O chicote do fascismo e açoite da dignidade humana

A cena na qual um jovem de 17 anos, preto, e em situação de rua, é chicoteado por seguranças de uma rede de supermercados de São Paulo, por tentar furtar uma barra de chocolate, deveria provocar, além de revolta e repúdio, uma profunda reflexão naqueles que ainda acreditam que o uso da covardia e da violência pode restabelecer a ordem e paz

A cena na qual um jovem de 17 anos, preto, e em situação de rua, é chicoteado por seguranças de uma rede de supermercados de São Paulo, por tentar furtar uma barra de chocolate, deveria provocar, além de revolta e repúdio, uma profunda reflexão naqueles que ainda acreditam que o uso da covardia e da violência, como punição legal, pode restabelecer a ordem e promover a paz tão decantada pelos “cidadãos de bem” deste país.

Não vou entrar no mérito da infração cometida pelo jovem. Todos nós sabemos, que não devemos subtrair algo que não nos pertence. Embora, para alguns, talvez esta seja a única alternativa de sobrevivência, num mundo capitalista, egoísta, cruel, desigual, segregador, e, a cada dia, mais desumano. Principalmente, com os menos favorecidos. E não tentem dizer que estou defendendo bandido aqui, porque não é o caso e nem faz a minha linha. O meu clamor é por justiça. A começar por justiça social.

Após assistir ao vídeo, onde o rapaz é colocado nu e amordaçado com uma pano na boca e conhecer um pouco mais sobre a sua história de vida, cada comentário feito por justiceiros virtuais, legitimando a tortura e exaltando a barbárie cometida pelos seguranças deste supermercado, contra ele, me provocou um raiva quase que primitiva. Quando pessoas que tiveram uma família, um teto para se abrigar, comida na mesa, roupas e estudos pagos pelo papai, conseguem estabelecer um comparativo meritocrático entre elas e um jovem como este que foi açoitado, eu concluo que elas perderam a noção da realidade. Ou, são apenas canalhas mesmo.

Além da ilegalidade constitucional do ato, uma vez que o inciso 3, do artigo 5º da Constituição diz que: “Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante”, o ethos escravagista da ação choca e nos remete a um período sombrio da nossa história. Onde era os pretos capturados pelos capitães do mato, “seguranças” dos senhores de engenho à época, eram chicoteados como punição à sua desobediência ou rebeldia. Curiosamente, um dos criminosos que aparece rapidamente no vídeo, certificando-se de que o corpo do jovem estava ficando devidamente marcado pelos golpes de chicote, era preto. Uma prova de que os capitães do mato seguem a serviço da casa grande. Seja na segurança privada, pública ou, até mesmo, no parlamento. O negão do Bolsonaro e o Vereador Holliday, não me deixam mentir.

A ascensão de um governo, cujo viés ideológico é fascista e exalta torturadores, é um dos fatores que motivam a perseguição a grupos representativamente minoritários e historicamente injustiçados, legitimando o uso da violência empregado contra eles, como forma de fazer justiça. Afinal, como o presidente disse ainda em campanha: “Ou se enquadram ou desapareçam” Em qualquer país sério do mundo, Bolsonaro teria saído algemado do parlamento, ao saudar a memória de um torturador assassino e sanguinário, como o General Ustra. Mas, como boa parte da nossa sociedade tem a mente tão perversa quanto a dele, ele acabou se tornando o representante máximo dessa parcela, que, graças ao seu “mito”, pode deixar de lado o politicamente correto, e agora externa, sem a menor vergonha, todo o preconceito que mantinha sob o cabresto da hipocrisia.

Os autores desse crime contra esse jovem, devem ser punidos. Da mesma forma que todos que se manifestaram favoráveis a este abuso, também deveriam receber uma punição. O delito praticado e apoiado por eles, se tornou muito mais grave do que a infração cometida pelo rapaz. Não vou exigir que eles fossem humanos e sócio educativos o suficiente, para pagar o chocolate para o jovem e orientá-lo a não furtar mais nada de ninguém. Assim como fizeram uns Policiais Civis de Brasília, que pagaram a fiança e fizeram compras para um Eletricista desempregado, pego tentando furtar 7 quilos de carne para alimentar os filhos. Mas, pelo menos, poderiam ter tido a decência de agir como manda a lei. E não instituir um tribunal de exceção, determinado uma sentença cruel, como se fossem juízes de uma terra de ninguém.

Num país, onde milhões de pais de família estão desempregados, é fácil deduzir o desespero e o malabarismo que muitos precisam fazer, para levar o pão de cada dia para casa. Graças a Deus, nem todos passam fome e precisam furtar algo para comer. Mas, não é difícil imaginar, como deve ser olhar diversos pratos na vitrine e passar o dia de estômago vazio, a espera de uma migalha ou da empatia e da boa vontade de alguém. Como já cantou Eduardo Dussek: "Troque seu cachorro por uma criança pobre, sem parente, sem carinho, sem rango, sem cobre. Deixe na história de sua vida, uma notícia nobre" e não um legado fascista e eugenista, que só evidencia o quanto a sua mente é perversa e a sua alma é podre. 

Mais humanidade, por favor!

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