O auge e o início da decadência do futebol brasileiro
Após 1970, a interferência política na Confederação Brasileira de Desportos (CBD) intensificou-se
A crise estrutural do futebol brasileiro começou a se manifestar ainda na década de 1970. E isso constitui um dos maiores paradoxos da história esportiva nacional, pois foi justamente no auge simbólico da conquista da Copa do Mundo de 1970, o futebol brasileiro iniciava um lento processo de decadência técnica, institucional e cultural.
Um dos impulsionadores do início da decadência, foi a ditadura militar apropriar-se politicamente daquela conquista como instrumento de propaganda nacionalista. O regime utilizou a euforia popular para fortalecer a ideia de um “Brasil grande”, moderno e vitorioso, ocultando a repressão política, a censura e a violência de Estado. O futebol passou a ser tratado como questão estratégica de governo. A derrubada de João Saldanha do comando da seleção em 1970 era o indício de que algo não estava indo bem.
Contudo, a seleção tricampeã do México representou o ápice do chamado “futebol-arte”. O Brasil construiu sua identidade futebolística a partir da genialidade individual, consagrada na figura de Pelé, o Rei do Futebol. O país se consagrou mundialmente pela capacidade de produzir jogadores habilidosos, criativos e imprevisíveis, capazes de decidir partidas em jogadas de improviso, dribles rápidos e soluções intuitivas.
Após 1970, a interferência política na Confederação Brasileira de Desportos (CBD) intensificou-se. A preparação para a Copa do Mundo de 1974 foi marcada por excessiva rigidez disciplinar, militarização da comissão técnica e obsessão por métodos físicos inspirados em modelos europeus. O resultado foi uma seleção excessivamente rígida taticamente, menos criativa e distante da liberdade técnica que havia encantado o mundo quatro anos antes. O Brasil terminou apenas em quarto lugar, enquanto o planeta assistia ao surgimento do “Carrossel Holandês” liderado por Johan Cruyff.
A Copa de 1974 representou uma ruptura simbólica importante. O futebol brasileiro passou a ser visto como tecnicamente ultrapassado diante da evolução tática europeia. O chamado “futebol total” holandês revolucionou conceitos de ocupação de espaço, intensidade física e movimentação coletiva. A partir daquele momento, dirigentes, técnicos e parte da imprensa esportiva passaram a defender uma espécie de “europeização” do futebol nacional.
Iniciou-se então uma tentativa contraditória de abrasileirar esquemas europeus sem compreender plenamente suas bases culturais e organizacionais. O problema não residia propriamente na assimilação de inovações táticas internacionais, mas na incorporação acrítica de modelos que frequentemente ignoravam as características históricas e culturais do futebol brasileiro. O resultado foi um conflito permanente entre identidade e pragmatismo. O Brasil começou a abandonar progressivamente elementos centrais de sua tradição futebolística. A improvisação, o drible, a criatividade e a liberdade técnica foram trocadas em nome de um futebol mais físico, defensivo e mecanizado.
A crise aprofundou-se com o encerramento da chamada “Era Pelé”. Quando o maior jogador da história despediu-se da Seleção Brasileira em 1971, encerrava-se também um ciclo simbólico de confiança nacional no futebol como expressão máxima da genialidade brasileira. Sem Pelé, o país perdeu não apenas um craque, mas um eixo organizador de sua identidade esportiva.
Ao mesmo tempo, os problemas estruturais do futebol brasileiro tornavam-se mais evidentes. Os campeonatos nacionais eram desorganizados, inchados e frequentemente subordinados a interesses políticos regionais. A ausência de planejamento financeiro consolidava administrações amadoras e patrimonialistas nos clubes. Presidentes agiam como donos das instituições, reproduzindo práticas clientelistas profundamente arraigadas na cultura política brasileira.
O cenário econômico nacional também contribuiu para o processo de decadência. O chamado “Milagre Econômico” chegou ao fim em meio à crise internacional do petróleo e ao aumento da inflação. A recessão da segunda metade da década de 1970 afetou diretamente o consumo popular, inclusive a frequência aos estádios. O futebol deixava gradualmente de ser espaço central de convivência das classes trabalhadoras urbanas.
Paralelamente, o aumento da violência nos estádios afastava famílias e ampliava a sensação de insegurança. A precariedade da infraestrutura, a ausência de políticas de segurança pública e o crescimento das torcidas organizadas sob lógica de confronto contribuíram para deteriorar o ambiente do futebol brasileiro.
Enquanto isso, a Europa iniciava um amplo processo de modernização esportiva. Clubes europeus passaram a investir em ciência do esporte, categorias de base, gestão profissional e infraestrutura. O Brasil, ao contrário, permaneceu preso ao improviso administrativo e à dependência da genialidade individual de seus jogadores.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

