O Brasil, uma narcocracia

Os brasileiros vão descobrir que não são diferentes da Colômbia, do Paraguai, da Argentina, do Peru, do Panamá. Quem sabe, o Brasil seja até pior, bem pior, com uma narcocracia reinante na política, na economia, na imprensa. Silenciosamente reinante

A história da América Latina, lamentavelmente, se confunde com a do narcotráfico. Rios de dinheiro irrigaram (e irrigam) campanhas eleitorais, corrompem governos, compram a imprensa e desgraçam a sociedade dando vazão as suas piores facetas e práticas.

Na velha e sofrida Bolívia os produtores e traficantes foram tão longe que financiaram um sangrento golpe de estado, mataram dezenas de lideranças políticas, sindicais e populares e – incrivelmente – entronizaram um bandido fardado, o coronel Alberto Natush Bush, como primeiro mandatário do país. O célebre "narco-presidente", um homem estúpido e militar caricato conhecido por sua declarada admiração a Hitler, passou rápido pelo Palácio Quemado: foram 16 breves e tormentosos dias em que os chefões do tráfico e da produção de cocaína manejaram um país só para eles. Natush terminou defenestrado e preso. Mal poderia imaginar que quase três décadas depois um indígena ocuparia o mesmo lugar e defenderia o plantio das folhas de coca – matéria básica do fabrico da cocaína – como sendo uma "questão cultural". Evo Morales chega a dizer que a Coca-Cola produzida pelos americanos é tão nociva quanto a coca plantada e colhida por seus compatriotas.

No Peru de Fujimori, seu homem-forte fez uma ponte segura com o narcotráfico. Em seu bunker no comando do exército, o coronel Vlademiro Montesinos protegeu um dos maiores narcotraficantes de que se tem notícia, Demetrio Chávez Peñaherrera, o famosíssimo "Vaticano", nos tempos em que exerceu o poder numa espécie de co-presidência. "Vaticano" inundou o mercado norte-americano com milhares de toneladas de cocaína de alta pureza, transportando-as com a cobertura das próprias forças armadas peruanas e dos organismos policiais que tinham a função de reprimir os traficantes. Boa parte das dezenas de jornais que brotaram como cogumelos nos anos da ditadura fujimorista, caluniando impiedosamente os inimigos do regime em manchetes amorais, eram pagos com maços de dólares entregues por Montesinos e vindos do tráfico internacional de drogas. Vídeos que provocaram a queda do então presidente, mostravam a desenvoltura de jornalistas, deputados, empresários e artistas que iam receber – pessoal e alegremente – a mesada paga pelo apoio recebido. Hoje são escassos os metros que separam as duas celas, de insuportável calor e de concreto-armado, ocupadas no inexpugnável complexo penitenciário de Callao pelo ambicioso Montesinos e seu sócio, o frio e deplorável Alberto Fujimori, o "Chino".

Um cunhada de Carlos Menem, sua poderosa secretaria pessoal na Casa Rosada durante os anos áureos do poder e queridinha da irmã e então primeira-dama Zulema Yoma, envolveu-se com o tráfico internacional. Amira Yoma, arrogante e certa da impunidade, nomeou o marido para a chefia da fiscalização da aduana do aeroporto de Ezeiza, o mais importante da Argentina. E assim, o sírio Ibrahim Al Ibrahim, que não falava uma única palavra de espanhol, garantiu a passagem de centenas ou milhares de malas contendo dólares, armas, jóias e – principalmente – cocaína. A prisão preventina de Amira, decretada por uma desavisada juíza portenha, durou pouco; o maridão voltou para Damasco numa fuga organizada pelo próprio governo Menem e, pouco tempo depois, apesar da estrondosa repercussão do "Narcogate" (um dos maiores escândalos das centenas que espoucaram na década do mafioso neo-liberal), Amira estava de volta aos círculos mais íntimos do poder, com a mesma arrogância e a mesma força de antes.

Um dos estratagemas do governo menemista para abafar o escândalo, foi uma calculada operação policial contra Diego Maradona, que cheirava cocaína com amigos em um apartamento. Ironia das ironias, o craque havia sido um gratuito e entusiasmado cabo-eleitoral do gatuno peronista. Anos depois, os filhos do brigadeiro chefe da Casa Militar do mesmo Carlos Saul Menem, foram detidos no aeroporto de Barajas, em Madri, com mais de uma tonelada de cocaína escondida na estrutura de um jatinho particular, pilotado por um deles. Menem nada pode fazer para ajudá-los, já que recolhido em prisão domiciliar em sua La Rioja, uma das províncias mais pobres e calorentas do pobre e calorento norte argentino.

Dino Bouterse, filho do ditador Desi Bouterse, do Suriname, foi preso em agosto passado pelas autoridades do Panamá. Acusação: chefia de uma quadrilha internacional de traficantes de drogas. Dois dias depois, um juiz de Manhattan pedia sua extradição para os EUA, prontamente concedida. Dino, um sujeito arrogante de apenas 40 anos, amante de Ferraris potentes e lindas mulheres, já havia sido condenado a oito anos de prisão no próprio Suriname em 2005, por liderar uma gang de tráfico de armas e drogas, mesmo com papai sendo o ditador. Saiu da cadeia em 2008 por bom comportamento, e logo depois, o atlético e vaidoso jovem foi nomeado pelo generoso genitor para a chefia de uma poderosa e violenta Unidade Antiterrorista. Herança genética: nos anos 80 o presidente brasileiro João Figueiredo, a pedido dos EUA, enviara o general Danilo Venturini, seu homem de confiança, para enquadrar Bouterse pela conhecida operação de laboratórios de refino de cocaína nas selvas surinamesas em conjunto com os cartéis colombianos. Não obteve nenhum sucesso, pois não? Hoje, como naqueles já distantes anos, Bouterse manda no Suriname. Nada indica que continue aliado aos traficantes, mas seu filho está numa jaula na Ilha de Manhattan e é muito provável que de lá não saia jamais. C'est la vie...

Na rica Colômbia, terra de grandes valores culturais, de abundantes riquezas naturais e de uma sólida democracia, nada disso conseguiu superar a má fama alcançada pela verdadeira simbiose que existiu entre o país e a cocaína. Os cartéis de bandidos das ricas cidades de Medellín e de Cali reinaram por décadas, incrustrados no tecido social, financiando presidentes, governadores, senadores, deputados, prefeitos, artistas, clubes esportivos, equipes de futebol, sindicatos de trabalhadores, chefes militares, policiais, igrejas, rainhas da beleza, grêmios estudantis, toureiros... Ufa! Pablo Escobar, do violento Cartel de Medellín, e os irmãos Rodriguez Orejuela, do sofisticado Cartel de Cali, enfim, financiaram a Colômbia inteira. Até que o governo começasse a deportá-los para os EUA (com cadeias perpétuas mais que certas), debaixo de pressão direta da Casa Branca através de duros embaixadores que constituíram autênticos governos paralelos na fria e cinzenta Bogotá, os marginais da droga mandavam e desmandavam numa Colômbia intranquila, amedrontada e banhada em sangue. Um senador, Alberto Santofimio, era conselheiro oficial de Escobar. E um presidente democraticamente eleito, Ernesto Samper, foi vitorioso numa dura disputa em segundo turno por conta de um avião cheio de caixas de dinheiro que lhe enviaram os de Cali, no famoso "vuelo de la plata" que quase lhe causou um impeachment através do rumoroso "Processo 8.000". Foi preciso um homem duro e sem medo, o antipático e competente Alvaro Uribe, para (e apenas em meados da década passada) acabar definitivamente com os grandes cartéis e, de quebra, cortar a cabeça da guerrilha das FARC. Os sanguinários bandoleiros foram caçados como ratos, embrenhando-se na selva da Amazônia equatoriana e na rica fronteira nos Andes venezuelanos. Descobriu-se após um bombardeio ao acampamento das FARC no Equador, com a captura do laptop de um dos chefões mortos, estreitos laços com o regime bolivariano do falecido Hugo Chávez e comunicação direta com próceres do governo de Rafael Correa. Os cartéis financiavam o terrorismo, que era protegido pelos presidentes da Venezuela e do Equador. Que tal?

Nos anos 80 os barões da droga colombiana operavam fortemente com o regime sandinista. Aviões saiam do interior da Colômbia e faziam escala na Nicarágua, onde o próprio Pablo Escobar supervisionava o transbordo das cargas de toneladas de coca com destino ao mercado norte-americano. Tudo documentado em fotos pela DEA, o organismo anti-drogas dos EUA. E dentro de bases da Força Aérea sandinista!

Os barões da droga colombiana teriam celebrado um pacto comercial com o regime dos irmãos Castro, na mesma época, e a ilha de Cuba passou a ser um porta-aviões dos cartéis. Toneladas de pó passaram por aeroportos secundários, em Varadero, Santiago de Cuba e Piñar del Rio. No amanhecer de 13 de julho de 1989, o corpo de Arnaldo Ochoa, o mais condecorado dos generais de Fidel, caiu crivado por balas diante de um pelotão de fuzilamento. Herói da campanha em Angola, Ochoa foi eliminado pela nomenclatura cubana sob a acusação de tráfico de drogas. Para a DEA foi uma maneira de Fidel eliminar um aliado popular e respeitado que poderia lhe trazer problemas num futuro não muito distante, disputando sua sucessão com seu irmão Raul Castro, um homem despojado do carisma que transbordava em Ochoa. E, sobretudo, a queima de um arquivo importantíssimo: o general teria, realmente, participado das operações dos traficantes, mas como representante da ditadura, organizando embarques e desembarques como uma "missão militar". Ao matá-lo o eterno ditador sinalizou ao mundo exatamente o contrário da realidade.

Meu Paraguai não fica longe ou fora de tão tristes realidades. Na tríplice fronteira, entre nossa Ciudad de Leste, Foz do Iguaçu e a cidade argentina de Iguazú, existiria um mundo paralelo, bilionário e perigoso, com bases dos terroristas árabes e de narcotraficantes internacionais. Só as autoridades dos três países parecem não saber ou acreditar nessa dura realidade. Até as águas que rolam na bela cachoeira estão cansadas de saber que aquela é uma das esquinas mais perigosas do mundo do crime.

Poucos dias depois da posse do industrial, banqueiro e dirigente esportivo Horácio Cartes na presidência da República, em agosto passado, o Paraguai foi sacudido com uma informação até então guardada debaixo de sete chaves: o tio do novo ocupante do Palácio de Lopez, eleito numa campanha milionária e bem-sucedida, foi preso no Uruguai pilotando um pequeno avião. A carga de mais de 400 kg de maconha foi descoberta quando caças da Força Aérea o obrigaram a pousar numa base próxima à Montevideo. Juan Domingo Viveros Cartes já havia cumprido pena como traficante, só que transportando grandes partidas de cocaína. Sua história se confunde com a do general Andrés Rodriguez, comandante do exército durante a ditadura de Alfredo Stroessner. Viveros Cartes foi o fiel piloto particular de Rodriguez, que viria a ser presidente ao derrubar Strossner. Só como presidente do Paraguay e aceitando aderir às duras políticas anti-droga da DEA, o general teve um visto para entrar nos EUA: os ianques o apontaram durante toda a vida como o cabeça do narcotráfico naquele velho Paraguay, onde Stroessner dividia os setores da economia entre sua camarilha para poder reinar. A droga ficou estabelecida como um mercado exclusivo do general Andrés Rodriguez.

Escrevi um livro sobre o atual presidente paraguaio Horácio Cartes. Sem uma única acusação, apenas recordando fatos acontecidos, republicando documentos propositadamente esquecidos, jogando luz sobre a obscuridade de informações mal divulgadas ou cometendo a temeridade de dizer em voz alta o que todos os que fingem desconhecer a realidade, porém, comentam em voz baixa, recolhidos ao medo ou a covardia pura e simples. "La Otra Cara de HC" foi um dos livros mais vendidos na história do Paraguai. Poucas livrarias tiveram a audácia de expô-lo em suas vitrines e estantes. As que o fizeram ganharam um bom dinheiro com as filas que se formaram para comprar os exemplares disputados por cidadãs e cidadãos que, impedidos de derrotar Cartes tanto pelo poder do seu dinheiro quanto pela máquina azeitada do secular Partido Colorado, buscaram conhecer o que viria pela frente...

O delegado Romeu Tuma, o velho e saudoso amigo a quem dedico meu livro, ajudou-me em seus tempos de diretor da Polícia Federal brasileira a desvendar os mistérios que cercavam (e ainda cercam) o atual presidente Horácio Cartes e seu envolvimento com a lavagem de dinheiro através de sua casa de câmbio, a Amambay, hoje transformada em um poderoso banco comercial. Percorri os caminhos que me levaram a esclarecer os laços que o uniram a personagens inequivocamente relacionados ao submundo do contrabando e da lavagem de dinheiro dos traficantes. Relacionar o atual presidente diretamente ao narcotráfico não o fiz, mas desvendei os mistérios que o cercam e as personagens que, essas sim, deveriam estar atrás das grades. O respeitado presidente uruguaio Pepe Mujica, conhecido pela sinceridade desconcertante, chegou a disparou durante a campanha eleitoral uma frase reveladora: "O Partido Colorado é um narcopartido".

Agora o Brasil se vê às voltas com um escândalo de dimensões internacionais: um helicóptero de propriedade de uma empresa, cujo dono é um deputado filho de um senador, comandado pelo piloto que é funcionário do gabinete do deputado e abastecido com combustível pago por verbas oficiais do filho deputado e do pai senador, foi surpreendido pela polícia numa fazenda de propriedade do senador pai e do filho deputado, descarregando quase meia tonelada de cocaína. E a grande mídia brasileira, num silêncio gritante, sequer noticia com destaque o claro envolvimento de ambos – direta ou indiretamente, pouco importa! – com o tráfico de cocaína. O culpado será o mordomo aéreo? Claro que não.

Se em todos os países citados – e mais alguns outros, como no caso do prefeito de Toronto, surpreendido usando crack, ou o ex-prefeito negro de Washington, filmado cheirando com uma prostituta em uma suíte de hotel cinco estrelas – há o envolvimento de políticos, viciados ou traficantes, por qual razão no Brasil seria diferente? Os principais suspeitos, com claros e veementes indícios de envolvimento direto, são o papai senador e seu filhote deputado. E mais suspeita é a imprensa que se cala, não investiga, tergiversa e mente.

No Brasil de 1989 falava-se em voz baixa de uma provável ligação do então candidato presidencial Fernando Collor com as drogas. Ele seria um usuário. Ninguém o confrontou ou, ao menos, pediu-lhe esclarecimentos. Fez um governo controverso, comportou-se como um louco, caiu debaixo de um escândalo de grandes proporções depois de denúncias (comprovadas, aliás) feitas pelo próprio irmão. E foi Pedro Collor quem disse o que o Brasil não teve coragem de lhe perguntar, chegando ao detalhe sórdido: o irmão presidente usaria supositórios de cocaína. Quem quiser usá-los que os use, mas não pode ser presidente, ok? Todo e qualquer político sob o qual pairar a suspeita de ser usuário e adicto de drogas, está impedido de ser presidente de seu país. Alguém ouviu falar que Mandela, Roosevelt, Getúlio ou Perón cafungavam carreiras?

Já se passou muito tempo e ninguém mais se lembra de que Rondônia é ou foi uma narco-província, onde o falecido senador Olavo Pires foi executado por pistoleiros profissionais, com o corpo partido ao meio por tiros de submetralhadora, num aparente acerto de contas dos cartéis colombianos com alguém que, ao que tudo indica, lavava dinheiro do tráfico internacional em empresas de sua propriedade. Sua fortuna (aviões, fazendas, revendas de automóveis e máquinas pesadas) brotou de um dia para o outro e todos acharam muito normal isso, inclusive dando ao pilantra um mandato no Senado da República.

O mais competente senador paraguaio, o colorado Kalé Galaverna, político corajoso que rompeu com Stroessner quando o ditador ainda era o dono de nosso país, subiu à tribuna do senado e acusou o falecido general Lino Oviedo de ser ligado ao narcotráfico. De quebra, envolveu o então governador do Paraná Roberto Requião, amigo pessoal de Oviedo e que seria seu sócio nas atividades ilícitas. O general, tão belicoso quanto Galaverna, não respondeu e fingiu não ser com ele. Requião, idem. Todo e qualquer homem público acusado de ligação com o tráfico ou de usuário de drogas tem o dever de esclarecer a situação e processar os acusadores. O silêncio é, em tese, uma confissão de culpa.

Há no interior do Brasil (como da Argentina e do Paraguai) uma infinidade de novos ricos, de potentados donos das cidades onde vivem, com carrões luxuosos, grandes fazendas e empresas prósperas, aviões e helicópteros (sempre, sempre!), e ninguém lhes pergunta a origem de fortunas tão grandes e constituídas tão rapidamente. Ao contrário, são festejados. Pois vieram do pó e ao pó sempre voltarão. Só as autoridades, o governo, a imprensa e a sociedade não sabem, ou fingem não saber.

A queda do narco-helicóptero em mãos das autoridades policiais, a descoberta de meia tonelada de pó, a estranha situação funcional do piloto da família, a origem nebulosa da imensa fortuna do senador Perella (dirigente mafioso de um time de futebol, o Cruzeiro), o combustível pago com dinheiro público, o silêncio indecente da grande mídia brasileira, tudo isso, tudo, tudo mesmo, é apenas a confirmação de que o caso precisa ser investigado, e bem investigado. Aí, então, os brasileiros vão descobrir que não são diferentes da Colômbia, do Paraguai, da Argentina, do Peru, do Panamá. Quem sabe, o Brasil seja até pior, bem pior, com uma narcocracia reinante na política, na economia, na imprensa. Silenciosamente reinante.

(*) Chiqui Avalos é jornalista e escritor paraguaio, correspondente do Brasil247 no Mercosul.

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