O capital a serviço do trabalho

O contexto que serve de base para a sociedade pós-industrial é real, as máquinas, a informática, a telemática e outras tecnologias estão eliminando rapidamente muitos postos de trabalho, ocupados agora pelo “trabalho morto”. Mas as propostas para o reposicionamento laboral com dignidade e justiça social estão sendo desconsideradas

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Pobre é igual a eixo de embreagem: quanto mais trabalha, mais liso fica.

Frase de para-choque de caminhão—domínio popular

Somente uma viva convicção íntima de trabalho e felicidade ainda é capaz de constituir — sob pressão da sociedade— uma verdadeira experiência.

T.W. Adorno, Mínima Moralia

Na mitologia judaica, no início do Gênesis, o trabalho se apresenta como a condenação e fardo de Adão e Eva. Fora do paraíso sobrevém o inevitável duro trabalho de enfrentar a natureza buscando o alimento e o abrigo, evitando as dores e aplacando o medo da miséria e da morte. A maior parte de todas as atividades humanas são presumivelmente construtivas, úteis ou necessárias, no entanto, se consagrou um enquadramento moral punitivista do trabalho que não ocorre somente devido à moralidade judaico- cristã. Em outras culturas, como no sistema de castas da Índia tradicional ( cerca de 3 mil castas diferentes podem ser encontradas na história da Índia) também ocorre a hierarquização valorativa das atividades humanas, e parece que isso se dá pela associação direta do trabalho a autovalorização, comum a qualquer ser humano, a qual estabelece distinção hierárquica entre as formas de trabalho mais rudes e as mais elaboradas. Digamos que as primeiras seriam menos rentáveis, fatalmente percebendo menor consideração e respeito da sociedade em relação àquelas outras atividades que demandam experiência maior, especialização e conhecimento. Os trabalhadores mais aptos, podendo executar tarefas mais elaboradas ou produzir melhor graças ao conhecimento e a destreza desenvolvidos, serão mais valorizados do que aqueles outros cujas tarefas serão consideradas elementares e pouco exigentes. Atualmente, percebemos que este tipo de hierarquização moralista, e mesmo punitivista, das atividades, ainda existe. Convém perguntar se dentro de um contexto de pretensões humanistas, que eleva o conhecimento e a ética como luminares da civilização, tal moralidade não é incoerente e pouco inteligente. Alguém tem que recolher o lixo, você mesmo pode fazer isso, separando o lixo orgânico para compostagem que se transformará em adubo e separando para reciclagem os materiais incompatíveis com o processamento orgânico. Mas nem todo mundo tem uma gleba de terra, ou um quintal. Já que ninguém quer ser lixeiro, na Alemanha, por exemplo, os lixeiros são muito bem pagos e muito bem treinados e equipados, os salários variam conforme a carga horária, entre 2200 a 3500 euros ao mês, ao mesmo tempo, um médico especializado pode receber entre 4500 e 7650 euros ao mês. 1

O sociólogo Domenico de Masi marcou a sua obra com a distinção entre trabalho servil e alienante e trabalho criativo e significativo à realização do ser humano como entidade social, cultural e política. Sua pesquisa sobre grupos criativos de trabalho, tais como o Instituto Pasteur, A Bauhaus, ou a Escola de Frankfurt, entre outros menos conhecidos, mas muito apreciados, como os produtos da casa de móveis Thonet, de Viena ( A Emoção e a Regra, 1989), que surgiram no seio do capitalismo industrial contrastando seus modelos de realização de trabalho com a influente e universalizada organização Taylor-fordista e seus desdobramentos sobre as rotinas da vida urbana moderna, o levaram até a compreensão formal de toda uma nova dimensão social do trabalho, a qual, seguindo o pensamento de Marx, começa por compreender a radicalidade do trabalho no próprio ser humano, ser social cultural e político.

De Masi expõe detalhadamente em “O futuro do trabalho: Fadiga e ócio na sociedade pós-industrial”( 1999), portanto, 10 anos depois do livro anterior, uma crítica do modelo político e econômico do capitalismo industrial, tendo no centro de sua abordagem a emancipação absolutamente possível da sociedade ao nível de um menor esforço laboral. Um esforço laboral que seria mais qualificado através de tempo para o conhecimento, tempo para a imaginação e criação e tempo para o lazer, o que é bastante factível a partir do grande incremento tecnológico acumulado desde a ultima grande guerra mundial. O que é bastante factível se olharmos para o exemplo atual da Holanda, Dinamarca e Alemanha lugares onde a jornada de trabalho semanal não chega a 35 horas, e se olharmos para o nível de qualidade de vida associado a elevada educação e qualidade de vida, com jornada de 24 horas semanais, que é o caso da Finlândia. Infelizmente, na maior parte do mundo, de lá para cá, o trabalho, em quase toda a sua ampla e diversificada dimensão, continua sendo apenas mercadoria a serviço do capital. De Masi, por sua vez, começou a dar forma à inversão de sentido na relação capital e trabalho, propondo o que seria uma inevitável conversão do capital em favor do trabalho, em favor dos que trabalham, em favor dos seres humanos. Como resultado deste favorecimento teríamos uma sociedade mais qualificada para atendermos às demandas inatas e potenciais das sensibilidades  e capacidades humanas. Ao invés de aparelharmos a consciência humana para uma injusta e enganosa cumplicidade entre exploradores e explorados, cujo esquema reproduz imensuravelmente muito mais violência e miséria do que liberdade e prosperidade, teríamos a capacidade de estabelecer níveis elevados de qualidade de vida para toda a sociedade. 

Há 20 anos atrás De Masi já havia calculado a exequibilidade de formas de trabalho alternativas dentro do próprio capitalismo, mais eficientes e emancipadoras do ócio criativo  ( se trata basicamente de semear tempo para a vida entre as pessoas e colher trabalho inteligente destas pessoas com acesso a uma vida rica em experiência, sociabilidade, responsabilidade compactuada e sentido), no entanto, sua proposta, evidentemente ainda é desprezada pela obsessiva tendência capitalista ao controle de tudo e de todos, a começar pelo sequestro e controle do tempo. Empreendimentos cada vez mais gigantescos e concentradores de renda e poder, de uma forma ou de outra, exaurem o tempo e a energia da maior parte da população mundial, a “compensação” pelo consumismo é apenas um simulacro estéril e superficial de felicidade. É inegável que o diagnóstico da civilização é bastante ruim. Aliás, Arnold Toynbee, historiador liberal que examinou os ciclos de ascensão e queda de 26 civilizações, afirmou que elas morrem de suicídio, nunca foram assassinadas; suicídios não decorrem de uma anomalia? E essa estratosférica concentração de riqueza e poder não é uma anomalia que causa à imensa pobreza mundial e é diretamente responsável pelo desequilíbrio ambiental? 

O contexto que serve de base para a sociedade pós-industrial é real, as máquinas, a informática, a telemática e outras tecnologias estão eliminando rapidamente muitos postos de trabalho, ocupados agora pelo “trabalho morto”, no entanto, propostas para o reposicionamento laboral com dignidade e justiça social, inclusive para essa nova dinâmica que, ou elimina postos de trabalho ou escraviza, estão sendo desconsideradas ou adiadas no nível das decisões de Estado e de Mercado. Geralmente, propostas de tal significado social  têm sido conquistadas com muito custo em sociedades que praticam o conceito de república e que daí em diante praticam o Estado social e a democratização. De qualquer forma, as elites são internacionalmente cumplices contumazes na manutenção de um status quo econômico e politico inchado de obesidade mórbida suicida. Suas “banhas“, que poderiam ser derretidas e vertidas para milhões de pessoas em seus ofícios e estudos, tendem para uma queda gigantesca, que consumada, esmagará quase todo mundo.

Vivemos um presente que parece politicamente degradante e insolúvel, socialmente muito rotineiro, muito dividido e muito instável. Há muitas leituras possíveis: o individualismo, o materialismo, a sociedade líquida, a dificuldade de ingressar coerentemente na pós- modernidade ou de abandoná-la de vez. Inclui-se aqui a degeneração burocrática, tão bem observada por De Masi. 

Vivemos um presente economicamente sádico e perigoso, inclui-se aqui, as questões ambientais e relativas ao mau uso do tempo, e o imenso e rentável mercado paralelo do submundo mundial que põe dinheiro de guerra, drogas, prostituição e jogo nos mesmos bancos e paraísos fiscais de grupos de acionistas controladores quase absolutos de imensas riquezas inchadas artificialmente dentro do mercado financeiro. 

A humanidade parece se automortificar,  e se autodepreciar, como no mito adâmico, fazendo de si mesma um conceito social do tipo darwinista, como uma irremediável espécie voraz e competitiva, predadora e egoísta que merece ser controlada pela força de uns sobre os outros. Então, os mais ricos e poderosos seriam os sacerdotes de uma religião do dinheiro e do poder incumbidos de esfolarem a maior parte da humanidade para aliviá-la de seus pecados e tentações com o consumismo. Mas estes sacerdotes são eles mesmos cativos de vícios insuperáveis, doenças do vil metal, doenças do poder, vestidos em seus ternos escuros, portadores de idioma privilegiado da razão política mercantil financista cuja semântica economicista esotérica é lubrificada com o velho autoritarismo historicamente constituído, talvez antropologicamente dado. 

Mesmo as atividades mais sofisticadas dos altos executivos de grandes corporações podem ser consideradas sintomas de um alienante ativismo profissional carregado de sofrimentos. Muitas vezes, estes executivos de ponta da organização e gestão capitalista, extremamente bem remunerados e os empreendedores talentosos e dedicados, apenas trabalham, são workaholics, aparentemente não sabem e não desejam viver além do campo de batalha do trabalho. 

O filósofo Byun Chul Han em seu livro “Sociedade do Cansaço”, denuncia o excessivo zelo ao trabalho configurado pela expropriação capitalista, a qual vem convertendo a lógica disciplinar do dever do trabalho pela lógica de eficiência do poder positivo do trabalho, insuflando crença generalizada na sociedade do alto desempenho, da qual resultam as contemporâneas doenças neuronais tais como, síndrome de burnout, déficit de atenção e depressão. Ou seja, ainda é o trabalho servo do capital.

Neste contexto de esgotamento psíquico de pessoas competindo com suas expertises no Mercado não há lugar para o tempo dedicado a viver. Haverá exceções à regra, como o caso dos empreendedores que trabalham 16 horas ao dia  apenas por integral necessidade de não serem derrubados pelas crises intermitentes locais, regionais e globais do Mercado. No entanto, são muitos os que padecem de alguma síndrome de sucesso profissional, muito estimulada pelo regime extremamente disputativo que chamam livre concorrência de mercado. Será aceitável e realmente necessário uma sociedade que produz tanta barbaridade ?

Já que estamos todos no navio da sociedade de Mercado à deriva, devido a atual pandemia, dentro de um sistema que de maneira geral, mantem os seres humanos ainda na maioria das vezes desconectados espiritualmente do trabalho, e que, além disso, vem reduzindo os empregos, é caso de pelo menos nos perguntarmos, como conseguiríamos ingressar efetivamente em um novo momento civilizacional, que no caso da sociologia de Domenico De Masi, chamar-se-ia de era pós-industrial plena, pela qual o trabalho, antes de mais nada, seria autêntica e significativa expressão de realização pessoal . 

Na Finlândia, uma junta de professores de escola secundária afirmou a Michael Moore para o seu documentário, 2 que a escola finlandesa, além de ser unificada em torno de uma internacionalmente reconhecida alta qualidade pedagógica, tem como meta preparar as pessoas para saberem viver com bom senso e felicidade, serem felizes. Isso combina com as ideias de Domenico De Masi.

Como desejar, ou o que desejar para que o trabalho produza a real felicidade de cada ser humano? Talvez sejam estas, questões realmente inevitáveis para fundamentar alguma mutação qualitativa dentro do capitalismo ou de qualquer outro sistema civilizacional. Erguer pirâmides e outras obras monumentais, conceber teorias sobre a vida e o cosmo, representar a realidade e a imaginação, concretizar ideias. À semelhança de um mundo criado, ou dado, não importa como, o trabalho é processo consideravelmente mimético, e eterno fascinado com o mundo. 

O trabalho, todos hão de concordar, é relação consciente e objetiva do ser humano com e através da natureza. A relação biológica com o nosso mundo é inescapável, e o trabalho em si, é atividade transformadora da natureza, lado externo e material da vida, mas é também atividade transformadora do lado interno da natureza, a consciência humana. E que transformações teremos com a escravidão, com trabalho mal remunerado, com trabalho prostituído por altas remunerações e desinteresse profissional? Que transformações  teremos com a frustração, o cansaço extremo e o tédio mantendo o trabalhador refém de limitações às suas potencialidades criadoras e socializadoras?

A sociologia de Domenico de Masi deve ter os seus oponentes, seus críticos liberais ou marxistas, apocalípticos ou integrados, no entanto, nenhum deles poderá discordar de uma coisa. Ela serve como uma consistente advertência sobre o cuidado que devemos ter com a vocação espontânea e inerentemente humana do trabalho, mola mestra da expressão humana, que conjuga, necessidade, desejo, fruição, direção, responsabilidade, sociabilidade e sentido. Pensando bem, o trabalho é o próprio centro espiritual do ser humano.

1 https://www.stern.de/wirtschaft/job/muellmann--wie-hoch-ist-das-gehalt-bei-der-muellabfuhr--7541790.html

https://www.stern.de/wirtschaft/job/arzt-im-verdienst-check--was-verdienen-mediziner-in-kliniken--7562586.html

2 “O invasor americano”. Em exibição na NETFLIX

Bibliografia

De Masi, Domenico. Org. A Emoção e a Regra: os grupos criativos na Europa de 1850 a 1950. Rio de Janeiro: José Olympio/ UNB, 1999.

— O futuro do trabalho: Fadiga e ócio na sociedade pós-industrial. Rio de Janeiro: José Olympio/ UNB ,2000.

De Masi, Domenico; Betto, Frei. Diálogos criativos—mediações e comentários de Jose Ernesto Bologna. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

Han, Byun Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

https://www.infomoney.com.br/carreira/os-10-paises-com-as-menores-jornadas-de-trabalho-do-mundo-e-os-salarios-medios/

https://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2020/01/finlandia-tera-jornada-de-trabalho-de-seis-horas-quatro-dias-por-semana/

Lessa, Sérgio. Tonet, Ivo. Introdução à filosofia de Marx. São Paulo: Expressão popular, 2011.

Toynbee, Arnold J. A humanidade e a mãe terra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.

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