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Emerson Barros de Aguiar

Escritor, bioeticista e professor universitário

31 artigos

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O 'Cachorro Louco' do Norte

Como a desigualdade extrema e o colapso da mediação democrática abrem espaço para o autoritarismo como método de governo

Donald Trump concede entrevista em Palm Beach 3/1/2026 REUTERS/Jonathan Ernst (Foto: Jonathan Ernst)

Donald Trump não é um acidente da história; ele é produto acabado — e brutalmente coerente — de uma ordem econômica em esgotamento, que já não consegue se legitimar pelos rituais clássicos da democracia liberal. Quando a desigualdade deixa de ser um “efeito colateral” e passa a ser o próprio motor do sistema, a plutocracia abandona qualquer pudor, qualquer flegma, dispensa intermediários e fala em voz direta, brutal e ameaçadora. Trump é essa voz: a do capital depravado que não aceita mais fingir civilidade.

Nas últimas quatro décadas, a renda do topo da pirâmide norte-americana cresceu em ritmo exponencial, enquanto o salário real da classe média permaneceu estagnado. Relatórios sucessivos de instituições como o Federal Reserve e estudos amplamente divulgados pela imprensa econômica mostram que a concentração de riqueza nos Estados Unidos atingiu níveis comparáveis aos da década de 1920 — o período imediatamente anterior à Grande Depressão.

Hoje, uma fração mínima da população controla parcela desproporcional do patrimônio nacional, enquanto milhões vivem endividados, socialmente esmagados e politicamente entorpecidos. Foi nesse caldo social que o trumpismo floresceu como solução rápida e autoritária.

Seu traço mais perigoso não está nas grosserias performáticas, nem no vocabulário de beco, mas na função sistêmica que desempenha. Trump governa pelo choque permanente. Ele sabota deliberadamente a linguagem pública, transforma a mentira em método e substitui o debate racional por um espetáculo incessante de antagonismos. O caos que produz não é um desvio; é um instrumento. Ele desorganiza a resistência, dissolve consensos mínimos e banaliza o absurdo.

Quando tudo vira absurdo e escândalo, nada mais escandaliza. O intolerável passa a ser rotina. Isso não é loucura, é método.

A história política está cheia dessas figuras que emergem quando as elites perdem confiança nas próprias instituições. Quando o lucro arrefece, quando a taxa de retorno já não compensa o verniz democrático, a plutocracia abandona a liturgia e aposta na brutalidade. Primeiro, desmoraliza o sistema criado por ela mesma, faz-se de libertária; depois o ocupa. A ignorância deixa de ser defeito e passa a ser virtude estratégica. Governa-se não para administrar, mas para saquear.

Matar para roubar — agora com gravata, Twitter e drones.

Como Calígula ou Nero, Trump reduz o poder à afirmação da vontade “pessoal”: confunde governo com encenação e testa, de forma sistemática, os limites institucionais até fazê-los sucumbir a ele e aos interesses que representa.

Calígula nomeou seu cavalo como símbolo do desprezo pelo Senado; Trump nomeou bilionários, lobistas e ideólogos do mercado para cargos-chave do Estado. A mensagem é a mesma: o poder não precisa justificar-se, apenas impor-se.

A diferença é que, no século XXI, esse método opera sobre uma infraestrutura tecnológica global, uma máquina de desinformação em tempo real, sabotagem tecnológica, ataques cirúrgicos e um arsenal nuclear efetivo. O risco político deixa de ser nacional e assume escala civilizatória. Não se trata mais de um déspota excêntrico, mas de um operador do caos com acesso à Máquina do Apocalipse.

A retórica antissistema de Trump é uma farsa funcional. Ele não combate a elite econômica; ele a liberta de qualquer constrangimento simbólico e legal.

Ao ridicularizar instituições, corroer normas e desprezar a mediação democrática, cria o ambiente ideal para que o poder econômico atue sem freios morais ou limites políticos.

O Estado deixa de ser árbitro e passa a ser ferramenta. A política se converte em mera extensão da lógica do mercado: agressiva e predatória. O bem comum vira estorvo; o lucro, objetivo final.

O verdadeiro perigo, no entanto, não reside apenas na figura individual. Ele está no precedente que se consolida.

A história ensina que regimes assim não desmoronam de imediato. Eles apodrecem lentamente, até que o custo de restaurar a racionalidade pública se torna alto demais.

Trump não irá parar por iluminação moral nem por súbita reverência às instituições. Figuras dessa natureza cessam apenas quando encontram limites externos eficazes.

Enfrentar esse fenômeno exige mais do que indignação moral, memes espirituosos ou nostalgia liberal. Requer reconstruir a política como espaço de responsabilidade coletiva, submeter o poder econômico a controles reais e restaurar a centralidade da razão pública.

Sem isso, Trump, Milei e Bolsonaro não serão exceções históricas, mas produtos de exportação.

E, nesse caso, o problema já não será um homem com poder nuclear — será um mundo que decidiu normalizar a barbárie como forma legítima de governo.

E ele não vai parar, enquanto não for parado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.