O Coringa e a eleição do Bolsonaro

O caos é uma etapa posterior a uma estratégia política que visa acabar com o capitalismo e instaurar uma sociedade comunista. Esta proposta precisa, este objetivo definido não está presente em Coringa. É o caos pelo caos, é o tipo de revolta da qual a extrema direita se apropria

(Foto: ADRIANO MACHADO - REUTERS)

O filme começa com o noticiário abordando uma greve de lixeiros em Gotham City que está deixando as ruas imundas e ocupadas por ratos, expondo toda a população a doenças. Na tv, o zilionário Thomas Wayne, pai do futuro Batman, mostra seu descontentamento com o governo, Coringa e a eleição do Bolsonaro

Coringa é um dos melhores filmes produzidos por Hollywood nos últimos dez anos, pelo menos. Fotografia linda, tratamento gráfico perfeito, Joachim Phoenix e Robert De Niro duelando de maneira magistral, roteiro preciso, o uso primoroso do desfoque, trilha sonora que casa uma música original com sucessos do pop e do rock, personagens “escadas” que favorecem o protagonismo do Coringa, Arthur Fleck, e uma direção segura. Para mim, concorre fácil aos Oscar de melhor ator, melhor ator coadjuvante, melhor fotografia e concorre por fora a melhor trilha sonora. Embora seja um filme espetacular o moralismo cristão deve dificultar sua escolha como melhor filme. 

Setores da esquerda veem nele um filme político e revolucionário porque o povo ocupa as ruas numa revolta popular. Há uma revolta no filme cujo estopim é uma ação específica o Coringa, cujo nome real. O povo vai para as ruas queima tudo, bate na polícia e só. Acusando-o de inépcia em lidar com a greve dos lixeiros. Ao mesmo tempo, Thomas Wayne lança sua candidatura à prefeitura de Gotham City.

O Arthur Fleck é uma personagem angustiada que ganha a vida trabalhando como palhaço, cujo sonho é estrelar um stand up comedy e tornar-se um grande comediante. Contudo, falta-lhe capacidade cômica: ele não é engraçado fato reconhecido por sua própria mãe que ao tomar conhecimento do desejo do filho retruca na lata: “mas não é preciso ser engraçado para fazer ser comediante?” Arthur Fleck é uma personagem mentalmente desequilibrada cujo principal sintoma é um riso nervoso, tenso que ele não consegue controlar toda vez que acontece algum fato que lhe desagrada, lhe oprime ou que não consegue controlar. É uma personagem solitária que não consegue relacionar-se socialmente. Um dia ao voltar para casa depois de mais um dia frustrante no trabalho, ele passa por uma situação violenta que marca a mudança do perfil do personagem e o começo da transformação de Arthur Fleck em Coringa. Esta situação ganha as capas dos jornais e o noticiário de rádio e televisão e, com o passar dos dias, alcança uma amplitude desproporcional ao fato graças à conjuntura política de Gotham City, a população descontente com uma ação específica do governo, sua incapacidade em manter as ruas limpas. Pode-se fazer uma analogia com as jornadas de junho de 2013 nas quais um simples movimento de descontentamento com o aumento das passagens foi manipulado pela imprensa e pela extrema direita e tornou-se um movimento popular de massa contra o governo Dilma.

Os ricos da cidade, capitaneados por Thomas Wayne (Aécio Neves, José Serra, FHC), tentam se apropriar da situação, mas já está aflorando no movimento nas ruas um sentimento difuso “contra os ricos”. Mascarados ocupam as ruas (uma certa semelhança com as pessoas que ocuparam as ruas do mundo para protestar utilizando máscaras do Guy Fawkes ou vestido de super-heróis) para protestar contra os ricos. Nesta conjuntura o Coringa é alçado a líder das multidões. O Coringa, Arthur Fleck um zé-ninguém, um louco a social, com sérios distúrbios mentais, que se declara a político (uma certa semelhança com o perfil do Bolsonaro), repentinamente, ver cair em suas mãos um poder com o qual sua personalidade medíocre jamais havia sonhado. Esse poder lhe foi atribuído porque a multidão não tinha demandas políticas bem definidas, uma pauta reivindicativa de mudanças. Ela só estava contra tudo isso que está aí, talkey?

O que se instaura é o caos. Nada contra o caos desde que ele seja a consequência de um processo revolucionário onde a pauta, bem definida, seja colocar abaixo o “antigo regime”. Nas discussões entre Marx e Bakunin durante a Primeira Internacional, este criticava a etapa de transição proposta por Marx na qual os meios de produção seriam colocados sob o controle do Estado. Bakunin argumentava que o Estado é uma instituição e toda instituição se organiza para se fortalecer e sobreviver e não para se diluir. Dizia Bakunin que os meios de produção nas mãos do Estado o fortaleceriam e criariam uma burocracia com plenos poderes. Ao ser perguntado sobre como seria esta passagem do capitalismo para a sociedade comunista, Bakunin respondia que seria uma etapa caótica, mas que do caos adviria a nova sociedade, o mundo novo.

Nesta discussão, então, o caos é uma etapa posterior a uma estratégia política que visa acabar com o capitalismo e instaurar uma sociedade comunista. Esta proposta precisa, este objetivo definido não está presente em Coringa. É o caos pelo caos, é o tipo de revolta da qual a extrema direita se apropria, é a revolta do lumpemproletariado, difusa, confusa, sem objetivos definidos. Isto está longe de ser positivo. 

Não há argumentos em Coringa para se afirmar que trata-se de um filme revolucionário. Quando a esquerda dizia que Tropa de Elite era um filme fascista havia argumentos para isto: a proposta de que a questão social é uma questão de polícia, a violência como elemento de resolução de conflitos interclasses e interraciais. Coringa não propõe uma solução não indica um caminho. É contra os ricos e, poderíamos ampliar esta leitura, contra a globalização, mas ser contra a globalização e os ricos os nazi-fascistas também são e estão aí Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro que expõem isto de maneira explícita. A revolta apresentada em Coringa é do mesmo tipo daquela que permitiu a eleição do Bolsonaro. O perfil do Coringa e do Bolsonaro são bem semelhantes: dois zeninguéns, incompetentes naquilo que faziam que, de uma hora para outra, são alçados ao poder por uma massa descontente com “tudo isso que está aí” e que se arrependerá desse apoio insensato

Bacurau é um filme politicamente mais posicionado do que Coringa. O primeiro propõe uma solução; o segundo não propõe nada.

Vale a pena ver Coringa porque é uma grande obra de arte, mas procurar um sentido político revolucionário nele é um grande equívoco.

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