Washington Araújo avatar

Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

391 artigos

HOME > blog

O Cristo que vemos no cinema diz mais sobre nós do que sobre Ele

O Cristo das telas não nasceu no Oriente Médio, nasceu na cultura ocidental

O Cristo que vemos no cinema diz mais sobre nós do que sobre Ele (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

Quando se fala em representações de Jesus no audiovisual, um nome ressurge com insistência: Robert Powell. O ator britânico marcou época ao interpretar o papel central na minissérie Jesus of Nazareth, dirigida por Franco Zeffirelli. Lançada em 1977, com trilha sonora de Maurice Jarre e custo estimado de cerca de 12 milhões de dólares, a produção rapidamente se consolidou como um clássico global, exibido reiteradamente — sobretudo na Semana Santa. Esse dado inicial não é trivial: ele inaugura um padrão estético e simbólico que moldaria as representações posteriores de Cristo no cinema. Não foi apenas um sucesso de audiência; foi a estabilização de uma imagem.

É a partir desse ponto que se compreende a escolha de linguagem de Zeffirelli e a resposta interpretativa de Powell. A força de sua atuação residia na contenção. Movimentos reduzidos, expressões controladas e um uso rigoroso do olhar criaram uma presença serena, quase hipnótica. Há relatos de que evitava piscar em determinadas cenas, intensificando a sensação de permanência. O diretor compreendeu que aquele Cristo não poderia ser construído pela eloquência do gesto, mas pela disciplina do silêncio. Powell respondeu retirando o excesso: deixou apenas o essencial — um rosto, um olhar, uma presença.

Essa lógica se materializa com clareza nas três sequências centrais do filme, que funcionam como síntese estética e simbólica da interpretação.

No julgamento, Powell constrói um Cristo que resiste pela contenção. Quase imóvel, quase silencioso, transforma o olhar em eixo dramático. Enquanto acusadores ocupam a cena com ruído e gestos, ele reduz tudo ao essencial. O silêncio ganha densidade. Não há submissão, há consciência. Simbolicamente, a hierarquia se inverte: quem julga diminui, quem é julgado permanece inteiro.

No sermão, a transição é sutil, mas decisiva. A atuação abandona a gravidade do tribunal e assume uma luz controlada. Não interpreta um orador, mas alguém que revela. A câmera alterna proximidade e distância, captando a serenidade do rosto e o efeito da palavra. A dicção é limpa, sem excesso. Não há persuasão, há deslocamento. O discurso reorganiza o mundo com suavidade e força.

Já na crucificação, ponto extremo da narrativa, Powell evita o risco do excesso. A dor existe, mas não se transforma em espetáculo. O corpo sofre sem teatralidade. Cada gesto sustenta a tensão entre colapso físico e permanência moral. Não é apenas um homem que padece — é uma civilização que se expõe. O corpo é vencido; a verdade, não.

Se 1977 estabelece um padrão, a década seguinte trataria de tensioná-lo. Em 1988, Martin Scorsese lança The Last Temptation of Christ, protagonizado por Willem Dafoe. Com trilha de Peter Gabriel, orçamento aproximado de 7 milhões de dólares e bilheteria inicial em torno de 8 milhões, o filme desloca o eixo da representação. Aqui, não há serenidade monumental, mas inquietação. O Cristo de Dafoe é humano, dividido, vulnerável. A câmera se aproxima não para contemplar, mas para expor conflito. O escândalo que cercou o filme — protestos, boicotes, acusações de blasfêmia — revela menos sobre a obra e mais sobre o desconforto diante de um Cristo que pensa, hesita e sofre interiormente.

Essa ruptura abre caminho para uma terceira inflexão, já no século XXI. Em 2004, Mel Gibson dirige The Passion of the Christ, com Jim Caviezel no papel principal. Com trilha de John Debney, custo de cerca de 30 milhões de dólares e arrecadação superior a 600 milhões no primeiro ano, o filme redefine novamente a linguagem. Aqui, a dor não é sugerida — é exibida. Caviezel constrói um Cristo físico, dilacerado, onde o corpo se torna o centro da narrativa. 

Se Powell espiritualiza e Dafoe problematiza, Caviezel materializa o sofrimento até o limite do suportável. lembro que na época um amigo

É nesse percurso cronológico — 1977, 1988, 2004 — que se revela algo mais profundo do que diferenças de estilo: cada época projeta em Jesus suas próprias angústias. O intocável, o humano, o martirizado.

Mas há uma constante que atravessa todas essas versões — e que exige ser enfrentada com mais coragem intelectual.

Por que o Jesus do cinema insiste em ser europeu?

O Cristo de Powell, com olhos claros e traços refinados, talvez seja o exemplo mais emblemático dessa construção. Caviezel e Dafoe, ainda que com propostas distintas, permanecem dentro de um padrão ocidentalizado. Essa escolha estética, repetida por décadas, distancia-se de um dado histórico elementar: Jesus foi um homem judeu do século I, no Oriente Médio. O cinema sabe disso — mas escolhe ignorar.

Por que a sociedade naturaliza o embranquecimento de Cristo enquanto se indigna com outros casos? No Brasil, Machado de Assis teve sua imagem embranquecida por décadas; no cenário global, Michael Jackson tornou-se símbolo involuntário dessa discussão. Ambos geraram debates intensos, revisões críticas e desconforto público. Já Jesus, talvez a figura mais representada da história ocidental, segue majoritariamente branco nas telas e na pintura, sem provocar reação proporcional. Há uma longa historiografia sobre isso — e ainda assim ignorada. Não é desconhecimento. É escolha cultural reiterada.

Essa inquietação não é recente para mim. Na adolescência, ouvi de Maria Eugênia Montenegro, mineira de Lavras, escritora, poeta e pintora, uma frase que nunca se dissolveu: “Por que todos os anjos são brancos, loiros? Eu acredito em anjos negros, lindos anjos negros.” Ela falava de pintura, mas poderia estar falando de cinema. Falava, na verdade, de representação — e de quem tem o direito de existir nela.

Talvez por isso minha relação com esses filmes tenha sempre sido atravessada por um ritual e uma dúvida. Cresci em uma família profundamente católica, onde a Semana Santa seguia três gestos essenciais: missa, abstinência de carne vermelha e o filme da vez sobre a paixão de Cristo. 

Na época em que no Brasil só se falava do filme de Mel Gibson sobre Jesus, ouvi um amigo dizer, quase casualmente, mas triste: “vou ao cinema ver Jesus apanhar”. Curiosamente o nome desse amigo era Moisés.

Era um rito doméstico e cultural. 

E havia ali uma ironia inevitável: talvez seja o único gênero cinematográfico em que ninguém dá spoiler. Todos sabem o final. Ainda assim, todos assistem. Porque o essencial nunca foi o desfecho — mas a forma.

E essa forma muda com o tempo — assim como os atores que a encarnam.

Hoje, Willem Dafoe, aos 70 anos, segue ativo, respeitado, transitando entre cinema autoral e grandes produções. Jim Caviezel, aos 57 anos, mantém presença mais discreta no cinema, mas ganhou nova visibilidade em produções televisivas e projetos de perfil específico, sustentado por uma base fiel de público. E Robert Powell, já octogenário, permanece como referência silenciosa, dedicado à narração e a trabalhos pontuais.

O tempo não dissolveu essas imagens. Ao contrário, consolidou-as.

Mas talvez a pergunta mais honesta não seja qual foi o melhor Cristo do cinema.

Talvez seja outra — mais incômoda, mais necessária: por que ainda escolhemos ver, nas telas, um rosto que sabemos que não foi o dele.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.