O cálculo dos interesses econômicos globais no desmonte das empresas brasileiras

O argumento de que sem propina não se produz no Brasil até pode se sustentar, mas não é de hoje que seus limites estão postos. A propina garante que nossas empresas sejam medíocres. A propina garante que a JBS seja a maior devedora do país em previdência social

Frigorifico, carne
Frigorifico, carne (Foto: Danillo Bragança)

Não é teoria da conspiração, mas não é exatamente difícil entender eventos ligados entre si.

Nossas grandes cadeias produtivas foram transformadas em nada, de três anos no máximo para cá. Milhões de empregos pelo ralo. Da indústria naval, passando pela construção civil, chegando à nossa indústria de alimentos.

Três pontos precisam ser levantados nesse momento: a qualidade das nossas empresas mais competitivas; as relações entre autoridades, políticos e empresas; e o efeito geral de mais este impacto para nossa economia.

Os três fariam envergonhar o nacionalista mais convicto. Todos os três são a maneira como tradicionalmente nos inserimos no mundo, como construímos nossas relações econômicas e políticas.

O primeiro ponto diz em relação às nossas maiores empresas. Elas são extremamente importantes para nossa economia, mas são fundamentalmente irresponsáveis e imprudentes. O que dizer de uma empresa que manipula carne podre e põe na merenda escolar?

O argumento de que sem propina não se produz no Brasil até pode se sustentar, mas não é de hoje que seus limites estão postos. A propina garante que nossas empresas sejam medíocres. A propina garante que a JBS seja a maior devedora do país em previdência social.

Uma empresa que cumpre suas obrigações, é competitiva, investe em inovação, precisa de propina?

Provavelmente, sim.

Entra aí o segundo ponto. É preciso financiar as campanhas, fazer favores pessoais, subornar fiscais com quilos de peito de frango. A cadeia toda está tão misturada em relações de clientela, que não é possível separar as coisas. Todas estas empresas são grandes anunciantes no Brasil, e sequer a mídia consegue denunciá-las. São cúmplices, afinal.

O ministro Teori Zavascki morreu num avião que pertencia a um grande empresário da rede hoteleira. O que um ministro do STF estava fazendo em companhia de um agente econômico que tinha, inclusive, ações contra ele no próprio tribunal.

Acho que esquecemos disso muito rápido.

Por fim, o terceiro ponto. Não satisfeitos em depreciar a qualidade competitiva de nossas empresas, fazê-las co-dependentes de um tipo de desenvolvimento insustentável, de uma classe política corrupta até o nível mais provincial e de uma mídia que joga permanentemente como ator político, acabamos por desmantelar mais um setor produtivo importante de nossas economia.

O que dizer?

A quem interessa que não tenhamos um desenvolvimento autônomo e um mercado interno vibrante? A quem interessa termos saído de uma condição de pleno emprego para um quadro de quase 13 milhões de desempregados? Que nossas famílias não tenham o mesmo nível de consumo? Que o Estado seja pequeno, tenhamos um teto desumano de gastos e que a nossa capacidade de investimento em si mesmo praticamente seja congelada por 20 anos?

Siga o dinheiro.

Se a corrupção é, necessariamente, poder econômico, quem tem mais dinheiro sempre fará a balança pesar para o seu lado. Num mundo de fluxos econômicos globais interdependentes, não estamos conseguindo fazer a balança pesar para o nosso lado.

É um ataque externo. Definitivamente, é um ataque externo, e não estamos sabendo lidar com ele.

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