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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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O Brasil já teve seu Milei

"Brasileiros olham com muita preocupação para a hipótese de que a Argentina passará por circunstâncias tão dramáticas quanto as que o Brasil vivenciou", escreve

Jair Bolsonaro e Javier Milei (Foto: Reuters)

Desde o surgimento da candidatura de Donald Trump e, posteriormente, do seu governo, o espectro das candidaturas de extrema-direita espalhou-se por vários países latino-americanos.

O Brasil foi o país que reproduziu, de forma mais completa, esse fantasma e essa experiência de governo. É certo que, para Bolsonaro chegar à presidência do Brasil, foi preciso afastar Dilma Rousseff do governo, por meio de um golpe jurídico-midiático. Dilma havia sido recentemente reeleita por maioria de votos em eleições democráticas, quando sofreu impeachment por meio desse golpe.

Como se não bastasse, para complementar essa ação, Lula foi preso e condenado, o que o impossibilitou de concorrer nas eleições que levaram Bolsonaro à presidência. Portanto, um processo absolutamente ilegal e antidemocrático.

Foi assim que a versão brasileira de Trump - e Milei - chegou à presidência do país. Atropelando a democracia e o Estado de Direito, contando com a anuência do Judiciário e a ação direta da mídia.

O governo de Bolsonaro foi desastroso. Procurou retomar e aprofundar uma política econômica neoliberal, levando o país à sua pior recessão econômica. As desigualdades aprofundaram-se no país mais desigual do continente e do mundo. A miséria, a fome, a exclusão social e o maior desemprego já registrado no país, além da precariedade da grande maioria dos trabalhadores, generalizaram-se.

A atuação de Bolsonaro como presidente do Brasil fez com que a imagem externa do país se tornasse objeto de ridículo e isolamento no mundo.

O Brasil viveu o pior período de sua história. Sem democracia, com a disseminação diária de discursos violentos e de discriminação contra mulheres, negros, índios, escolas, saúde pública, universidades, mídia e parlamentos.

As denúncias atuais sobre contrabando de joias simplesmente complementaram a imagem que já se tinha das formas de esbanjamento do patrimônio público por parte de toda a família Bolsonaro.

Como resultado de tudo isso, a Polícia Federal afirmou que o Brasil foi governado por uma “organização criminosa” durante o governo Bolsonaro.

Era preciso que ele fosse derrotado nas eleições democráticas por Lula para que a democracia voltasse a existir no Brasil. Para que o clima de convivência democrática retornasse ao país após seis anos. Para que a economia brasileira voltasse a crescer, para que a maioria dos trabalhadores voltasse ao emprego formal e para que a fome e a miséria diminuíssem.

A nova política externa do Brasil projetou Lula como o líder político internacional mais importante do século XXI. Ele promoveu formas de resolução pacífica de conflitos e guerras, incentivou processos de integração regional e participou ativamente da formação do Brics, que reúne países em prol de um mundo multipolar, com políticas antineoliberais na economia e na política democrática.

No geral, o Brasil precisou derrotar o bolsonarismo – e ainda luta contra o bolsonarismo – para voltar a viver em democracia, ter crescimento econômico, priorizar as atividades culturais e recuperar o respeito internacional.

Por isso, os brasileiros olham com muita preocupação para a hipótese de que a Argentina passará por circunstâncias tão dramáticas quanto as que o Brasil vivenciou.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.