O Brasil não é propriedade de Bolsonaro

"Mas, afinal, desde quando o capitão se tornou dono do Brasil, para vender tudo o que bem entender e doar a Base de Alcântara para os americanos? Seria a partir do momento em que foi eleito e empossado Presidente da República?", questiona o jornalista Ribamar Fonseca; "Sem dúvida deve haver aí um grande equívoco, pois nenhum governante, ao ser eleito, se torna dono do município, do Estado ou do país, não tendo, portanto, o direito de dispor do seu patrimônio público conforme o seu desejo"

O Brasil não é propriedade de Bolsonaro
O Brasil não é propriedade de Bolsonaro (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Quem deu a Bolsonaro o título de propriedade do Brasil? O ministro da Economia, Paulo Guedes, já disse que a ordem do chefe é vender tudo, inclusive o Correio e a Petrobrás. O próprio presidente teria manifestado essa intenção em resposta à pergunta de uma repórter da Globonews. Mas, afinal, desde quando o capitão se tornou dono do Brasil, para vender tudo o que bem entender e doar a Base de Alcântara para os americanos? Seria a partir do momento em que foi eleito e empossado Presidente da República? Sem dúvida deve haver aí um grande equívoco, pois nenhum governante, ao ser eleito, se torna dono do município, do Estado ou do país, não tendo, portanto, o direito de dispor do seu patrimônio público conforme o seu desejo. Ao eleger um presidente, seja quem for, os eleitores não lhe dão uma procuração para vender nada, mas apenas para administrar o país, de modo a promover o seu desenvolvimento e o bem-estar do seu povo. E ninguém conquistará esse objetivo dilapidando o patrimônio público, as riquezas de um país. O Congresso deveria aprovar uma lei transformando em crime a venda de qualquer estatal sem o consentimento do povo, de quem emana todo o poder, segundo a Constituição Federal.

Pensava-se que o governo Temer havia sido o pior da História do Brasil, mas o governo Bolsonaro já conseguiu superá-lo em apenas 100 dias, uma verdadeira hecatombe que ameaça destroçar o país com doses cavalares de incompetência e entreguismo. Todos os direitos conquistados ao longo de décadas estão sendo destruídos, sobretudo em relação ao trabalhador, que vem perdendo seu emprego e recolocando o país no mapa da fome, de onde havia sido retirado por Lula. Paralelamente, o capitão vem liquidando a nossa soberania, entregando nossas riquezas naturais para os americanos, incluindo terras e setores estratégicos para a segurança nacional, como a Base de Alcântara e a Amazônia. E ameaçando nos envolver numa guerra estúpida contra a Venezuela, sem nenhum motivo, apenas porque Donald Trump quer. Ao mesmo tempo, envergonha o nosso país ao ser barrado no Museu Nacional americano, duramente criticado pelo prefeito de Nova Iorque e, também, pelos seus novos aliados, os israelenses, por aventar a possibilidade de perdoar o holocausto. Afinal, foi para isso que o colocaram no Palácio do Planalto?

Os discursos de ódio da campanha, que faziam o eleitor alienado urrar de satisfação com as promessas de matanças, estão fazendo vítimas. Todos os dias somos surpreendidos com cenas de barbárie e declarações estapafúrdias de ministros e do próprio presidente. O novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, por exemplo, já assumiu prometendo demitir quem não rezasse por sua cartilha, ao mesmo tempo agredindo gratuitamente o PT, perfeitamente afinado com o chefe. Em São Paulo três homens, covardes e doentes de ódio, agrediram uma mulher que se manifestava a favor da liberdade de Lula, sob as vistas complacentes da policia. Os três, já grisalhos, são fãs de Bolsonaro, sendo que dois deles são um casal gay. Se o capitão souber disso certamente vai dispensar o seu apoio. Um repórter da Globo, que fez uma reportagem para o “Fantástico” sobre o fuzilamento de um músico negro com 80 tiros por soldados do Exército, foi ameaçado de morte por um advogado nazista, fã de Moro, que volta e meia se esconde nas redes sociais para destilar o seu veneno. Constata-se que após a eleição e posse de Bolsonaro muita gente expôs sem pudores os seus piores instintos.

Depois que o vice-presidente Hamilton Mourão disse, durante evento nos Estados Unidos, que o Brasil não cogita de participar da invasão à Venezuela, o presidente Bolsonaro aparentemente se sentiu diminuído e afirmou, para mostrar a sua autoridade: “A decisão é minha”. Acontece que num regime democrático um presidente não decide nada sozinho, o que significa que para o nosso pais entrar nessa aventura maluca e irresponsável pretendida pelo presidente americano precisará da autorização do Congresso Nacional. Como o Supremo parece já ter capitulado, após a ameaça de fechamento por um cabo e um soldado, e os militares estão engajados nesse governo, reside no Congresso a esperança de se colocar um freio nas loucuras do capitão, impedindo não apenas a entrada do Brasil nessa guerra absurda como, também, a entrega da Base Espacial de Alcântara e a Amazonia para os norte-americanos. Até porque, por mais incrível que possa parecer, apesar de ter declarado que não tem vocação para presidente, Bolsonaro revelou recentemente o desejo de concorrer à reeleição em 2022, dobrando-se a supostas pressões dos seus amigos e admiradores. Ele praticamente ainda nem começou o seu governo e já pensa em permanecer no cargo por mais quatro anos, o que representa a mais nova ameaça ao nosso país.

A coisa, na verdade, tá ficando muito feia: até o Supremo, antigamente considerado guardião da Constituição, já está censurando, violando a Carta Magna. O ministro Alexandre de Moraes determinou que a revista digital “Crusoé” e o site “O Antagonista” retirassem do ar reportagem sobre citação do ministro Dias Tóffoli, presidente do STF, nas investigações da Lava-Jato. A reportagem foi baseada em delação de Marcello Odebrecht, que identificou Tóffoli como “o amigo do amigo do meu pai”, constante nas planilhas. Diante das pressões de todos os lados Moraes recuou e suspendeu a censura, mas o episódio serviu para escancarar a hipocrisia e o cinismo de muitos que hoje criticaram ferozmente o ministro do STF mas aplaudiram o ministro Fux quando ele proibiu a publicação, por qualquer veículo de comunicação, de uma entrevista do ex-presidente Lula. O próprio “Antagonista” não gostou de provar do mesmo remédio que festejou quando aplicado a Lula. E o mais surpreendente: muitos, inclusive a PGR, entidade dos procuradores e veículos da chamada grande imprensa, que aplaudiram ou ignoraram os argumentos da defesa de Lula quanto à falta de provas para a sua condenação e os abusos do então juiz Sergio Moro, agora usaram os mesmos argumentos para defenderem a liberdade de expressão dos investigados por agredirem o Supremo. Ficou claro, mais uma vez, que a lei não vale quando pode beneficiar o ex-presidente. Uma vergonha!

 

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