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Weiller Diniz

Jornalista especializado em cobertura política, ganhador do prêmio Esso de informação Econômica (2004) com passagens pelas redações de Isto É, Jornal do Brasil, TV Manchete, SBT. Também foi diretor de Comunicação do Senado Federal e vice-presidente da Radiobrás, atual EBC.

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O avô do Niemeyer

Memória, poder e utopia na trajetória de Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer, o eterno gênio da arquitetura (Foto: Ricardo Stuckert / ABr - 18.03.2003)

Oscar Niemeyer é um dos raros brasileiros universais. Sua obra e memória sobreviverão pela eternidade, uma imortalidade conquistada, não pela militância política em busca de uma sociedade igualitária e justa, mas pela genialidade na criação que sacralizou uma burguesia que o marxismo combatia. Brasília é uma pintura imponente, pousada na aridez do cerrado retorcido e seco, uma obra-prima arquitetônica a céu aberto, forjada a partir dos ensinamentos do mestre do arrojo, Le Corbusier, ao próprio Niemeyer: “Arquitetura é invenção”.

As mãos dos traços ágeis arquitetaram um sonho numa prancheta iluminada. Niemeyer forjou curvas no concreto rígido e acrescentou a leveza flexível da sinuosidade no espaço vasto do azul celeste. O sonhador, que roçou o céu das divindades, tinha pânico de avião, medo de altura. Por isso, ao desenhar sua própria aeronave, por encomenda de Juscelino Kubistchek, a aterrissou para todo o sempre no solo estático, avermelhado e árido do Planalto Central.

A Praça dos Três Poderes é a síntese da harmonia criativa, onde os prédios representam os vértices de um triângulo equilátero. Geometria concebida ao lado do urbanista Lúcio Costa, outro gênio. A arquitetura de cada sede – Executivo, Legislativo e Judiciário - sugere flutuar acima da linha do chão, com colunas finas de apoio, muito sutis, apenas resvalando o solo central da Nação, gerando uma sensação de leveza suprema.

A praça onde levitam os palácios é fustigada por uma luminosidade abrasiva, inclusive nos períodos chuvosos e rarefeitos. A transparência, ambicionada na utopia criativa, transcende o aproveitamento máximo da luz natural. A assepsia arquitetônica devassou o interior dos palácios, com vidraças generosas, de modo a permitir a completa visão externa e, quem sabe um dia, o controle social. Afinal, Brasília nasceu com o epíteto de “Capital da Esperança’. 

A intimidade do comunista com o poder, além da prancheta a convite de JK, era familiar. O avô, Antônio Augusto Ribeiro de Almeida foi juiz de Direito, desembargador da Relação da Corte, juiz da Corte de Apelação, e na República chegou a ministro do Supremo Tribunal, onde teve assento entre 1896 e 1913, quando faleceu. Niemeyer dizia: “importante recordar que meu avô, ministro do Supremo Tribunal Federal, por vários anos, morreu pobre, obrigando-nos a deixar a casa hipotecada para morar numa casa modesta em Ipanema”.

Os traços idealizados pelo arquiteto vão, simbolicamente, descolorindo e se apagando no mesmo horizonte do pessimismo retórico que ele professava em suas manifestações sobre a capital da esperança. Mudar a capital era mudar o Brasil. Em um depoimento à polícia, em plena repressão, Niemeyer foi indagado sobre o que pretendia. “Queremos mudar a sociedade”, disse ele, ao que o policial retorquiu: “Vai ser difícil”. Niemeyer conta que riu da sinceridade fardada.

A desesperança do criador sobre mudar o Brasil mudando apenas a capital, encontra ecos décadas depois da inauguração de Brasília. A transparência dos Poderes, sonhada nos croquis do devotado comunista, se transformou em opacidade e sombras suspeitas. A simplicidade virou tapumes de ostentação, muros suntuosos, janelas de regalias e paredes mercantilistas. A hipoteca do avô pobre de Niemeyer não constrange os andaimes luxuosos das excelências togadas da cobertura. A moralidade foi esmaecendo, desbotada pelas esquadrias do formalismo jurídico, patrimonialismo e corporativismo. Sopros nocivos, mais asfixiantes do que a poeira tóxica que abrutalhava a alma, dilacerava os corpos dos candangos, os fundadores da capital.

Os alicerces da administração são solares: legalidade, eficiência, publicidade, impessoalidade e moralidade, vigas estruturais para amalgamar os valores da ética, imparcialidade, boa-fé, probidade e distância dos privilégios. Decência dispensa codificações. A claraboia da Constituição Brasileira deve iluminar o artigo 37 sob o risco de demolir as estacas mais sagradas da República, virar um telhado frágil caso insista em descolar da realidade e decolar o avião de Niemeyer para pairar nas nuvens, muito acima dos mortais. A vida, suspirou Niemeyer, “é um sopro”. É frágil e efêmera. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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