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Bia Willcox

Bia Willcox é advogada, jornalista e pesquisadora nas áreas de Empreendedorismo, Inovação e Marketing. Atua como mentora de negócios e escreve sobre os impactos da hiperconectividade, da inteligência artificial e das tecnologias emergentes nas relações humanas e no futuro da sociedade.

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O carnaval não é justo. E nem a vida

Até onde eu sei, muitos dos financiadores do carnaval da Sapucaí não contribuem com impostos para a economia do país, certo? Legalidade não é o ponto forte do Carnaval

Até onde eu sei, muitos dos financiadores do carnaval da Sapucaí não contribuem com impostos para a economia do país, certo? Legalidade não é o ponto forte do Carnaval (Foto: Bia Willcox)

Nas últimas 24 horas vi muitos protestos contra a injustiça reinante no carnaval carioca. E quem sou eu pra discordar. Sou uma indignada crônica com injustiças e incurável defensora dos mais fracos. E repudio sistemas ditatoriais de toda e qualquer espécie.

Mas ouso dizer que nem acho a única ou a pior injustiça aquela ligada ao nosso Carnaval. Ontem conheci dois artistas moradores da Rocinha que passam o ano preparando lindos adereços de Carnaval pra vender pra locais e turistas de muitos países durantes os dias de folia. Fazem isso há 11 anos - suam, trabalham, criam pra ter retorno no Carnaval. Ontem, a guarda municipal passou pela Visconde de Pirajá e não só os fez sairem dali, como LEVARAM , apreenderam sacolas de peças que seriam vendidas por eles ali. Sacolas com produtos confeccionados por eles.

Eles estão errados por estarem ocupando a calçada? Sem dúvida estão. Mas durante o carnaval eu tive muito mais do que só a minha calçada ocupada. Tive a rua intransitável, com muito lixo, xixi, gente bloqueando o caminho e um ambiente, eu diria, apocalíptico ao fim do dia. E, que eu saiba, toda a minha descrição acima é "oficial", autorizada pelas autoridades municipais.

Eles não vendem informalmente e não pagam impostos, é esse o "crime"?

Oi?

Até onde eu sei, muitos dos financiadores do carnaval da Sapucaí não contribuem com impostos para a economia do país, certo? Legalidade não é o ponto forte do Carnaval. E a festa não deixa de ser linda e de dar alegria às comunidades que vivem o ano inteiro nas preparações para o grande dia. Aliás, nesse ponto, acho até que a Beija-Flor não deixou de cumprir seu papel - a comunidade de Nilópolis parecia feliz e realizada. Além de ter feito um belo desfile, sem dúvida.

Quanto ao julgamento injusto, é chato, não nego. Assim como foi chato ver os artistas da Rocinha chorando de tristeza e desespero na calçada. Mas quando a gente sai do Rio para espiar de leve o contexto internacional, lá pela Síria, Iraque e arredores, vemos que não somos os únicos injustiçados e nem os mais sofredores.

Aliás, basta ficar no Rio, e passar pelas próprias comunidades que participam do Carnaval, pra constatar que a vida não é mesmo justa com muitos, plagiando a juíza e escritora Andréa Pachá.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.