O conflito de interesses na nova presidência do IBGE

A mudança na presidência do IBGE quebra uma tradição recente do Instituto: desde 2002, Paulo Rabello será o primeiro presidente do Instituto que não é funcionário de carreira da instituição. Mais ainda: ele não é oriundo da academia, como é tradição

Brasil, S�o Jos� dos Campos, SP. 15/08/2010. Recenseador aborda moradora de S�o Jos� dos Campos, interior paulista, para colher os dados do Instituto Brasileiro de Geografia   e Estat�stica (IBGE) que comp�em o Censo 2010, neste domingo (15). O Censo dest
Brasil, S�o Jos� dos Campos, SP. 15/08/2010. Recenseador aborda moradora de S�o Jos� dos Campos, interior paulista, para colher os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat�stica (IBGE) que comp�em o Censo 2010, neste domingo (15). O Censo dest (Foto: Walmyr Junior)

No dia 31 de maio a Presidenta do IBGE, Wasmália Bivar, foi a afastada do seu cargo para dar lugar a Paulo Rabello de Castro, amigo pessoal de Michel Temer. Wasmália foi a primeira mulher a ocupar o cargo de presidenta no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e também a primeira latina a presidir a Comissão de Estatística da ONU. Formada em Economia na PUC-Rio, ganhou o prêmio BNDES de melhor dissertação de mestrado e é doutora em Economia pela Universidade Luiggi Bocconi, na Itália. Com 30 anos de IBGE, foi diretora da área das estatísticas do IBGE por 7 anos, e presidente por mais outros 5 anos.

A mudança na presidência do IBGE quebra uma tradição recente do Instituto: desde 2002, Paulo Rabello será o primeiro presidente do Instituto que não é funcionário de carreira da instituição. Mais ainda: ele não é oriundo da academia, como é tradição dos seus últimos presidentes. Este fato não seria um problema tão grande se Castro não fosse fundador da RC Consultores, uma empresa que vende projeções econômicas e faz análise de rating. O conflito de interesses é claro: o dono de um negócio que tem interesse direto nos dados gerados pelo IBGE terá não só conhecimento antecipado desses dados, fundamentais para o acompanhamento e avaliação das políticas econômicas, mas também poderá querer interferir na sua produção.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, diferente de ministérios e outras agências, é uma instituição de Estado. Ou seja, ela não deve estar associada a possíveis mudanças políticas, que podem gerar interferência na produção de dados tão importantes como o PIB, a inflação e a taxa de desemprego. É essencial que o IBGE seja autônomo, que esteja longe da interferência política não só de Temer, como de qualquer outro governo.

Em entrevista para esta coluna com o Bacharel em Relações Internacionais, Lucas Steling, podemos observar como essa política de interesses privados compromete a transparecem do Instituto e fragiliza nossa democracia.

Segundo Lucas "Os conflitos de interesses estão explícitos com a nova contratação de Temer. Paulo Rabello de Castro foi um dos economistas que escreveu a "ponte para o futuro", que é onde se baseia o Plano de Governo de Michel Temer. Além de ser um homem do Mercado, podendo não resistir a tentação de querer manipular e se aproveitar das estatísticas geradas pelo IBGE, Castro tem um grande interesse que os próximos dados do Instituto sejam positivos. Afinal, é o seu plano de governo que está em jogo".

E continua: "Temer faz questão de botar um amigo pessoal para comandar um órgão que depende de sua imparcialidade e, que sem ela, terá seu reconhecimento, conquistado com méritos, jogado no lixo.. A cada dia que passa, Temer avança mais um passo para acabar não só com sua credibilidade nacional, que está vindo abaixo junto com o seu projeto de governo fracassado, como também a internacional, botando um amigo que responde ao mercado e não ao Brasil no comando do IBGE".

Vemos nessa política entreguista, a jovem democracia brasileira correr grandes riscos. Não basta tirar mais uma mulher do governo e fazer declinar o país no ranking das democracias que garantem as representatividades de gênero. Temer não só faz um governo interino, repleto de homens, brancos, heteronormativos, como garante que a política clientelista, pautada no nepotismo e nas relações de amizades, se torne a pseudo organicidade da politica nacional.

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