O campo democrático e popular e a greve dos caminhoneiros. O que fazer?

Mesmo sem ter essa intenção primária, o movimento dos caminhoneiros atinge e enfraquece o golpe, ao atingir um dos seus pilares que é o ataque à função estatal, social, desenvolvimentista e estratégica da Petrobras

Greve nacional de caminhoneiros 21/05/2018 REUTERS/Rodolfo Buhrer
Greve nacional de caminhoneiros 21/05/2018 REUTERS/Rodolfo Buhrer (Foto: Roberto Carvalho)

A greve dos caminhoneiros revela certa dificuldade de elaboração estratégica e de pensamento racional no conjunto do arco popular, democrático, soberano e desenvolvimentista, que se movimenta contra o golpe, que jogou o Brasil em um período de trevas profundas.

Nas redes sociais é possível ver uma grande presença da militância do campo democrático defendendo não apoiar o movimento, que ameaça paralisar o país.

SERÁ QUE ESSA POSIÇÃO É CORRETA?

A aliança dos diversos setores da direita fez diferente, quando se aproveitou de movimentos populares, com reivindicações justas, como foram os que pediam o passe livre em São Paulo, em 2013, e os que reclamavam dos impactos sociais das obras da Copa do Mundo, naquele mesmo ano. Eram dois movimentos com reivindicações validas e pontuais, que, em um processo normal, poderiam ter merecido a atenção dos governos envolvidos e poderiam ser solucionados com benefício dos grupos sociais envolvidos.

Houve ainda no período a movimentação dos caminhoneiros, instigados pelas grandes empresas transportadoras, em um modelo estranhamente semelhante ao que aconteceu no Chile às vésperas na deposição e do assassinato do presidente Salvador Allende.  

Utilizando técnicas e infraestrutura de origem estrangeira (como a própria presidente Dilma admitiu, em entrevista ao Brasil247, quando mencionou o telefonema do presidente turco, Recep Erdoğan), além de muito dinheiro para irrigar grupos fascistas como o MBL e o peso onipresente da Rede Globo, comandando o restante da mídia conservadora brasileira; a aliança da direita se aproveitou desses movimentos – tanto os que apresentavam reivindicações justas, como também daqueles fabricados pelos golpistas (como é o caso dos caminhoneiros). Esses movimentos serviram de estopim, para criar o clima de mal-estar que contagiou a classe média e produziu as manifestações de que antecederam ao golpe.

Evidentemente houve forte manipulação da opinião pública, através de técnicas de comunicação voltadas à desinformação, além de meias-verdades, mentiras absolutas e calúnias, que foram construindo o clima propício para a explosão que aconteceu.

Não se pode deixar fora dessa análise, também, os equívocos do início do segundo governo Dilma. Um dos mais graves foi a aposta na solução da austeridade, proposta pelo sistema financeiro internacional, para sair da crise, o que foi sinalizado pela nomeação de Joaquim Levy, para o ministério da fazenda. Levy é um banqueiro de carreira, ele veio do Bradesco para o Governo e, ao ser exonerado ele passou a ocupar um cargo no BIRD. Uma pessoa dessas não tem compromisso com o país, mas sim com seus patrões banqueiros. O resultado da experiência com o representante dos bancos foi tornar mais aguda a crise econômica, afetando principalmente a vida das classes médias e baixas.

No pano de fundo havia a política de comunicação, que sempre foi sofrível em todos os governos do PT, além do divórcio com os movimentos sociais que também passou a ocorrer, principalmente nesse período em que o partido comandava o Planalto. Nesse cenário o campo democrático falhou ao não procurar se aproximar com mais ênfase e negociar com esses movimentos.

Poderia haver espeço de conversa inclusive com os caminhoneiros, um setor da economia composto por 46% de autônomos e mais entre 25 a 30% de pequenos e médios empresários, com até 10 veículos, segundo a ANTT. Esse grupo foi fortemente beneficiado pelas políticas dos governos Lula e Dilma, especialmente no que se refere a crédito, controle de preço dos combustíveis, expansão do mercado interno e crescimento geral da economia.

Evidentemente não seria possível negociar com as grandes empresas transportadoras profundamente envolvidas no golpe. Mas os interesses de quase 70% do setor, composto por autônomos, pequenos e médios empresários é bastante distinto daquele das megaempresas de transportes. Com eles teria sido possível conversar. 

O mesmo equivoco parece que está sendo repetido, agora por muitos militantes do campo popular e democrático, que se negam a apoiar o movimento, ressentidos com a atuação dos motoristas de caminhão na preparação para o golpe. Essa visão não percebe que eles foram usados. Muitos deles entraram naqueles movimentos contra o governo Dilma obrigados ou manipulados por seus patrões. Outros, os pequenos empresários e autônomos estavam iludidos por uma forte campanha de manipulação da opinião pública, que atingiu quase toda a classe média e boa parte dos mais pobres, como é história.

EXPLORAR AS CONTRADIÇÕES DO GOLPE

Porém, há duas questões a considerar. A primeira delas é que, mesmo sem ter essa intenção primária, o movimento dos caminhoneiros atinge e enfraquece o golpe, ao atingir um dos seus pilares que é o ataque à função estatal, social, desenvolvimentista e estratégica da Petrobras. E o que cria embaraços para o golpe interessa a quem luta contra o desmonte acelerado do Brasil.

O golpe, como sabemos, é um condomínio de interesses diversos, que se aliou para um movimento de ocasião. Há fortes contradições entre os participantes desse condomínio.

Não cabe aqui entrar em detalhes, para desenhar o formato desses grupos distintos – fica para outro momento.

O atual presidente da Petrobras, o tucano Pedro Parente, representa um dos mais poderosos desses grupos, o poderoso lobby internacional composto por petroleiras multinacionais e bancos, que participou do financiamento e da organização do golpe. Esse setor tem interesses no pré-sal e na transferência das imensas riquezas geradas pela empresa, para os seus bolsos (ou contas bancárias), através dos maiores dividendos possíveis sobre os lucros. Toda a mecânica do petróleo brasileiro atualmente está sob a gestão desse lobby, através de Pedro Parente. A nova política petrolífera visa três objetivos: tornar acessível as reservas brasileiras aos estrangeiros, principalmente anglo-estadunidenses; transformar o Brasil em exportador de matéria prima e importador de produtos derivados industrializados de valor agregado mais alto (o que afeta o desenvolvimento tecnológico, a geração de empregos e a balança comercial) e pagar o máximo de dividendos aos acionistas (principalmente grandes bancos internacionais, poderosos rentistas e agiotas).

Se Parente tem compromisso com essa política, outros setores do golpe têm outros interesses.

É possível perceber as intenções de alguns deles, como os do grupo cleptocrático do atual MDB, que se encastelou em Brasília, sob o comando de Michel Temer. Essa verdadeira quadrilha pretende manter-se no poder, para continuar saqueando o erário do estado e negociar acordos que os impeçam de serem pegos pela justiça por seus crimes.

Existe também o grupo entreguista ideológico reunido de uma maneira pouco confortável em torno dos principais grãos tucanos históricos: Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Aloysio Nunes. Para eles, que consideram Alkmin um politico da roça e o aecismo um antiquado conglomerado feudal a ser utilizado e descartado, de acordo com as necessidades, o projeto é levar o Brasil a se integrar ao império neoliberal do “Ocidente”.

Outro grupo é a república do judiciário, um setor que merece mais análises, sendo, entretanto, evidente a extrema e estranha influencia dos instrumentos de projeção de poder dos Estados Unidos sobre os juízes promotores e policiais federais brasileiros.

Imediatamente depois de consolidado o golpe, começaram a ocorrer fissuras no condomínio que reúne esses diferentes interesses e outros.

SEM INTELIGENCIA ESTRATÉGICA SOBRAM SUPOSIÇÕES

Infelizmente o campo democrático não estruturou mecanismos de inteligência, capazes de investigar o cenário a fundo para apurar o que de fato acontece atrás das cortinas. Nem mesmo os governos Lula e Dilma contaram com serviços de inteligência confiáveis, o que certamente contribuiu para a debilidade da defesa contra o golpe.

Mas parece claro nessa greve ou locaute dos caminhoneiros que há importantes contradições. O movimento começou com a reivindicação de redução dos preços dos combustíveis em geral. Depois recuou somente para a questão do diesel. Mesmo assim, Parente foi intransigente e somente cedeu quando houve ameaça de paralisação doa aeroportos. Mesmo assim, aceitou apenas uma suspensão dos aumentos do diesel por 15 dias. A impressão é que governo e Petrobras são entidades distintas e sem conexão.   

As fissuras no condomínio do golpe são os primeiros motivos para apoiar a greve.

AS CRISES SOCIAIS SÃO EM SI EDUCATIVAS

Em segundo lugar, a experiência histórica ensina que os momentos de acirramento dos conflitos sociais são em si educativos. A aproximação dos motoristas em greve – principalmente dos empregados, que são explorados; dos autônomos, que lutam com dificuldades para pagar seus veículos; e também dos pequenos empresários, que necessitam de uma política de preços dos combustíveis e dos fretes justa, além de um mercado interno forte e vibrante – pode contribuir para uma alteração do nível de consciência desse grupo social.

Já se verifica nos meios empresariais o início de uma onda de arrependimento pela apoio dado ao golpe, porque toda a economia piorou e especialmente devido ao fato de que os pequenos, médios e até grande empresários do setor produtivo dependem do mercado interno para sobreviver e prosperar. Eles, como os caminhoneiros já estão percebendo que há alguma coisa muito errada acontecendo no Brasil. Se a centro-esquerda e a esquerda não se aproximarem deles, para apontar o que está errado, eles poderão ser vítimas das piores alternativas que estão colocadas no cenário político.

Portanto, faz parte da estratégia de combate ao golpe a aproximação com todos os movimentos que enfraquecem e criam problemas para a consolidação do projeto de desmonte e recolonização do Brasil. O movimento dos caminhoneiros deve ser visto como parte da difícil guerra do campo democrático, popular, desenvolvimentista e soberano contra o golpe e pelo resgate de nossa democracia.

Evidentemente o alvo do campo democrático, popular e desenvolvimentista não serão os patrões das grandes transportadoras, mas os cerca de 70% de autônomos, pequenos e médios empresários que foram muito beneficiados pelos governos Lula e Dilma e, com o golpe, são extremante prejudicados – não só pelo preço dos combustíveis, como também pela nova estrutura da economia.

A estratégia da esquerda democrática deverá combinar, portanto, o combate ao discurso suicida e fascista dos megaempresários, para sensibilizar a maioria da categoria – os autônomos, pequenos e médios empresários.

É preciso saber lidar com esse movimento de uma forma estratégica racional e construtiva, do ponto de vista dos objetivos maiores do campo democrático, e não apenas com emoção, preconceito e omissão.

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