O avô do Niemeyer
Memória, poder e utopia na trajetória de Oscar Niemeyer
Oscar Niemeyer é um dos raros brasileiros universais. Sua obra e memória sobreviverão pela eternidade, uma imortalidade conquistada, não pela militância política em busca de uma sociedade igualitária e justa, mas pela genialidade na criação que sacralizou uma burguesia que o marxismo combatia. Brasília é uma pintura imponente, pousada na aridez do cerrado retorcido e seco, uma obra-prima arquitetônica a céu aberto, forjada a partir dos ensinamentos do mestre do arrojo, Le Corbusier, ao próprio Niemeyer: “Arquitetura é invenção”.
As mãos dos traços ágeis arquitetaram um sonho numa prancheta iluminada. Niemeyer forjou curvas no concreto rígido e acrescentou a leveza flexível da sinuosidade no espaço vasto do azul celeste. O sonhador, que roçou o céu das divindades, tinha pânico de avião, medo de altura. Por isso, ao desenhar sua própria aeronave, por encomenda de Juscelino Kubistchek, a aterrissou para todo o sempre no solo estático, avermelhado e árido do Planalto Central.
A Praça dos Três Poderes é a síntese da harmonia criativa, onde os prédios representam os vértices de um triângulo equilátero. Geometria concebida ao lado do urbanista Lúcio Costa, outro gênio. A arquitetura de cada sede – Executivo, Legislativo e Judiciário - sugere flutuar acima da linha do chão, com colunas finas de apoio, muito sutis, apenas resvalando o solo central da Nação, gerando uma sensação de leveza suprema.
A praça onde levitam os palácios é fustigada por uma luminosidade abrasiva, inclusive nos períodos chuvosos e rarefeitos. A transparência, ambicionada na utopia criativa, transcende o aproveitamento máximo da luz natural. A assepsia arquitetônica devassou o interior dos palácios, com vidraças generosas, de modo a permitir a completa visão externa e, quem sabe um dia, o controle social. Afinal, Brasília nasceu com o epíteto de “Capital da Esperança’.
A intimidade do comunista com o poder, além da prancheta a convite de JK, era familiar. O avô, Antônio Augusto Ribeiro de Almeida foi juiz de Direito, desembargador da Relação da Corte, juiz da Corte de Apelação, e na República chegou a ministro do Supremo Tribunal, onde teve assento entre 1896 e 1913, quando faleceu. Niemeyer dizia: “importante recordar que meu avô, ministro do Supremo Tribunal Federal, por vários anos, morreu pobre, obrigando-nos a deixar a casa hipotecada para morar numa casa modesta em Ipanema”.
Os traços idealizados pelo arquiteto vão, simbolicamente, descolorindo e se apagando no mesmo horizonte do pessimismo retórico que ele professava em suas manifestações sobre a capital da esperança. Mudar a capital era mudar o Brasil. Em um depoimento à polícia, em plena repressão, Niemeyer foi indagado sobre o que pretendia. “Queremos mudar a sociedade”, disse ele, ao que o policial retorquiu: “Vai ser difícil”. Niemeyer conta que riu da sinceridade fardada.
A desesperança do criador sobre mudar o Brasil mudando apenas a capital, encontra ecos décadas depois da inauguração de Brasília. A transparência dos Poderes, sonhada nos croquis do devotado comunista, se transformou em opacidade e sombras suspeitas. A simplicidade virou tapumes de ostentação, muros suntuosos, janelas de regalias e paredes mercantilistas. A hipoteca do avô pobre de Niemeyer não constrange os andaimes luxuosos das excelências togadas da cobertura. A moralidade foi esmaecendo, desbotada pelas esquadrias do formalismo jurídico, patrimonialismo e corporativismo. Sopros nocivos, mais asfixiantes do que a poeira tóxica que abrutalhava a alma, dilacerava os corpos dos candangos, os fundadores da capital.
Os alicerces da administração são solares: legalidade, eficiência, publicidade, impessoalidade e moralidade, vigas estruturais para amalgamar os valores da ética, imparcialidade, boa-fé, probidade e distância dos privilégios. Decência dispensa codificações. A claraboia da Constituição Brasileira deve iluminar o artigo 37 sob o risco de demolir as estacas mais sagradas da República, virar um telhado frágil caso insista em descolar da realidade e decolar o avião de Niemeyer para pairar nas nuvens, muito acima dos mortais. A vida, suspirou Niemeyer, “é um sopro”. É frágil e efêmera.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



