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Ricardo Nêggo Tom

Músico, graduando em jornalismo, locutor, roteirista, produtor e apresentador dos programas "Um Tom de resistência", "30 Minutos" e "22 Horas", na TV 247, e colunista do Brasil 247

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O Brasil sob o fascismo evangélico

Livrar o país de um domínio teocrático, é evitar que demônios imperialistas controlem toda a nossa sociedade, alerta Ricardo Nêggo Tom

O Brasil sob o fascismo evangélico (Foto: Divulgação )

Desde que passei a compreender o real propósito por trás do “avivamento” evangélico no país, comecei a pesquisar as suas raízes, influências, e modo de operação na nossa sociedade. A partir desta pesquisa, aliada à minha experiência e vivência cristã católica desde a infância – algo que hoje não faz mais parte da minha crença e espiritualidade – passei a observar com atenção o comportamento, não apenas dos líderes religiosos ligados ao projeto de poder neopentecostal, mas, sobretudo, o dos seus liderados. Os crentes. As “ovelhas”, como recentemente se referiu André Valadão aos fiéis da Igreja Batista da Lagoinha - uma das muitas instituições financeiras que atuam no país sob a alcunha de “igreja” - ao pedir “perdão” por possíveis erros cometidos por sua gestão. Um baita negócio dos EUA trazido para o Brasil no final dos anos 1970, cuja bênção do deus capitalismo tem feito prosperar divina e corruptamente.

Da minha pesquisa, e também da minha inquietação com relação ao tema, nasce a ideia de escrever um livro que fala sobre todo esse processo de “investigação” e denuncia a formação de uma máquina teológico-política que, sob o disfarce da fé, busca capturar a esfera pública, submeter o Estado laico e reorganizar a vida nacional segundo a lógica do medo, da obediência, da guerra moral e de uma suposta batalha espiritual do bem contra o mal. Se observarmos atentamente, ou iremos identificar a lógica bolsonarista contida neste discurso religioso, ou tal discurso religioso inserido na lógica bolsonarista. O que corrobora a tese que defendo há tempos, de que a igreja evangélica brasileira é o grande sustentáculo do bolsonarismo e do discurso da extrema direita no país. E que se inclua também movimentos católicos fundamentalistas, como a Canção Nova e o Centro Dom Bosco, entre outros, como pilares desta sustentação política.

O avanço do neopentecostalismo no país denota total afinidade com ideologias autoritárias, e mostra uma clara associação com o capitalismo predatório e opressor dos mais pobres. Algo que o afasta do jesuismo e de sua mensagem de amor e compaixão pelo próximo. Digo jesuismo, por entender que o que conhecemos hoje por cristianismo não contempla, e nunca contemplou, de fato, os ensinamentos do Cristo. Tornando-se uma religião sistêmica, cujo poder está centralizado em homens ditos moralmente superiores e pretensamente ungidos por uma divindade onipotente, que se julgam capazes de reger o mundo inteiro baseado em seus “valores”, crenças e verdades absolutas. Outro ponto letal desse avanço, é a sua ofensiva sobre a educação, a cultura, a política e o imaginário popular. Uma parte do projeto que visa desconstruir tudo aquilo que não se encaixa na sua ideologia de controle, e impor a obediência e submissão diante daquilo que eles consideram agradável a Deus: Eles mesmos.

Quando ouvimos um louvor gospel cuja frase diz: “Todo joelho se dobrará e toda língua proclamará que Jesus Cristo é o senhor”, estamos diante de um mantra religioso cuja mensagem subliminar é fascista e exalta o poder do homem sobre o homem. Que ninguém creia, de fato, que quando a apóstolo Paulo escreveu em Filipenses, 2:10-11 que “para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai”, ele estava se referindo a salvação que o cristianismo prega que Jesus oferece. Paulo estava propondo que todos, cristãos ou não, dobrassem seus joelhos diante daquilo que ele acreditava e tinha como verdade inquestionável. O que implicaria submeter toda a sociedade da época aos seus caprichos religiosos sob forma de autoridade espiritualmente constituída. É o mesmo que o projeto de poder neopentecostal pretende fazer no Brasil nos dias de hoje.

Um domínio teocrático como regime religioso, subverte o conceito de liberdade natural de pensamento, de ação, de movimento e de sentimento do indivíduo, fazendo com que ele anule a própria existência em nome de algo “maior”, salvífico, que o conduzirá a uma vida plena e eterna. Mesmo que não haja nenhuma comprovação fática de que ele a viverá. É o uso da fé alheia em benefício dos interesses do projeto religioso de poder. Um domínio teocrático como regime político, impõe legalmente a ausência de liberdade, de pensamento, de ação, de movimento e de sentimento do indivíduo como um conceito de sociedade, anulando – até mesmo fisicamente - a existência de todos aqueles que não dobrarem os seus joelhos diante de tal domínio, e não confessarem que seus líderes são os seus senhores. Isso se chama fascismo. E ainda que se apresente com um verniz evangélico e cristão, é fascismo.

No que tange a ofensiva contra a cultura e o imaginário popular, o combate à misoginia, por exemplo, representa um obstáculo para tal projeto de poder fundamentalista religioso. Alicerçado sob uma estrutura patriarcal, onde Deus é pai, e a mulher foi a responsável por introduzir o pecado no mundo – conforme o livro de Gênesis – e por isso teria sido condenada por Deus a ter dores durante o parto, e a ser eternamente submissa ao homem, para os fundamentalistas imaginar um mundo sem misoginia, sem machismo e sem violência contra a mulher, é imaginar um mundo antinatural e “antimasculino”, como publicou Eduardo Bolsonaro em seu perfil no “X”, reagindo a aprovação da lei que criminaliza a misoginia. Não por coincidência, a extrema-direita e a bancada evangélica se posicionaram majoritariamente contra o projeto. Afinal, como manter as pregações que reduzem a mulher a uma costela do homem, e a submetem a sua obediência em nome de Deus, segundo a inferiorização feminina que a Bíblia defende?

Livrar o país de um domínio teocrático, é evitar que demônios fundamentalistas e imperialistas controlem toda a nossa sociedade. No meu livro “Domínio teocrático: o Brasil sob o fascismo evangélico”, já disponível em pré-venda no site da editora Kotter com 30% de desconto( https://kotter.com.br/loja/pre-venda/dominio-teocratico-o-brasil-sob-o-fascismo-evangelico/ ), eu escrevo contra a anestesia e desmonto a fantasia de que estamos diante apenas de “excessos religiosos” ou de meras excentricidades de púlpito. O que está em jogo, é a disputa pelo país: por suas instituições, por sua memória, por sua linguagem, por sua cultura, por sua pluralidade de crenças, por sua educação e por sua ideia de cidadania. Um alerta para quem deseja compreender uma das forças mais agressivas e menos inocentes do Brasil contemporâneo. Jesus te ama, mas eles não. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.