O antipetismo é mais e maior do que o ódio ao PT

Cabe ao PT usar a favor dele mesmo, e da Esquerda em geral, essa polarização, pois como ficou evidente durante os governos petistas, a negociação como os interesses antagônicos é possível e desejável, mas a conciliação de classes é impraticável uma vez que as forças obscuras estarão sempre à espreita prontas a dar o Golpe

O antipetismo é mais e maior do que o ódio ao PT
O antipetismo é mais e maior do que o ódio ao PT

Neste período eleitoral há muitos políticos tentando tirar proveito do que se convencionou chamar de antipetismo. Dentre os candidatos à presidência Jair Bolsonaro, Álvaro Dias, Geraldo Alckmin, Marina Silva e Ciro Gomes são os mais eloquentes. Todos eles, sem exceção, de forma variada, creditam falaciosamente ao PT a crise econômica que o país vive, bem como também a história recente de casos de corrupção e a divisão político-ideológica no país. O antipetismo tem sido até usado como argumento por Ciro Gomes e a equipe de campanha dele para exigir do PT que desista da candidatura presidencial com 21% e apoie a candidatura Ciro com 11%. Então, o antipetismo parece ser o principal tema dessas eleições.  

Como o candidato Jair Bolsonaro conseguiu encarnar o discurso antissistema, ele se tornou, apesar de contraditoriamente, a alternativa ‘natural’ para aqueles que querem romper com a ordem vigente. Contraditoriamente, porque Bolsonaro é parte integral do sistema, do qual ele usou, abusou e continua abusando. Praticando uma política patriarcal e arcaica, sem freios na língua ou preocupação com o politicamente correto, Bolsonaro passou a ser a aposta da Direita, com uso da grande mídia. Mas apesar disso ele não era visto como alternativa viável a presidência, mas apenas como um elemento desagregador que minaria o poder de voto do PT. Mas o “monstro” fugiu ao controle dos seus fomentadores e assumiu as próprias rédeas. Bolsonaro então surge de forma independente como um canal de expressão de uma grande parcela da sociedade daqueles sentimentos e valores que pareciam suprimidos.

Se por um lado Bolsonaro representa hoje uma coleção de ideias conservadoras em termos sociais e morais, com um novo viés econômico, agora liberal e com uma agenda privatista, o que dá a ele incontrovertidamente o rotulo de extrema direita, por outro lado, o PT passou a representar qualquer noção contrária a uma cosmovisão de direita. O PT deixou ser apenas um partido para expressar e assumir em si, querendo ou não, a encarnação de tudo aquilo entendido como progressismo, avanços sociais, flexibilidade em questões de costumes e moral. Assim, tornou-se comum o uso do termo petista como um adjetivo de caráter negativo usado por quem abraçou mais militantemente uma posição de direita. Petista tornou-se então um termo a ser usado como insulto ou ofensa. Consequentemente, se alguém questiona a parcialidade do judiciário, é porque é petista, ou seja, uma pessoa que defende a corrupção. Se alguém defende os direitos reprodutivos da mulher como política pública, o direito de escolha, tem que ser petista, significando, um abortista. Se alguém defende LGBT é um petista, nesse caso, uma pessoa pervertida que milita contra a moral e os bons costumes. Se alguém defende Direitos Humanos, é necessariamente um petista, pois defende bandidos. É muito comum hoje pessoas que não pertencem ao Partido dos Trabalhadores ao criticarem a prisão injusta de Lula, dizerem logo que não são petistas. Críticas ao Golpe de 2016, manifestações de defesa da democracia, afirmações de ideais da esquerda vem seguidas de justificativas como, “mas eu não sou petista”. Nesta eleição, a oposição a Bolsonaro vindo da Esquerda também é seguida de, “mas não sou petista”. Talvez a frase mais emblemática hoje seja, “ser contra Bolsonaro não significa ser petista, basta ter o mínimo de inteligência e um pouquinho de bom senso.” Isso mostra o quanto a campanha da Direita contra o PT colocaram progressistas de vários partidos e matizes na defensiva em relação ao não ser confundidos com o PT.

Para citar um caso específico, Reinaldo Azevedo, jornalista antipetista e responsável por cunhar o termo petralha, é hoje chamado de petista por ex-seguidores, que até há alguns meses o chamavam de “Tio Rei”. Tudo isso porque de um certo tempo para cá, Reinaldo Azevedo tem questionado a parcialidade do judiciário e criticado duramente o que ele chama de “Direita chucra”. Outros casos que poderiam ser mencionados são aqueles onde corporações como algumas redes de comunicação, inclusive a Globo, são chamadas de petistas quando produzem alguma matéria jornalística que questionam algum membro da direita. No caso da ONU, ela é hoje chamada de comunista por defender os Direitos Humanos. Os casos mencionados são ilustrativos de como o PT tornou-se no imaginário popular e na percepção do senso comum, naqueles segmentos sociais mais conservadores, um símbolo de tudo aquilo que a Direita rejeita. Então, para o bem ou para o mal, o PT tornou-se um símbolo que representa algo mais que um partido, pois ele tornou-se sinônimo de ideias progressistas. Como Lula pode reivindicar que ele deixou de ser apenas ele, uma pessoa, mas uma ideia, o PT também pode reivindicar para si essa transformação.  

Essa transformação que transcende o partido e o torna mais amplo, não foi algo originalmente criado de forma positiva pelo PT. Isso se deu porque a Direita brasileira tem sido, em boa medida, bem-sucedida em produzir uma imagem malignamente distorcida do PT e conseguiu também construir uma narrativa de realidade alternativa que faz do PT responsável por males históricos no Brasil. Para ilustrar isso, a política antirracista e de cotas é traduzida pelos meios de comunicação de direita como fomentando a divisão entre brancos e negros. Os programas sociais como causando a separação entre ricos e pobres. E o fortalecimento dos sindicatos como gerando atritos entre trabalhadores e patrões. Portanto, pode-se dizer que apesar dos ataques ferrenhos que o PT tem sofrido e ainda mais fortes nos últimos anos, a popularidade do PT é um fenômeno extraordinário.

Deste modo, fica claro que a divisão ideológica não se dá mais entre PT e PSDB, ou Coxinhas e Mortadelas, Haddad e Bolsonaro, mas Direita e Esquerda, ambas entendidas em sentido lato. Assim a polarização que o candidato Ciro Gomes se refere e que ele quer acabar se apresentando como a alternativa pacificadora existe em um nível maior, mais amplo e mais profundo que Ciro expressa em discursos e entrevistas. É evidente que Ciro sabe disso, mas é mais conveniente para ele como candidato aparentar que a polarização é meramente entre dois partidos ou duas candidaturas. Faz parte de uma estratégia política, porém não deixa de ser um argumento falacioso e intelectualmente desonesto.

Cabe ao PT usar a favor dele mesmo, e da Esquerda em geral, essa polarização, pois como ficou evidente durante os governos petistas, a negociação como os interesses antagônicos é possível e desejável, mas a conciliação de classes é impraticável uma vez que as forças obscuras estarão sempre à espreita prontas a dar o Golpe.  

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