O circus maximus de Arthur Lira e a guerra bolsonarista

"Como imperador, Lira tende a fazer um jogo de ambiguidades, segundo seus interesses, não assumindo o governismo e nem o antigovernismo", diz Fornazieri

Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados
Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados (Foto: Lula Marques/Ag. Brasil)


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Mesmo perdendo o orçamento secreto, Arthur Lira concentra imenso poder. A estrondosa votação para a presidência da Câmara, a maior da história, conferiu-lhe um poder quase imperial no âmbito daquela Casa. Mas nas formações imperiais ocidentais, o poder nunca foi absoluto. Lira tenta ampliá-lo no âmbito interno da Câmara e na relação com o governo. Toda a polêmica em torno da tramitação das medidas provisórias foi uma manobra para angariar mais poder de barganha junto ao governo. O desfecho desse imbróglio ainda está para acontecer.

Pode-se dizer que o modelo de poder político constituído no Brasil é o de um principado de tipo francês: para governar, o príncipe precisa compartilhar e distribuir poder entre as várias facções aristocráticas. Aqui as aristocracias são articuladas pelos partidos políticos e se constituem por políticos. 

Como desdobramento da atual correlação de forças na Câmara e na relação da Câmara com o governo, se constituíram quatro grandes blocos aristocráticos. O bloco do PP, União Brasil, PSDB e agregados, com 173 deputados; o bloco do PSD, MDB, Republicanos e agregados, com 142 deputados; o PL, com 99 deputados e o bloco PT, PCdoB e PV, com 81 deputados. 

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A única coisa clara é que o bloco do PT é governista e o PL antigoverno. Os dois maiores blocos não são nem governistas e nem antigovernistas. Parte da base do governo Lula está nos dois blocos. O governo, contudo, não tem uma base parlamentar majoritária. Tanto Lula quanto Lira trafegam nos dois blocos, mas os dois blocos não são monolíticos. O bloco do PSD e aliados relativiza, em parte, o poder de Lira e os dois blocos relativizam, em parte, o poder de Lula. Este é o jogo complexo que se constituiu na Câmara. 

Para obter condições mais propícias, o governo precisa ter clareza de objetivos e astúcia e firmeza nas negociações. Um dos pontos fracos do governo na Câmara é a fraqueza dos seus líderes e operadores, incluindo a presidência do PT. O PT e o PL saíram relativamente isolados. Tudo indica que os dois grandes blocos tentarão avançar sobre espaços do PT no governo. 

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Como imperador da Câmara, Lira tende a fazer um jogo de ambiguidades até o fim, segundo os seus interesses, não assumindo o governismo e nem o antigovernismo. Tende a deixar que a Câmara funcione como um circus maximus da digladiação política. É muito improvável que adote a postura de Cômodo: não entrará ele mesmo na arena ostentando o gládio para lutar. Permanecerá no controle das cordas, executando as manobras. Poderá servir-se tanto do bolsonarismo radical para acossar o governo, quanto das tentativas de contê-lo para barganhar com o governo.

É um jogo perigoso – um jogo de circo e sangue. Nikolas Ferreira (PL-MG) foi circo. O enfrentamento ao ministro Flávio Dino nas duas ocasiões em que ele esteve na Câmara foi sangue. O que sobra é uma devastadora degradação da política. Se, por um lado, essa terra arrasada favorece o jogo de ambiguidades de Lira, por outro, ela interessa ao bolsonarismo radical, pois quanto pior melhor. Trata-se do jogo antissistema, que visa apodrecer as instituições, gerar o temor e a desordem para catapultar saídas autoritárias. 

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O bolsonarismo definiu sua estratégia: no Congresso, circo e guerra parlamentar. Além de desgastar as instituições e o governo, esta estratégia visa fortalecer a ação de guerra nas redes sociais, no campo extraparlamentar. Desde a posse dos deputados, ficou claro que os bolsonaristas travarão uma guerra dura no Congresso. Os relatórios de rede mostram que eles vêm obtendo vantagens semanais seguidas no Facebook, Instagram e Youtobe. Os sucessivos erros de comunicação e de direção política do governo contribuem para essas vantagens.

A estratégia bolsonarista pode ser definida como a adoção de uma guerra hibrida ampla: guerra parlamentar, guerra moral, guerra de desinformação, guerra de fake news, guerra de desmoralização e guerra digital. A guerra digital não pode ser confundida com a ciberguerra. Esta se refere a ataques à segurança dos meios eletrônicos e informáticos de comunicação e de dados – o chamado espaço cibernético.  

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A guerra digital é um desdobramento da tecnopolítica, relacionada à revolução digital que produziu transformações profundas e radicais em relação aos meios tradicionais de constituição de sujeitos políticos e de representação política e social. O surgimento da tecnopolitica e do ativismo digital suscitou grandes esperanças emancipatórias em ativistas sociais e sociólogos. Mas, passados alguns anos, observa-se que esses novos meios foram muito mais eficazes nas mãos da extrema-direita do que a serviço da emancipação. Compreender as razões desse revés é uma necessidade para recuperar terreno e redefinir estratégias condizentes com o novo espírito dos tempos. 

Indicam-se aqui duas razões, mas existem outras: 1) a extrema-direita tem um domínio muito maior e mais eficaz de estruturas de redes digitais do que as esquerdas e o campo democrático; 2) a extrema-direita tem uma produção e uma disseminação muito mais centralizada de conteúdos do que as esquerdas. Esses dois fatores conferem significativas condições de vantagem à extrema-direita. 

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Além de errar no comando político e na comunicação, o governo parece enfrentar alguns dilemas. O maior deles diz respeito ao papel do presidente Lula. Lula foi eleito por uma frente democrática (frágil) e com a proclamação de que um de seus objetivos consistia em pacificar o país. O governo foi surpreendido pelo 8 de janeiro e, agora, enfrenta uma guerra bolsonarista em várias frentes. Diante disso, como deve se comportar o presidente Lula?

Lula deve comandar pessoalmente a guerra contra a extrema-direita, tal como fazia Bolsonaro contra a esquerda? Aparentemente não. Como se disse em artigo anterior, Bolsonaro foi chefe de facção. Lula deve exercer o papel de estadista, ser o ponto de unidade, mas defender suas prioridades. Deve traçar as diretrizes gerais da guerra para que alguém, contudo, a execute. Este comando deve ser constituído por um estado-maior dirigente e a guerra deve ser travada a partir de várias frentes: de dentro e de fora do governo, no Congresso, nas redes e nas ruas. 

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É preciso que o governo e seu entorno partidário constituam capacidades políticas e estratégicas dirigentes e que se desdobrem também em políticas de comunicação. O governo e os partidos do seu entorno dispõem de imensos meios. \Não é admissível que não os disponibilizem ao serviço da competência e da eficácia políticas, tanto nas políticas governamentais, quanto nos embates políticos. 

Os ministros, os escalões superiores do governo e os dirigentes partidários precisam assumir suas responsabilidades para não errar. Precisam planejar antes de anunciar e pensar antes de falar. Depois de tudo o que o povo brasileiro sofreu nos últimos quatro anos não se pode correr o risco de novas recaídas na tragédia do extremismo de direita. 

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