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Benedita da Silva

Deputada federal pelo PT-RJ, ex-governadora do Rio de Janeiro e primeira senadora negra do Brasil

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O caldo da violência continua engrossando

E enquanto o tráfico de drogas e de armas não for combatido nas suas origens, que não é a favela, a violência nunca acabará e continuará se abatendo, como sempre o foi, contra o morador inocente ou o simples usuário de droga

Ocupação militar favela no Rio (Foto: Benedita da Silva)

O Datafolha publicou recentemente dados sobre o sentimento de insegurança pública no município do Rio de Janeiro, mas que infelizmente podemos projetar para quase todas as capitais do país.

A pesquisa revela que 72% dos cariocas aceitariam mudar da cidade em razão da violência.

Esse dado revela o enorme sentimento de impotência da população diante da incapacidade dos governos e de suas polícias para controlar a violência. É um dado que se completa com outros, também fruto do desespero, que mostram 82% da população apoiando a convocação das Forças Armadas, mesmo que 52% admitam que isso não vai resolver dado as experiências infrutíferas anteriores.

Outros dados do Datafolha mostram que a população carioca perdeu a confiança na polícia, instituição que, em teoria, é que deveria protegê-la.

Enquanto 67% têm medo da polícia, 89% acham que ela é corrupta. Em relação ao medo da polícia é significativo o corte de classe. Esse medo é menor para os que ganham acima de 10 salários mínimos, com o índice de 57%, mesmo assim abrangendo a maioria desse segmento socialmente privilegiado. Para os que estão na base da pirâmide social, os que ganham até 2 salários mínimos e vivem nas favelas e periferias, o índice do medo da polícia atinge 70%.

Os dados da pesquisa levantam questões de grande alcance social e político. Como denunciamos sempre, o morador da favela e periferia pobre é um cidadão para ser contido pela polícia e não protegido por ela, como seria de se esperar pelo que determina os direitos fundamentais da Constituição. Daí o grande temor da polícia existente nesses segmentos, pois a vêm como uma força agressiva e não como força protetora ou pacificadora, como é o termo usado nas UPPs.

Por sua vez, a intervenção militar, defendida pela direita golpista, é apontada como solução mágica para tudo, da mesma forma como se dizia que o impeachment ilegal de Dilma resolveria todos os problemas do país. Vimos no que deu! Por mais de uma vez o uso dos militares para combater a criminalidade tem se mostrado improdutivo. Exército não foi criado nem é treinado para combater criminalidade. Quem convoca o militar para essa função tem outros objetivos políticos e que não é o de combater a violência.

Vemos na defesa da intervenção militar para se combater a violência a indução de ideias golpistas por meios de comunicação explorando o sentimento de impotência e o desespero das populações. O autoritarismo reinante depois do golpe de 2016 impede qualquer debate minimamente democrático sobre o combate à violência e impõe à sociedade a opinião única da direita golpista.

Deixo aqui algumas sinalizações para esse debate. Não é com bala perdida e extermínio de jovens negros, nem com a discriminação social de quem mora nas favelas e periferias que a questão da violência será resolvida. A 7vida já mostrou que mais violência e discriminação só gera mais violência. Enquanto o morador da favela e da periferia pobre não for tratado como cidadão, conforme determina a Constituição, o caldo da violência continuará engrossando.

Enquanto os bandidos continuarem sendo visto como fonte de renda para policiais corruptos, a violência persistirá.

E enquanto o tráfico de drogas e de armas não for combatido nas suas origens, que não é a favela, a violência nunca acabará e continuará se abatendo, como sempre o foi, contra o morador inocente ou o simples usuário de droga.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.