O chamado de Florbela

O mundo aí fora tá cheio de lama e é preciso falar sobre isso. É preciso falar sobre os tiros em Paris e também na favela. É preciso falar sobre a escola que vai ser fechada, sobre o veneno que está na mesa e sobre a luta que a mulher pobre trava no cotidiano

O mundo aí fora tá cheio de lama e é preciso falar sobre isso. É preciso falar sobre os tiros em Paris e também na favela. É preciso falar sobre a escola que vai ser fechada, sobre o veneno que está na mesa e sobre a luta que a mulher pobre trava no cotidiano
O mundo aí fora tá cheio de lama e é preciso falar sobre isso. É preciso falar sobre os tiros em Paris e também na favela. É preciso falar sobre a escola que vai ser fechada, sobre o veneno que está na mesa e sobre a luta que a mulher pobre trava no cotidiano (Foto: Talita do Lago Anunciação)

Sentada em um baú, assisto a uma projeção de imagens. As imagens vão e vêm após aquele barulhinho característico dos projetores do cinema antigo. Não consigo discernir ou classificar nada do que vejo. Apenas uma imagem fica gravada em minha memória, uma mulher jovem, com roupas antigas, que ilustra a capa de um livro. Abaixo da foto, um nome: Florbela Espanca.

Acordo curiosa para saber o que esse sonho tem a me dizer e passo o dia mentalizando-o para não esquecê-lo até deixar a preguiça de lado e anotá-lo em um papel. Sonho simbólico assim é um prato cheio para o autoconhecimento! De Freud a Jung, sonhar com uma poetisa que eu pouco li dos 15 aos 18 anos e depois guardei no setor de memórias “caiu no vestibular” deve significar alguma coisa.

Florbela, o que queres me dizer, mulher? Reli sua biografia. Céus, que destino! Vida conturbada, morte trágica, ousou colocar fim à própria existência. Alguns analistas literários a descrevem como sendo uma mulher egocentrada, conservadora, focada em suas paixões e na vida pequeno burguesa. Em sua poética não se podia encontrar referências a questões políticas ou sociais. Por outro lado, sua vida também é lida como revolucionária para o contexto patriarcal em que viveu. Ser mulher no início do século XX e ainda publicar intensas palavras de paixão e desejo não deve ter sido tarefa fácil de empreender.

Mas afinal, Florbela, o que queres de mim? Por quais motivos apareceste em meus sonhos nesse momento da minha vida? Momento em que me dei conta de que virar a primeira esquina sem saber pra onde ir aparentou ser mais fácil ou menos enfadonho do que seguir o fluxo. Momento em que ousei dizer não. Não! Não terei um filho agora somente para me salvar das próximas escolhas ou de mim mesma. Não! Não terei um currículo lattes recheado para me dar a falsa impressão de que estou a salvar o mundo com artigos recortados e publicados.

Há uma pista. Eu procuro um caminho e Florbela pode estar apontando para ele. Seria o caminho da escrita? Talvez. Talvez seja um chamado da alma para liberar a escrita que foi formatada, reprimida e calada. Sendo assim, agradeço pelo insight. Vou escrever! Sou afeta às coisas do amor e da sensibilidade. Mas talvez o caminho que trilhei até aqui me permita falar um pouco sobre aquilo que você não falou, Florbela.

O mundo aí fora tá cheio de lama e é preciso falar sobre isso. É preciso falar sobre os tiros em Paris e também na favela. É preciso falar sobre a escola que vai ser fechada, sobre o veneno que está na mesa e sobre a luta que a mulher pobre trava no cotidiano. É preciso falar sobre a saga do índio que não tem sua terra, sobre o animal que está à espera do abate e sobre as oportunidades negadas as nossas crianças. É preciso falar sobre a paz, a justiça social e sobre como esse mundo deveria ser melhor.

No entanto, Florbela, também aprendi que é preciso falar sobre a mística e a espiritualidade que me movem. Não posso negar que apesar do caos que o homem realiza nesse planeta ainda é possível sentir pelos ventos da fé que existe algo além da matéria e que é preciso falar sobre isso. É preciso falar sobre Jesus, Krishna e Buda. É preciso falar sobre o Sagrado Feminino, sobre Saraswati, sobre a Virgem de Guadalupe, sobre a Mãe Divina. É preciso falar sobre as escrituras que acalentam a alma e sobre os silêncios que nos ajudam a prosseguir nesse mundo material. É preciso falar sobre o Ganges, o Himalaia e os mantras da Índia. Sobre as montanhas, as cachoeiras e as cirandas do interior de Minas. É preciso falar sobre o todo e sobre o nada, os mistérios do universo e as pequenas coisas. Sobre a plenitude da alma e os desertos que atravessamos. Tranquilizo então a Florbela dentro de mim, não me calarei. É preciso falar. É preciso escrever. Até a próxima.

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