O custo da governabilidade
Lula precisa de muito jogo de cintura para administrar as pressões, sem pôr a sua agenda em risco e frustrar os eleitores
Houve uma certa reação dos eleitores de Lula, com a entrada de partidos de centro-direita, como os Republicanos, os Progressistas e União Brasil, na base do governo, na Câmara dos Deputados. Mas uma constatação se impõe - Lula não tem maioria no Poder Legislativo e isso causa grandes problemas para sua governabilidade.
O presidencialismo expõe a solidão do poder e a inescapável necessidade de formar maiorias parlamentares para aprovação das pautas legislativas do Poder Executivo, sob pena da solidão virar ingovernabilidade. Reina, mas não governa. Há um consenso geral de que a atual legislatura é uma das mais conservadoras dos últimos tempos. Os partidos são um ajuntado de dissidentes e aproveitadores sem nenhum espírito republicano. Vivem de olho no que podem arrancar do governo em termos de emendas, cargos e nomeações.
Parte substancial do Orçamento da União é para garantir esse apoio, que custa caro e é precário ou provisório. Diante da chantagem dos partidos, o presidente se vê diante do dilema de trair a sua agenda ou não governar, com votações contrárias aos seus projetos. A aprovação do Arcabouço Fiscal e da Reforma Tributária custou bilhões em forma de emendas parlamentares e ministérios.
Pode -se alegar que, dessa forma, a gestão ficou desfigurada e não valeu a pena ganhar as eleições. No entanto,o governo resiste em entregar o núcleo duro de sua gestão (Saúde, Educação, Fazenda, Planejamento, Meio Ambiente). Porque aí sim, estaria comprometida de vez a gestão. O risco é que a cada votação importante no Congresso, a sanha avassaladora por benefícios ameace a entrega daquele núcleo duro. Instalaria-se um cabo de guerra, a ponto de se partir a qualquer hora, E isso inviabilizaria a continuidade do governo.
Tem gente que torce para que isso aconteça e crie condições para uma candidatura de direita, nas próximas eleições presidenciais. Um ambiente de crise e paralisia administrativa seriam um caldo de cultura ideal para um candidato como, por exemplo,Tarcísio de Freitas, que quer se apresentar como uma direita moderada, diferente do bolsonarismo radical.
De todo jeito, Lula precisa de muito jogo de cintura para administrar as pressões, sem pôr a sua agenda em risco e frustrar os eleitores. Não há porque estranhar essas espinhosas negociações partidárias. São contingências do nosso mal chamado presidencialismo de coalizão e a inevitável convivência com aquele que pensa diferente de nós.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

