O Cigarro do José Reinaldo e o Beijo da Capivara

Um paralelo em outro assunto é a política antidrogas, batida há tanto tempo pelo establishment, tão fracassada quanto equivocada, moralista, hipócrita, irreal. Aquelas ilustrações com embalagens de vários tipos de drogas perfiladas, como se todas fossem uma só, o slogan “drogas não”. Existe isso, drogas não? Como afirmar isso se desde as sociedades mais antigas o ser humano pratica e fala “drogas sim”?

Vivemos em uma época de muita informação e também muita confusão mental. A torre de babel da chamada pós-modernidade. Múltiplas informações superficiais, pós-verdades, clichês a granel, informação fragmentada em profusão nas redes, no Google etc. Toma-se contato com tudo breve e superficialmente, todo mundo é comentarista de tudo o que conhece e do que não conhece. Há o lado bom, que é uma maior participação das pessoas em debates atuais, mas há suas contraindicações, “tins e bens e tais”.

Tim Maia poderia ser o “síndico” da pinimba do politicamente correto, uma vez que ele era indubitavelmente incorreto — será que era? Fiquei meio surpreso com a reação das pessoas durante um programa da TV 247, em que José Reinaldo de Carvalho, entre as quatro paredes de sua casa, fumava um cigarro enquanto debatia os temas do dia com a característica lucidez de sempre. Surgiram alguns argumentos meio estranhos:

— é feio fumar na live.

— Você não pode deixar para fumar depois?

— É um mau exemplo nesses tempos.

— Falta de respeito.

Já ouvi comentários também dirigidos a outros analistas para não falarem palavrões desses banais, cotidianos da vida de todo mundo, durante os programas, pois as pessoas escutam os programas com crianças por perto.

Dá vontade de invocar uma ironia nelson-rodriguiana, mas vamos nos conter, pois são todos companheiros e bem-intencionados. Sim, há situações e coisas em que é muito pertinente invocar o “politicamente correto”, bullying, questões ecológicas, raciais ou de gênero, assédio, intolerância política e tantas outras; mas não podemos entrar em um mundo irreal de aparências, ou em um mundo ideal de aparências. Alguém vai falar um palavrão para seu filho na escola, é sempre divertido para uma criança aprender um palavrão novo, não tem o menor sentido criar um ambiente que tente bloquear esse tipo de comunicação dentro de casa; você só estará criando um ambiente fictício. A vida flui independente das hipocrisias ou aparências, não é porque não se fala palavrão dentro de sua casa que seu filho não vai aprender isso por aí e usar; posto isso, melhor que seja por aqui, você pode dizer quando isso pode pegar mal e quando não tem nada demais, fazê-lo saber o que é conveniente falar em cada lugar; é melhor do que fingir que você, pai, não fala, quando, na verdade, fala. 

Um paralelo em outro assunto é a política antidrogas, batida há tanto tempo pelo establishment, tão fracassada quanto equivocada, moralista, hipócrita, irreal. Aquelas ilustrações com embalagens de vários tipos de drogas perfiladas, como se todas fossem uma só, o slogan “drogas não”. Existe isso, drogas não? Como afirmar isso se desde as sociedades mais antigas o ser humano pratica e fala “drogas sim”? 

O adepto dessas políticas não toma cerveja no churrasco de domingo, durante o jogo de futebol, nas comemorações de família? O filho dele não experimentou maconha em uma festa estudantil? A sobrinha não cheirou cocaína na balada? Se o ser humano usa essas substâncias desde que o mundo é mundo, que sentido tem negá-las? É real isso? Não seria melhor admitir que a maioria das pessoas faz gosto em usar alguma droga recreativamente? A negativa faz esse fato deixar de existir? Alguma vez a proibição evitou ou coibiu algo? Não é melhor reconhecer que a humanidade necessita espairecer, extravasar, e que as drogas são uma das maneiras, dentre outras, de se conseguir isso, como diriam os gregos na antiguidade – perder o métron

Não seria um gesto mais eficaz dizer que “sim, as drogas existem, dão prazer a algumas pessoas, destroem a vida de outras, são diferentes, não há escada nenhuma, há preferências, possibilidades e limitações para cada pessoa”?. Há pessoas que podem consumir isso e não aquilo, há pessoas que não podem consumir nada, há pessoas que não têm problemas com nenhuma substância. Encarar a realidade leva ao engano? — Não, o que leva ao engano é a pretensão de proibir o uso, é ver isso de maneira moralista, religiosa, criminal, e não cultural, antropológica.

Voltemos ao cigarro do José Reinaldo, e ao beijo da capivara. Ontem, apareceu nas redes sociais um meme espirituoso em que duas capivaras colavam as bocas simulando um beijo, e um texto que dizia: “Que pouca vergonha, se os meus filhos virem isso, vão querer virar capivara”...

Fazendo uma alusão ao ato de censura do prefeito evangélico do Rio de Janeiro ao recolher os livros em que dois rapazes se beijavam na capa. Um ato inconstitucional de censura, com o argumento de que a visão da imagem provocaria desejo, curiosidade e interesse dos adolescentes.

Qual a diferença disso e de pedir a alguém para não fumar em uma live, para que com isso não provoque desejos em uma terceira pessoa? “Não, mas é por educação.” É falta de educação fumar na sua casa, no lugar em que você escolheu para isso?

As pessoas são homossexuais por que preferem parceiros do mesmo sexo, e não por que viram parceiros do mesmo sexo se beijando. As pessoas experimentam alguma droga por que estas estarão disponíveis, com ou sem proibição, em algum lugar, e alguém vai querer experimentar por curiosidade, ou para repetir um prazer que já teve. Proibir prazeres, comportamentos, hábitos culturais, sexo, drogas, seja lá o que for, não fará essas coisas deixarem de existir, não por algum decreto, lei, vontade de alguém; nem por preconceito, religião; se elas existem é por que são necessárias à sociedade, aos indivíduos; quando não forem mais, deixarão de existir; mas veja que as drogas datam das mais antigas civilizações, sociedades primitivas, selvagens, e nunca sequer ameaçaram desaparecer.

A sociedade só pode evoluir quando puder reconhecer suas necessidades, para o bem e para o mal, e a partir desse reconhecimento buscar o equilíbrio, a consciência, o que lhe fizer bem. 

Resumindo: Deixem José Reinaldo pitar o cigarrinho dele, que faz mal a sua própria saúde, mas não ameaça ninguém e nem a sociedade com seu vício; deixem as capivaras e os meninos se beijarem na capa do livro; deixem o ser humano ser humano em paz, ter livre-arbítrio para reagir ao mundo desde criança; a evolução brota da interação; quando isso não agride nem faz mal a ninguém, não fará nada de mal ao que é “demasiado humano.”

Teju Franco 11/9/2019

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