O capital produz angústia

Freud demonstrou consistentemente que a série observada por ele se configura como tal e passa a operar em última instância como 'defesa' à potência sempre disruptiva da Pulsão-de-Morte (Todestrieb), parcializando-a de sorte a re-potencializar, a cada vez, dialeticamente, a Pulsão-de-Vida

Ilustração para artigo "O capital produz angústia", de José Marcus de Castro Mattos
Ilustração para artigo "O capital produz angústia", de José Marcus de Castro Mattos (Foto: José Marcus de Castro Mattos)

I. A Devastação Produzida Pelo Capital

O Capital (articulado à Tecnociência) devasta as subjetividades, sociedades e culturas.

Essa devastação é efeito direto da 'dessimbolização' realizada pelo próprio Capital e consiste em neutralizar – no limite, excluir – os elementos simbólicos que, a título de representantes, instituem, fundam e/ou inauguram essas mesmas subjetividades, sociedades e culturas (Nota 01).

(No essencial, o Capital dessimboliza para evitar que a produção e circulação de mercadorias estejam referenciadas a mediadores simbólicos que 'atrasariam' esta produção e circulação, dificultando, caso isto ocorresse, a maximização do 'lucro' [diferença econômica custo/benefício].)

Logo, a devastação é a anulação de representantes desde os quais a existência dos humanos obtém estruturação continuada e conquista significação a) singular (subjetividades), b) plural (sociedades) e c) diferencial (culturas).

(Em termos psicanalíticos rigorosos não é possível desarticular o constructo 'subjetividades, sociedades e culturas' e tematizar separadamente os seus componentes: como tal, ele pertence por inteiro ao Campo Discursivo, e, pois, estrutura-se na e pela Linguagem.)

II. O Colapso Da Série Freudiana 'Inibição-Sintoma-Angústia'

Ora, a neutralização de representantes com tais características colapsa, ato contínuo, a série tão bem demarcada por Freud e que fornece os elementos fundamentais resultantes da estruturação e da significação notadas acima, qual seja, a tríade 'inibição-sintoma-angústia' (N. 02).

Entretanto, o colapsamento incide nos dois primeiros termos da série freudiana ('inibição-sintoma...') e, por razões de estrutura próprias à série, não pode recair no terceiro elemento ('angústia').

Formalização do colapsamento:

'[Inibição-Sintoma...]-Angústia'

Todavia, Freud demonstrou consistentemente que a série observada por ele se configura como tal e passa a operar em última instância como 'defesa' à potência sempre disruptiva da Pulsão-de-Morte (Todestrieb), parcializando-a de sorte a re-potencializar, a cada vez, dialeticamente, a Pulsão-de-Vida (Lebenstrieb) (N. 03).

Neste sentido, o colapsamento promovido pelo Capital (articulado à Tecnociência) por assim dizer desarma as subjetividades, as sociedades e as culturas face à Pulsão-de-Morte, tomando-lhes das mãos a 'inibição' e o 'sintoma' – encurtando abruptamente pois a tríade freudiana – e empuxando-as sem mais à 'angústia'.

Assim, reféns da cópula entre o Capital e a Ciência (Tecnociência), despossuídos dos representantes que os instituem, fundam e/ou inauguram, o singular (subjetividades), o plural (sociedades) e o diferencial (culturas) veem-se confrontados com a angústia, nua e crua...

Mas angústia face a quê?

Já o dissemos: face à potência avassaladoramente disruptiva da Pulsão-de-Morte (Todestrieb, na pontuação genial de Freud).

III. O Aporte Topológico de Lacan À Série Freudiana

Contudo, a leitura topológica que Lacan faz do legado freudiano desvela algo decisivo: não há dessimbolização que não resulte imediatamente em imaginarização, vale dizer, toda e qualquer neutralização do registro Simbólico (S) sobreleva e aciona em posição dominante o registro Imaginário (I) (N. 04).

Noutros termos, a dessimbolização é de fato imaginarização, nada mais nada menos.

Desta feita, enquanto o modus vivendi (estrutural) dos humanos se caracteriza pela simbolização, e, pois, nas palavras de Lacan, pelo 'tratamento do real pelo simbólico', de outra parte o modus operandi (conjuntural) do dispositivo capitalista-tecnocientífico se apresenta como dessimbolização, e, portanto, à maneira topológica lacaniana, como 'tratamento do real pelo imaginário' (N. 05).

Formalmente:

A) Práxis dos humanos (estrutural): simbolização.

B) Modus vivendi: 'tratamento do real pelo simbólico'.

C) Capital/\Tecnociência (conjuntural): dessimbolização.

D) Modus operandi: 'tratamento do real pelo imaginário'.

Isto posto, sob o Capital (articulado à Tecnociência) as subjetividades, as sociedades e as culturas veem-se dessimbolizadas e ato contínuo imergidas no 'tratamento do real pelo imaginário'.

Neste contexto, tudo se passa como se o singular (subjetividades), o plural (sociedades) e o diferencial (culturas) fossem doravante 'sem inibição' e 'sem sintoma' – porém não, como expus acima, 'sem angústia' –.

IV. O Estatuto Conceitual da Pulsão-de-Morte Sob O Capital

Ora, neste momento de minha argumentação é preciso esclarecer o estatuto conceitual da Pulsão-de-Morte inscrita na copulação entre o Capital e a Tecnociência: efetivamente, trata-se de potência disruptiva também ela imersa na dessimbolização e cuja consequência é ruinosa, qual seja, ao se neutralizar a parcialização da destrutividade (parcialização operada pela simbolização, favorável à Pulsão-de-Vida), pois bem, aumenta-se exponencialmente a imaginarização desta mesma destrutividade, como se as 'comportas do gozo' (na bela expressão de Lacan, via Sade) fossem finalmente liberadas às subjetividades, sociedades e culturas...

Claramente, subsumida pelo Capital (articulado à Tecnociência), a Pulsão-de-Morte vigora e emerge encapsulada e/ou revestida pelos enunciados imaginários 'sem inibição' e 'sem sintoma', maximizando, a contrapelo, a angústia.

Por que então, finalmente, a articulação entre o Capital e a Tecnociência resulta em maximização da angústia?

Porque a angústia é um afeto que (nos precisos termos de Lacan) 'não engana', vale dizer, ela opera como sinalizador da proximidade de inexistência de Lei no Outro – de inexistência, pois, de simbolização capaz de parcializar a disrupção avassalante de tudo e todos instalada pela Pulsão-de-Morte (N. 06) –.

Portanto, a angústia não engana (ou, quando menos, não deveria enganar) as subjetividades, sociedades e culturas quanto à dessimbolização/\imaginarização, e, pois, quanto à proximidade de inexistência de Lei no Outro promovida, no caso, pelo Capital (articulado à Tecnociência).

V. A Cópula Capital/\Ciência Situa-se No Registro Imaginário

Pois bem, estabelecido este horizonte argumentativo, trata-se agora de esclarecer a cópula Capital e Ciência (instrumentalizada como Tecnociência) enquanto enodamento discursivo situado no registro Imaginário e do qual é ejetado cotidianamente ('em todas as esquinas', dirá Lacan) o seguinte Imperativo Supraegoico' (N.07):

→ Goza irrestritamente com a mercancia e o conhecimento tecnocientífico de tudo e todos ao ponto de você mesmo se tornar um objeto da mercancia e do conhecimento; logo, goza ilimitadamente com a produção e o consumo generalizados de objetos descartáveis de maneira tal que você mesmo se torne um desses objetos – sendo enfim consumido e descartado! ←

Percebe-se de imediato o quão esse imperativo resume explicitamente os componentes centrais da dessimbolização capitalista-tecnocientífica, quais sejam, a) neutralização de representantes/mediadores, b) imaginarização das subjetividades, sociedades e culturas ('tratamento do real pelo imaginário'), c) não-parcialização da Pulsão-de-Morte, d) inexistência de Lei no Outro, e) objetificação de tudo e todos e f) angústia.

Ao fazê-lo, tal Imperativo Supraegoico – imposição de gozo, portanto – por assim dizer coloniza o Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas: o singular, o plural e o diferencial), inflando-o de imaginarização e empuxando-o 'sem inibição' e 'sem sintoma' – logo, como vimos, sem defesas – à inextirpável impossibilidade do real...

VI. A Captura E O Enclausuramento Do Campo Discursivo

Com efeito, o real – no caso aqui em tela, o 'real do gozo' (ou 'gozo real') –, por razões lógico-estruturais magistralmente assinaladas por Lacan, é impossível de ser experienciado quer pelas subjetividades, quer pelas sociedades, quer pelas culturas, ou seja, enquanto elementos instituídos, fundados e/ou inaugurados por representantes/mediadores (por 'significantes', ressaltará Lacan), pois bem, o singular, o plural e o diferencial são o que são na e pela simbolização/parcialização dos supostos absolutos Pulsão-de-Morte, Gozo e Real (N. 08).

Entretanto, a colonização do Campo Discursivo pela imposição de gozo imaginário proveniente da cópula entre o Capital e a Ciência (Tecnociência) visa transmudar o real-impossível (simbolização: parcialização da Pulsão-de-Morte, etc) em real-possível (dessimbolização: não-parcialização do Gozo, etc), tudo devendo se passar, no caso, como se o 'sem inibição' e o 'sem sintoma' não fossem sinalizados pela angústia...

Por outras palavras, a bárbara injunção de gozo capitalista-tecnocientífica captura as subjetividades, as sociedades e as culturas e as enclausura no registro do Imaginário, lançando-as ato contínuo, abruptamente, no contraforte do real-impossível, forçando-as a crer, porém, na inexistência de quaisquer obstáculos ao ditame 'Anything Goes And No Frontiers' (N. 09).

VII. Consequência

A consequência é inevitável: a dessimbolização neutraliza os mediadores entre o registro do Imaginário (I) e o registro do Real (R), produzindo o choque abrupto, violento e devastador entre ambos, tendente, tal choque, à desarticulação das categorias antes enodadas topologicamente (Real/\Simbólico/\Imaginário) e à emergência de traumatismos inassimiláveis seja pelas subjetividades, seja pelas sociedades, seja pelas culturas.

De fato, sob o Capital articulado à Tecnociência o registro do Imaginário (I) choca-se com o registro do Real (R), traumatizando intensa e extensamente – a expressão é bem esta – o Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas: o singular, o plural e o diferencial) e submergindo-o na angústia.

Os efeitos vandalizantes de uma angústia para a qual deixou de haver mediadores simbólicos aí estão e são contundentes: quanto às subjetividades, 'novas doenças da alma', 'novas modalidades mortíferas de gozo', aumento exponencial do consumo de substâncias psicoativas ilícitas, aumento exponencial do número de suicídios (principalmente entre os jovens), etc; quanto às sociedades, des-institucionalização dos laços sociais, desarticulações grupais, des-hierarquização geracional, aumento exponencial de tendências políticas fascistas, aumento exponencial da violência, etc; e quanto às culturas, des-identificações as mais variadas, 'desconstruções do originário', subsunção do diferencial à homogeneização mercadológica, suicídios coletivos de etnias, etc.

Neste ínterim, o singular (subjetividades), o plural (sociedades) e o diferencial (culturas) perdem significação estrutural, doravante submetidos à imaginarização capitalista-tecnocientífica segundo a qual tais componentes fundamentais do Campo Discursivo devem ser objetificados e inseridos nas transações mercadológicas globais...

Contudo, a cópula entre o Capital e a Ciência (instrumentalizada como Tecnociência) responde louca e cegamente à angústia e à devastação produzidas por ela mesma, sem perceber o quão suicida é o 'tratamento do real pelo imaginário': ao invés de frear a dessimbolização – reativando, em sequência, a simbolização (representantes, mediadores, 'significantes', etc) –, tal cópula sobreleva a cada vez a aposta na continuidade da imaginarização, ofertando meios também eles imaginários de sorte a 'curar as subjetividades', 'pacificar as sociedades' e 'unificar as culturas' (sic).

Naturalmente, os meios imaginários ofertados pelos dispositivos capitalistas-tecnocientíficos potencializam in extremis a angústia proveniente da própria imaginarização do Campo Discursivo, empuxando ao limite a devastação do singular (subjetividades), do plural (sociedades) e do diferencial (culturas), posto que os força a experienciar – atenção: 'como se fosse possível' – a real impossibilidade de um gozo puramente objetal, vale dizer, a impossibilidade real de um gozo que teria descartado de si, barbaramente, as subjetividades, as sociedades e as culturas, descartando-se afinal...

VIII. Insistência

Eis portanto o pior sob a colonização do Campo Discursivo pelo Capital atrelado à Tecnociência: ao dessimbolizar a práxis dos humanos ('tratar o real pelo simbólico'), ele angustia e devasta as subjetividades, as sociedades e as culturas, mergulhando-as na imaginarização segundo a qual nada e ninguém obstaculizam a reificação plena do gozar, ao preço (o termo é bem este), claro está, da evacuação do singular, do plural e do diferencial (N. 10).

Entretanto, Lacan nos ensinara que o próprio do Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas) encontra-se no fato dele se estruturar e operar como 'resposta do [desde o] real', logo, como resposta do (desde o) impossível (N. 11).

Assim, lá onde a copulação entre o Capital e a Ciência (Tecnociência) responde do (desde o) real pela via da imaginarização do impossível, levando-nos perversamente a crer na experimentação de um gozar sem restos de subjetividades, sociedades e culturas (gozo puramente objetal, imersão nas transações mercadológicas globais, etc), pois bem, lá então respondamos do (desde o) real pela via da simbolização do impossível, trabalhando corretamente a angústia de modo a recuperar para ela a 'inibição' e o 'sintoma', legítimos representantes do diferencial, do plural e do singular.

Σ

(Nota 01) Cf. DUFOUR, D-R. A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Editora Companhia de Freud, 2005.

(N. 02) Cf. FREUD, S. "Inibições, sintomas e ansiedade [angústia]" (1926 [1925]), in: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Volume XX (1925 – 1926). Rio de Janeiro: Imago Editora, 1976: 93 – 201.

(N. 03) Cf. FREUD, S. "Pulsões e destinos da pulsão" (1915), in: Obras psicológicas de Sigmund Freud: escritos sobre a psicologia do inconsciente. Volume I (1911 – 1915). Rio de Janeiro: Imago Editora, 2004: 133 – 173.

(N. 04) Cf. LACAN, J. Seminário R. S. I. (1974 – 1975). Transcrição inédita.

(N. 05) Cf. LACAN, J. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Segunda Edição: 1998.

(N. 06) Cf. LACAN, J. O seminário, livro 10: a angústia (1962 – 1963). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

(N. 07) Cf. MATTOS, J. M. de C. "Uma lógica suicida", in: Retorno a Lacan. Texto cujo link é:

http://retornalacan.blogspot.com.br/2014/12/uma-logica-suicida.html

(N. 08) Cf. LACAN, J. Seminário R. S. I. (1974 – 1975). Transcrição inédita.

(N. 09) Cf. MATTOS, J. M. de C. "Freud com Marx (uma leitura inédita)", in: Retorno a Lacan. Texto cujo link é:

http://retornalacan.blogspot.com.br/2014/03/freud-com-marx-uma-leitura-inedita.html

(N. 10) Cf. LEBRUN, J-P. Um mundo sem limites: ensaio para uma clínica psicanalítica do social. Rio de Janeiro: Editora Companhia de Freud, 2004.

(N. 11) Cf. LACAN, J. "O aturdito" (1972), in: Outros escritos (2001). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003: 448 – 497.

(*) A foto representa um quadro do pintor polonês PAWEL KUCZYNSKI (*1976).

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