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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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O banqueiro de Bolsonaro

Filme milionário para transformar Jair Bolsonaro em mito político internacional emerge no centro de investigação sobre fraudes, influência e dinheiro suspeito

Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
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O áudio divulgado nesta quarta-feira, 13 de maio de 2026, pelo Intercept produziu um estrago político muito maior do que o bolsonarismo imaginava. A gravação não revela apenas um pedido de dinheiro. Revela intimidade, confiança e proximidade entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro no exato momento em que o dono do Banco Master se tornou um dos personagens mais tóxicos do país.

Durante meses, Flávio repetiu publicamente que não possuía relação relevante com Vorcaro. O áudio desmonta essa versão. O senador fala com o banqueiro como alguém preocupado com as dificuldades pessoais e financeiras do interlocutor. Não existe distância institucional na conversa. Existe familiaridade. Existe dependência política e financeira. Existe a linguagem típica de quem já atravessou muitas portas reservadas em conjunto.

“Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando”, afirma Flávio. Em seguida, surge a frase que mudou completamente o peso do escândalo: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus”.  

O projeto citado por Flávio não era pequeno, improvisado nem artesanal. Dark Horse nasceu como uma megaprodução internacional destinada a transformar Jair Bolsonaro em personagem messiânico do cinema político conservador global. Segundo documentos revelados pelo Intercept, ao menos US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões — foram direcionados ao filme entre fevereiro e maio de 2025. O orçamento total negociado teria alcançado US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões.  

O protagonista do longa seria Jim Caviezel, ator transformado em ícone da direita religiosa internacional depois de interpretar Jesus Cristo em The Passion of the Christ. O filme arrecadou mais de US$ 600 milhões no mundo e recebeu três indicações ao Oscar. Caviezel recebeu cachê relativamente modesto à época — estimado entre US$ 250 mil e US$ 500 mil — mas teria participação nos lucros da produção, o que multiplicou seus ganhos posteriores.  

A direção de Dark Horse ficou nas mãos de Cyrus Nowrasteh, cineasta conhecido por obras de forte viés político-religioso como The Stoning of Soraya M., Infidel e a minissérie The Path to 9/11. O roteiro foi entregue ao ex-secretário de Cultura de Bolsonaro, Mario Frias, que passou a atuar como operador político e ideológico do projeto.  

O problema para Flávio Bolsonaro é que Daniel Vorcaro deixou de ser apenas um empresário controverso. Tornou-se símbolo de um colapso financeiro com consequências políticas explosivas. Desde a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro de 2025, a Polícia Federal passou a investigar operações suspeitas envolvendo títulos sem lastro, carteiras de crédito consideradas fictícias e transferências bilionárias entre o Master e o BRB.

A investigação já trabalha com prejuízo potencial superior a R$ 12 bilhões dentro do BRB, banco público que mergulhou numa operação considerada por investigadores como uma das mais irresponsáveis da história recente do sistema financeiro brasileiro. Entre julho de 2024 e outubro de 2025, cerca de R$ 16,7 bilhões foram transferidos do BRB para operações ligadas ao Master.  

O caso atingiu diretamente o governador Ibaneis Rocha, o Centrão e setores influentes do Congresso Nacional. Relatórios da Polícia Federal apontam suspeitas de pagamentos periódicos atribuídos a Vorcaro para figuras políticas de alto escalão, incluindo valores mensais entre R$ 300 mil e R$ 500 mil ligados ao entorno do senador Ciro Nogueira. Nos bastidores de Brasília, grupos associados a Davi Alcolumbre e Antonio Rueda atuam para impedir a instalação de uma CPI capaz de mapear toda a engrenagem financeira e política do caso.

O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel passaram a negociar acordos de colaboração premiada. A percepção crescente em Brasília é que o escândalo deixou de ser bancário. Tornou-se uma investigação sobre circulação clandestina de influência política, financiamento oculto e captura de instituições públicas.

É nesse ponto que o filme entra numa zona ainda mais perigosa. A Polícia Federal inevitavelmente terá de investigar se os milhões destinados a Dark Horse foram integralmente declarados à Receita Federal, quais empresas participaram das transferências internacionais e se parte desses recursos acabou desviada para despesas pessoais, estruturas paralelas ou benefícios privados dos envolvidos. O tamanho do projeto, a origem nebulosa de parte dos recursos e a situação judicial de Vorcaro transformam o filme numa potencial extensão financeira do próprio escândalo Master.

Dark Horse nasceu para fabricar um herói político global. O áudio desta quarta-feira talvez tenha produzido exatamente o contrário: um retrato brutal das zonas cinzentas onde cinema ideológico, dinheiro opaco, bancos públicos e poder político passaram a operar quase sem fronteiras. Que venham, e rápido, as investigações que o país exige. Aliás, existe em várias investigações importantes que são soterradas por outras sem que tenham sido ao menos investigadas de forma completa e inquestionável. 

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.