O atraso da classe dominante brasileira

Analista político Roberto Amaral diz que a classe dominante brasileira sobrevive "mediante as mais variadas formas de exploração". "O sr. Alfredo Setúbal não é um ponto fora da curva", acrescenta. É com essa classe, diz o colunista, que "Lula terá de sentar para discutir um pacto de governabilidade, se conseguir se eleger mais uma vez. Não será fácil"

Alfredo Setúbal e o ex-presidente Lula
Alfredo Setúbal e o ex-presidente Lula (Foto: Reprodução/Divulgação | Fotos Publicas | Reprodução/Divulgação | Reprodução/Divulgação)
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“Por que o Brasil ainda não deu certo?” perguntava-se Darcy Ribeiro, político,  antropólogo, ensaísta, conferencista e romancista, homem de grandes paixões,  certamente o mais inquieto dos pensadores  brasileiros do século passado, e, sem dúvida alguma, um dos mais profícuos e desassombrados intelectuais-militantes que já tivemos. No seu estimulante o povo brasileiro, que começou a escrever no exílio do Uruguai, aquela pergunta, a cuja busca de resposta dedica sua obra madura, é formulada noutros termos, mais avançados, quando se indaga: “Por que, mais uma vez, a classe dominante nos vencia?” (referia-se à vitória do golpe de 1964). Mas então, como se vê, a própria pergunta já trazia consigo a resposta, na indicação de nossa tragédia histórica como resultado do controle do poder por uma gente medíocre, perversa, anti-nacional, alienada e forânea. Gente muito bem representada, aliás, pelos comensais do regabofe na mansão do especulador Naji Nahas, responsável pela quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, com o qual a casa-grande com seus procuradores (empresários, jornalistas, políticos, advogados) comemorou o acordo inter-elite que, a pretexto de afastar as ameaças de golpe iminente, anunciado no dia 7 de setembro, assegurou ao capitão Bolsonaro a inviabilização do impeachment e a impunidade de seus filhos. Fora o que não se conhece. Como sempre, os acordos se amarram no andar de cima da hierarquia mandante para observação de todo o povo; desta vez o pacto foi traficado com militares, parlamentares e ministros do STF, tendo como costureiro e escrivão o inefável ex-presidente Michel Temer, advogado com vasta experiência nas Docas de Santos.

A classe dominante brasileira é uma das mais longevas do mundo, porque competente na preservação do mando político-econômico, o mesmo desde a colônia, imune como se mostra a transformações sociais, políticas e econômicas. Seu poder foi regado no escravismo e sobreviveria com a abolição e o trabalho assalariado, mediante as mais variadas formas de exploração; projeção dos interesses reinóis, sobrevive na independência, e no império transitou do domínio português para o serviço do colonialismo britânico. Hoje é agente subalterno dos EUA. O país caminha do agrarismo à industrialização no século 20, da vida rural ao urbanismo; conhece insurgências de toda ordem, e em todas elas o povo é massacrado; desfaz-se da monarquia anacrônica, a última do continente, e adota a peculiar forma republicana de governo sem povo, de democracia juncada de golpes de Estado e ditaduras. Os antagonismos se resolvem na conciliação, sob o comando da classe dominante, que não permite reformas de fato. Seu objetivo, lembrava José Honório Rodrigues, foi sempre acomodar as divergências dos grupos hegemônicos e jamais conceder benefícios ao povo, posto de lado, capado e recapado de seu papel de sujeito histórico, como escreveu Capistrano de Abreu.   

O país conheceu momentos de turbulência e momentos de progresso e expansão capitalista. Há quarenta anos convive com a estagnação econômica, de par com desindustrialização e brutal concentração de renda. O poder da casa-grande, porém, mais se fortalece. O país exportador de açúcar e algodão, na colônia, enriqueceu a oligarquia paulista na república com as exportações de café a preços subsidiados pelo resto do país; hoje exporta grãos e minério in natura, além de cientistas e pesquisadores, aos quais nega emprego, após investir em sua formação. Aos trancos e barrancos, o Brasil se modernizou e hoje é uma das dez principais potências do mundo, sem haver combatido as desigualdades sociais, o que revela o projeto de sociedade que nos governa. Em 500 anos de construção histórica, nada ameaçou a classe dominante, impávida, insensível, intocada, reproduzindo o mando da velha casa-grande, na colônia e na república, o poder da terra e do capital concentrado, financeirizado, globalizado.  

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Em 1930 comandou uma “revolução” que não arranharia a ordem social e econômica; um de seus líderes, o governador mineiro Antonio Carlos de Andrada, proclamava: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”. Modernizando o país a partir de uma ditadura (o “Estado novo”), o movimento de 1930 fortaleceu a ordem capitalista, e a “elite” econômica conservou o mando que não admite concessões à emergência de interesses nacionais ou populares. Talvez, nesse processo histórico, estejamos próximos de encontrar explicação para o atraso da burguesia aqui vivente (e daí o atraso do país “que não dá certo”): sendo brasileira, não é nacional, pois jamais se conciliou, seja com os interesses da nação, seja com os interesses de seu povo; não tendo sido, jamais, progressista, nunca se conflitou com a aristocracia feudal, nem conheceu a menor contradição com os interesses do imperialismo, do qual desde cedo se fez sócia menor. A contradição capital nacional versus imperialismo se resolveu numa composição de interesses. 

Para essa burguesia, o povo é um incômodo e qualquer sorte de projeto nacional um anacronismo.

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Essas observações me chegam com a leitura de entrevista concedida ao Estadão (16/10/2021) pelo presidente do conglomerado controlador do banco Itaú e uma série de outras empresas. O banqueiro pede mais reforma trabalhista; não está satisfeito com os direitos já surrupiados dos trabalhadores. Quer mais abertura econômica, mais privatizações, defende o aumento de juros, embora saiba que não sofremos de inflação de demanda. É calorosamente contra o impeachment de Bolsonaro. Com o mesmo entusiasmo se diz eleitor de João Doria, que considera “um grande gestor público”, injustiçado pela avaliação popular. A entrevista é longa. Nenhuma palavra lhe ocorreu, porém, sobre o desemprego, que atinge 14,7% da população ativa do país. Nada sobre a carestia que maltrata a população brasileira: a cesta básica passa de 60% do salário mínimo, e 50% da população brasileira com mais de 16 anos mora em residência cuja receita não ultrapassa um salário-mínimo. O endividamento das pessoas representa 59,9% da renda média nacional, o pior resultado desde 2005, quando o indicador começou a ser apurado. Pelo menos 110 milhões de brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar (dados de 2020).

Nenhuma palavra sobre as mais de 603 mil vidas levadas pela pandemia.

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Muitas palavras, porém, para defender uma alternativa a Bolsonaro que não seja Lula. O sr. Alfredo Setúbal não é um ponto fora da curva, pelo contrário: suas opiniões, sua visão de mundo e de Brasil refletem o pensamento da atrasada classe dominante brasileira.

Há algumas poucas semanas, um analista da política visitou as praças do Rio de Janeiro e São Paulo para conhecer a visão do grande empresariado sobre o quadro político brasileiro e as expectativas para 2022, delineadas a partir das pesquisas de opinião, fartamente divulgadas pela imprensa. De suas entrevistas colheu a manifesta rejeição à candidatura do ex-presidente Lula, a mesma rejeição que a grande oficialidade não cuida de disfarçar. É essa gente desapartada do país e do povo que dita o ritmo da política e economia. É com ela, portanto, que Lula terá de sentar para discutir um pacto de governabilidade, se conseguir se eleger mais uma vez. Não será fácil; Dilma não conseguiu.  

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