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Luciano Rezende Moreira

Professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Doutor e mestre em Ciências Agrárias, é graduado em Agronomia (UFV), Geografia (UERJ), Administração Pública (UFF) e Letras (UFF)

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O campo popular e a questão agrícola nacional

A superação das desigualdades no campo exige combinar modernização produtiva, democratização da terra e fortalecimento das relações de trabalho no meio rural

Um trabalhador carrega um caminhão com caixas de laranjas em uma fazenda em Limeira, em 13 de janeiro de 2012. REUTERS/Paulo Whitaker (BRASIL - Tags: NEGÓCIOS ALIMENTOS AGRICULTURA POLÍTICA SAÚDE) (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)

No debate político nacional, é comum que os termos questão agrícola e questão agrária sejam utilizados como se fossem sinônimos. Entretanto, embora estejam relacionados, eles designam problemas distintos. Compreender essa diferença é fundamental para qualquer reflexão séria sobre o futuro da agropecuária brasileira.

A questão agrária refere-se principalmente à estrutura da propriedade da terra, ou seja, quem a possui, como ela está distribuída e quais conflitos sociais derivam dessa distribuição. Trata-se, portanto, de um problema essencialmente ligado à concentração fundiária, à reforma agrária e às disputas pelo acesso à terra.

Já a questão agrícola diz respeito à forma como a produção rural é organizada. Em outras palavras, refere-se ao nível de mecanização, à integração com a indústria, ao uso de tecnologia, à produtividade e, sobretudo, às relações de trabalho que estruturam a produção. Dessa forma, enquanto a questão agrária trata da posse da terra, a questão agrícola trata da forma de produzir sobre ela.

Um exemplo ajuda a tornar essa distinção mais clara. Quando se discute a concentração de terras em grandes latifúndios ou a necessidade de redistribuição fundiária, estamos diante de um problema agrário. Por outro lado, quando o debate envolve a mecanização da lavoura, a organização das cadeias agroindustriais ou inovações tecnológicas voltadas à produção, estamos tratando da questão agrícola. Os dois problemas evidentemente se cruzam, mas não são idênticos.

Historicamente, a esquerda brasileira concentrou grande parte de suas energias na questão agrária, sobretudo na luta pela democratização da terra. Essa pauta teve e continua tendo enorme importância em um país marcado por uma das maiores concentrações fundiárias do mundo. No entanto, a centralidade dessa agenda muitas vezes deixou em segundo plano uma reflexão mais profunda sobre como organizar a produção agrícola de maneira socialmente progressista e economicamente eficiente.

Essa lacuna tornou-se ainda mais visível com o fortalecimento do chamado agronegócio. Nas últimas décadas, esse setor consolidou grande influência econômica e política no Brasil. Apresentado como símbolo de modernidade e eficiência produtiva, o agronegócio passou a ocupar posição dominante no discurso sobre o campo.

Entretanto, é preciso reconhecer um aspecto frequentemente negligenciado no debate político pelas forças democráticas e progressistas. A modernização técnica promovida nas últimas décadas, marcada pela mecanização intensiva, pelo uso crescente de insumos industriais, pelo avanço da pesquisa agronômica e pela integração entre agricultura e indústria, representa, do ponto de vista histórico, um avanço muito importante no desenvolvimento das forças produtivas no campo brasileiro. O aumento da produtividade, a expansão da capacidade produtiva e a incorporação de novas tecnologias constituem conquistas objetivas do processo histórico de modernização da agricultura. Ter superado a marca de trezentos milhões de toneladas de grãos por ano é algo que precisa ser muito exaltado.

Sob esse ponto de vista, o desenvolvimento das forças produtivas deve ser compreendido como um elemento progressista, pois amplia a capacidade da sociedade de produzir alimentos, organizar o trabalho de forma mais racional e superar limitações técnicas que historicamente marcaram a agricultura tradicional. Uma agricultura tecnicamente mais avançada cria condições materiais para novas formas de organização social da produção.

Entretanto, por trás desse processo de modernização produtiva esconde-se uma realidade contraditória. O mesmo setor que impulsionou importantes avanços técnicos mantém um profundo conservadorismo político e social. Organizações representativas do agronegócio frequentemente se colocam contra direitos trabalhistas, contra regulações ambientais e contra políticas públicas que ampliem a participação democrática no campo. Assim, formou-se um paradoxo: um setor produtivamente dinâmico em termos técnicos, mas politicamente reacionário.

Em outras palavras, o principal problema não reside no avanço das forças produtivas no campo brasileiro (equivocadamente combatido por amplos setores da esquerda brasileira), mas na forma como essas conquistas estão articuladas a uma estrutura agrária altamente concentrada e a um poder político profundamente conservador.

Superar essa contradição exige que o campo popular avance na elaboração de um projeto próprio para a questão agrícola. Não basta apenas criticar o agronegócio existente ou defender mudanças na estrutura fundiária. É necessário reconhecer os inúmeros avanços da moderna técnica agrícola (equivocadamente colocada no mesmo pacote da chamada revolução verde) e da organização da produção no campo. A partir daí, apontar para uma alternativa que vise superar as limitações que ainda persistem.

Um dos elementos centrais dessa alternativa é a proletarização do trabalhador rural, entendida como a consolidação de relações de trabalho assalariadas, estáveis e protegidas por direitos sociais. Ainda hoje, grande parte da produção agrícola brasileira baseia-se em formas de trabalho precárias, na informalidade e em relações de dependência pessoal que limitam a organização coletiva dos trabalhadores.

A ampliação do trabalho assalariado formal no campo (e a consequente diminuição do campesinato) não representa atraso, mas sim um passo decisivo para a modernização social da agricultura. Relações de trabalho claras e institucionalizadas permitem maior estabilidade econômica, fortalecem a organização sindical e criam condições para que os trabalhadores participem de forma mais ativa da vida política e social.

Outro eixo fundamental é a industrialização das atividades agropecuárias. A agricultura contemporânea não pode mais ser pensada como uma atividade isolada baseada apenas no cultivo da terra. Ela deve estar integrada a um sistema produtivo mais amplo que envolva produção de insumos, processamento industrial, logística e distribuição.

Quanto maior o grau de industrialização das cadeias agroalimentares, maior tende a ser a capacidade de planejamento produtivo, inovação tecnológica e agregação de valor. Além disso, cadeias produtivas mais integradas criam empregos qualificados e reduzem a instabilidade característica da pequena produção dispersa.

Experiências históricas demonstraram que sistemas agrícolas organizados em grande escala, com forte mecanização e planejamento técnico, podem alcançar elevados níveis de produtividade e estabilidade produtiva. Nessas condições, torna-se possível coordenar melhor o uso de recursos, racionalizar o trabalho e garantir maior regularidade na produção de alimentos.

Para o campo popular brasileiro, portanto, o desafio não é negar o desenvolvimento das forças produtivas no campo, mas orientá-lo para um projeto socialmente mais avançado. Isso implica articular democratização da estrutura agrária, fortalecimento das relações de trabalho assalariadas e integração cada vez maior entre agricultura e indústria.

Somente com um projeto desse tipo será possível romper com o atual desequilíbrio que caracteriza o campo brasileiro, ou seja, um setor tecnicamente moderno, mas politicamente conservador e socialmente desigual.

A questão agrícola, nesse sentido, não é apenas um problema técnico ou econômico. Trata-se de uma disputa sobre o modelo de desenvolvimento nacional. Uma agricultura organizada de forma racional, industrializada e baseada em relações de trabalho modernas pode se tornar um dos pilares de um projeto de país mais justo, democrático e soberano.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.