classificam pessoas, promovem a guerra e destroem a vida.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
