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Reynaldo José Aragon Gonçalves

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global. Editor do site codigoaberto.net

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O cerco ao Brasil e a hora da ruptura

Entre guerras, coerção e disputa por soberania, os Estados Unidos intensificam a pressão sobre o Brasil

Bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos (Foto: Reuters/Evelyn Hockstein)

Enquanto Washington normaliza a força como linguagem da política internacional, o Brasil se vê cada vez mais pressionado por tarifas, sanções, disputas tecnológicas e interferências narrativas. Neste novo tabuleiro, não há espaço para neutralidade: ou Lula se descola de Trump e afirma a soberania brasileira como projeto político global, ou o país será progressivamente enquadrado como periferia estratégica de um poder em declínio, mas ainda capaz de impor seus interesses.

O mundo voltou a falar a língua da força

O que se desenha neste momento não é apenas mais uma crise internacional. É uma inflexão. A política global volta a operar, de forma explícita, pela linguagem da força. O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, em meio a negociações em curso, não é um episódio isolado. É um sinal inequívoco de que a mediação deixou de ser o princípio organizador das relações entre Estados.

Esse deslocamento não surge agora, mas agora se torna impossível de ignorar. A exceção virou regra. Guerra preventiva, coerção econômica, sanções unilaterais e pressão diplomática deixaram de ser recursos extraordinários e passaram a compor o repertório ordinário de poder. O que antes exigia justificativa, hoje se impõe como fato.

Nesse cenário, o direito internacional não desaparece, mas perde centralidade prática. Ele passa a ser mobilizado conforme a conveniência das potências. A assimetria não é apenas material. É também a capacidade de definir o que é legítimo.

Para países como o Brasil, isso altera o próprio campo de ação. Já não se trata de equilibrar interesses divergentes com técnica diplomática. Trata-se de reconhecer que o ambiente foi reorganizado em torno de disputas abertas, onde neutralidade não protege. Expõe.

O mundo mudou de linguagem. E quem não compreender isso rapidamente deixará de negociar seu lugar. Será empurrado a ele.

A coerção virou método, não exceção

Se a força voltou ao centro, é porque deixou de ser contingência. O que se observa não é uma sequência de crises desconectadas, mas a consolidação de um método. A coerção, em suas múltiplas formas, passou a estruturar a ação das grandes potências. Não se limita ao uso direto da força. Opera em camadas, combinando instrumentos econômicos, jurídicos, tecnológicos e narrativos.

O ataque ao Irã explicita sua forma mais visível. A Venezuela, com episódios de intervenção e captura de liderança, revela outra dimensão. No caso brasileiro, a coerção assume contornos mais sofisticados. Manifesta-se por meio de sanções direcionadas a autoridades, pressões comerciais, investigações unilaterais, disputas sobre regulação digital e tentativas de enquadramento discursivo em torno de categorias como “liberdade de expressão”.

Não há contradição nesse arranjo. Há adaptação. A forma varia conforme o custo político e a posição estratégica do país alvo. Onde o custo é baixo, a força é direta. Onde há maior densidade institucional e econômica, a pressão se torna difusa, contínua e fragmentada.

O ponto central não é punir. É moldar comportamento. Induzir alinhamento. Estabelecer limites informais sobre o que pode ser feito por Estados que buscam autonomia.

Quando a coerção se torna método, eventos isolados perdem relevância. O que importa é o padrão. E, nesse padrão, o Brasil já não figura como observador. É alvo em processo de enquadramento.

O Brasil entrou no raio de ação do império em modo crise

O Brasil já não ocupa uma zona neutra no tabuleiro. Passou a integrar o raio de ação de uma potência que opera sob lógica de crise e, por isso, reduz sua tolerância à autonomia alheia. Esse deslocamento não foi anunciado. Foi construído por sinais dispersos, decisões aparentemente técnicas e movimentos que, isolados, poderiam parecer pontuais. No conjunto, formam um padrão consistente de pressão.

Sanções a membros do Supremo Tribunal Federal, tarifas com motivação política, investigações comerciais unilaterais e a ofensiva diplomática contra iniciativas de soberania de dados não são episódios desconectados. São instrumentos distintos aplicados sobre o mesmo alvo. Cada um atua em uma dimensão, mas todos convergem para um objetivo comum: restringir a margem de manobra do Estado brasileiro.

Há ainda uma camada mais sensível. A disputa por minerais críticos, como as terras raras, insere o Brasil em uma cadeia estratégica que extrapola o comércio. Trata-se de controle sobre infraestrutura produtiva, tecnologia e futuro industrial. Ao mesmo tempo, a nomeação de operadores ideológicos para lidar diretamente com o país indica que a pressão não será apenas técnica ou econômica. Será também política e narrativa.

O que se configura não é ruptura súbita, mas cerco progressivo. Um movimento que avança pelas instituições, pelas cadeias produtivas e pelo próprio debate público. E exatamente por isso é mais difícil de perceber. O Brasil já não está à margem desse processo. Está no centro dele.

A ambiguidade diplomática virou vulnerabilidade estratégica

Durante décadas, a capacidade brasileira de transitar entre polos de poder foi tratada como virtude. A diplomacia do equilíbrio ampliou margens de negociação, evitou confrontos diretos e extraiu ganhos em um sistema que ainda admitia mediação. Esse repertório, porém, dependia de uma condição que deixou de existir: a expectativa de reciprocidade.

No cenário atual, essa base colapsa. Quando um dos polos opera pela coerção, a ambiguidade deixa de ser ferramenta e passa a ser lida como hesitação. E hesitação, em ambiente de disputa aberta, converte-se rapidamente em oportunidade de pressão. O espaço de negociação é ocupado por mecanismos de enquadramento.

Isso não exige abandonar a tradição diplomática brasileira, mas reconhecer seus limites diante de uma mudança estrutural. Manter canais abertos com todos os polos já não amplia autonomia por si só. Pode, ao contrário, diluí-la, ao permitir que pressões externas avancem sem resposta clara.

O problema não está no equilíbrio, mas em um equilíbrio que pressupõe condições inexistentes. Quando o jogo muda, a estratégia precisa acompanhar. Caso contrário, o país não se posiciona. É posicionado.

A ambiguidade, que foi ativo, torna-se vulnerabilidade. E vulnerabilidades, em cenários de coerção, não permanecem em aberto. São exploradas.

O paradoxo interno: soberania como acelerador político

Há um elemento que altera o cálculo interno e costuma ser subestimado. O mesmo movimento externo que busca constranger o Brasil produz, no plano doméstico, efeito inverso. Quando a pressão é percebida como interferência, o debate se reorganiza em torno da soberania. E, nesse terreno, o governo se fortalece.

Não se trata de nacionalismo retórico, mas de um mecanismo recorrente. Ao ultrapassar certos limites, o ator externo desloca a disputa interna. Ela deixa de ser apenas programática e passa a incorporar a defesa do próprio Estado. As diferenças permanecem, mas são reordenadas diante de um fator comum.

Esse padrão já se manifestou. Sempre que o país foi alvo de tarifas, sanções ou declarações de caráter interventivo, a resposta ancorada na soberania encontrou ressonância social. Nesses momentos, Lula deixa de ser apenas chefe de governo e passa a ocupar a posição de representante de uma resposta nacional ao enquadramento externo.

Eis o paradoxo. O cerco que pretende enfraquecer pode, se bem interpretado, tornar-se vetor de fortalecimento. Mas isso não é automático. Exige leitura precisa, capacidade de nomear o conflito e de traduzir pressão em narrativa política.

Soberania, aqui, não é apenas princípio. É instrumento. Quando mobilizada com clareza, torna-se um dos mais potentes aceleradores de apoio interno.

A ruptura necessária: descolar de Trump para governar e crescer

Diante desse cenário, a questão deixa de ser tática e passa a ser estrutural. Não se trata de ajustar discurso ou calibrar gestos. Trata-se de reconhecer que a ambiguidade já compromete a capacidade de governar, de crescer politicamente e de preservar autonomia. A relação com os Estados Unidos, sob a lógica atual, deixou de oferecer equilíbrio e passou a operar como vetor de pressão.

Descolar-se de Trump, portanto, não é um gesto ideológico. É uma decisão estratégica. Significa redefinir os termos da relação, retirando-a do campo da adaptação e recolocando-a no terreno da afirmação soberana. Significa estabelecer limites claros, inclusive simbólicos, sobre o que o Brasil aceita como forma de interlocução.

Esse movimento produz efeitos internos imediatos. Ao assumir uma posição nítida, o governo reduz zonas de ambiguidade exploradas tanto externamente quanto no debate doméstico. Reorganiza o campo político em torno de um eixo definido, no qual a soberania deixa de ser abstração e passa a orientar decisões concretas.

Há também um efeito externo. Países submetidos a pressões semelhantes buscam referências. Lideranças capazes de transformar essa experiência em projeto ampliam sua capacidade de influência. Ao se descolar, Lula não apenas reage. Passa a propor.

A alternativa é permanecer em um espaço intermediário que já não oferece proteção. Nesse ambiente, quem não define sua posição tem sua posição definida por outros.

Lula como contraponto: soft power e a disputa do século

Ao se descolar, abre-se um espaço que ultrapassa a política doméstica. Surge a possibilidade de ocupar um papel hoje em disputa no plano global. Em um cenário marcado pela escalada da coerção, torna-se evidente a ausência de lideranças capazes de articular uma alternativa consistente. Esse vazio não é apenas político. É também simbólico. Diz respeito à capacidade de oferecer um horizonte que não se baseie na imposição, mas na legitimidade.

É nesse ponto que o soft power ganha densidade estratégica. Não como instrumento de sedução superficial, mas como expressão de um projeto político reconhecível. Diplomacia ativa, defesa do multilateralismo, respeito à autodeterminação dos povos e compromisso com o desenvolvimento social deixam de ser diretrizes históricas e passam a constituir um diferencial concreto.

Lula reúne condições específicas para ocupar esse espaço. Sua trajetória, sua capacidade de interlocução e o reconhecimento acumulado em diferentes regiões do mundo formam uma base que poucos líderes possuem hoje. Em um ambiente fragmentado, a habilidade de dialogar com múltiplos polos converte-se em ativo geopolítico.

Mas esse papel exige clareza. Não há contraponto sem distinção. Para que o Brasil seja percebido como alternativa, precisa diferenciar-se de forma nítida do modelo que hoje se impõe pela força. Isso implica assumir posições, ainda que produzam tensões no curto prazo.

A disputa em curso não é apenas por influência. É pela definição das regras do jogo nas próximas décadas. E quem ocupa o lugar de contraponto não apenas reage ao presente. Ajuda a moldar o futuro.

O custo da hesitação: quando o cerco vira enquadramento

Há um ponto a partir do qual pressão deixa de ser episódica e passa a estruturar o comportamento de um país. Esse ponto não é declarado. Ele se instala. Enquanto há reconhecimento do movimento e resposta proporcional, ainda existe margem de manobra. Quando há hesitação, essa margem começa a se fechar. O cerco deixa de ser percebido como tal e passa a operar como normalidade.

Esse deslocamento ocorre por acúmulo. Uma concessão, uma omissão, um silêncio diante de um episódio que poderia ter sido enfrentado. Aos poucos, os parâmetros do aceitável se alteram. O que antes seria lido como interferência passa a ser tratado como parte do jogo. E, quando isso se consolida, a autonomia já foi parcialmente comprometida.

No plano econômico, isso se traduz em dependência crescente de cadeias produtivas externas. No plano tecnológico, em perda de controle sobre dados, infraestrutura e plataformas. No plano político, em limitação progressiva da capacidade de decisão. A soberania permanece formal, mas sua efetividade se reduz.

A hesitação raramente se apresenta como escolha. Surge como prudência, cautela, tentativa de evitar conflito. Mas, em um ambiente em que o conflito já está dado, evitar nomeá-lo não o elimina. Apenas transfere sua resolução para condições menos favoráveis.

Quando o enquadramento se completa, a reversão se torna mais custosa. O que poderia ter sido enfrentado com clareza passa a exigir rupturas mais profundas, muitas vezes sob desvantagem. Em certos momentos, adiar não é preservar. É decidir em piores condições.

A hora da decisão

O Brasil não enfrenta um dilema abstrato. Enfrenta uma encruzilhada concreta, moldada por forças já em movimento. De um lado, um sistema internacional reorganizado sob a lógica da coerção, no qual a força volta a ser o principal idioma da política. De outro, a possibilidade de afirmar um caminho distinto, baseado em soberania, legitimidade e capacidade de articulação.

Lula ocupa uma posição singular nesse cenário. Não apenas pela presidência, mas pelo acúmulo histórico, pelo reconhecimento internacional e pela capacidade de interlocução com diferentes blocos. Essa posição, porém, não se sustenta por inércia. Precisa ser ativada. E ativá-la exige decisão.

Descolar-se de Trump não significa romper com os Estados Unidos enquanto país. Significa recusar uma forma específica de condução da política internacional baseada na pressão, na assimetria e na imposição. Significa estabelecer que a relação bilateral deve se dar em termos de respeito mútuo, não de enquadramento.

Ao fazer isso, Lula não apenas reposiciona o Brasil. Redefine seu próprio papel. De gestor de um equilíbrio instável, passa a articulador de uma alternativa. De ator reativo, torna-se referência em um mundo que busca novos pontos de apoio.

A escolha, portanto, não é entre confronto e acomodação. É entre assumir o lugar que as circunstâncias abriram ou permitir que ele seja ocupado por outros. Em momentos como este, não agir não preserva o presente. Compromete o futuro.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.