O “custo” da tentativa de impeachment e as saídas políticas

Não há como computar o custo que tem um golpe na democracia consagrada na Constituição de 1988. Será um custo histórico, uma cicatriz que se manterá aberta por décadas na vida política e social do país, se for consumado o impeachment

Brasília - DF, 20/06/2016. Presidente em Exercício Michel Temer durante reunião com governadores das unidades federativas do Brasil. Foto: Marcos Corrêa/PR
Brasília - DF, 20/06/2016. Presidente em Exercício Michel Temer durante reunião com governadores das unidades federativas do Brasil. Foto: Marcos Corrêa/PR (Foto: Walter Sorrentino)

Não há como computar o custo que tem um golpe na democracia consagrada na Constituição de 1988. Será um custo histórico, uma cicatriz que se manterá aberta por décadas na vida política e social do país, se for consumado o impeachment.

Mas vejamos o “custo” da solução de Temer. Um governo alcançado fora da legalidade e sem legitimidade, para deixar de ser interino precisa antes de tudo aprovar o impeachment. Depois, serão outros quinhentos.

Para aprovar o impeachment, faz-se um governo “congressual”, ou seja, paga-se o botim ao malfadado centrão. Enquanto isso, a política econômica fica blindada, à margem da crise política, esta que era a segunda perna de união entre os golpistas, sendo a primeira o compromisso de derrubar Dilma.

De imediato, uma conta é simples. Aprovou-se um déficit fiscal de 170 bilhões. E, propôs-se um teto para gastos do Estado, mais uma regra que limita seu crescimento, por vinte pretendidos anos! Isso feito por um governo interino é uma aventura irresponsável com a nação.

A mídia plutocrática saudou como “transparência” essa irresponsabilidade de engrossar o défice para comprar o essencial: Temer deixar de ser interino. Sabia-se que o consórcio golpista daria uma moratória ao governo, uma espécie de lua de mel, só não era evidente o tamanho do cinismo.

Com esse défice, deram bondosamente perto de 60 bilhões para aumento salarial dos servidores públicos, em especial do Judiciário (!). Depois, um acordo com governadores, ao custo de 50 bilhões. Mais uma pequena ajuda de emergência de 3 bi ao Rio de Janeiro em estado de calamidade. Sem falar na autorização das emendas parlamentares, mais alguns bilhões. Tudo parte da regra, mas contradizem o rigor fiscal.

Quer dizer, são 170 bilhões de imediato, por assim dizer, para comprar a aprovação do impeachment. Estava precificado, como se diz no jargão estúpido do senhor mercado.

Afinal, derrubar Dilma e tentar desmontar um projeto de quatorze anos de avanços de um projeto democrático e de interesse nacional e popular, não tem preço. Para a plutocracia, vale, à qualquer preço mudar a Constituição quanto aos deveres do Estado e direitos do cidadão. Meirelles ao declarar “Ou mudamos a Constituição, ou não resolvemos a dívida”, propaga a malfadada falácia de que o Estado não cabe no PIB.

Como disse, depois serão outros quinhentos. Aprovado o impeachment, vem na esteira a reforma da Previdência – não uma reforma em defesa da Previdência, mas contra os trabalhadores. Mais: no fim do arco íris há um pote de ouro. Nele estão as desnacionalizações e privatizações, o fim do regime de partilha e a entrega do pré-sal e muito mais bondades contra o interesse nacional – está em aprovação no Congresso Nacional a autorização para aéreas com 100% de capital estrangeiro, imaginem os interesses envolvidos! Aliás, esta é a parte do botim disputada a tacape entre tucanos e peemedebistas.

Isso tudo serve, mais uma vez, para compreender algumas coisas. Primeiro, não se enganar quanto à real correlação de forças que abriu caminho para pôr o país na marcha da regressão nacional e de direitos sociais de modo violento. É um quadro que impõe ao campo democrático, progressista e popular uma situação de defensiva e resistência, mas acumulando forças na luta se for hábil, firme e ampla.

Segundo, não desprezar a crueldade e sagacidade das forças do governo interino para fazer o “serviço sujo” que limpa o terreno onde se semeará a regressão. As mesmas características que estarão presentes quando elas se contrapuserem entre si, motivados pelas inúmeras contradições do consórcio golpista. Vão tirar Cunha da cena do crime... Podem mesmo chegar a substituir Temer, se for necessário, depois da “prestação de serviços” contratada, mediante, por exemplo, eleições indiretas.

Terceiro, mais que tudo, dar à luta de resistência ao golpe e ao governo ilegal e ilegítimo com seu programa ultraliberal uma perspectiva política, propor saídas políticas que se sobreponham a qualquer pacto das elites. Sem isso, não há desfecho para a crise, ela se prolonga até 2018. Deixar o país sangrar até 2018, como se quanto pior para o país melhor para a oposição popular, seria uma irresponsabilidade nem sequer discutível – explicitaria a falta de opção de nossas forças. O mais fundamental será a esquerda política e social, as forças democráticas e progressistas, protagonizarem a luta por essa perspectiva, para reconquistar a confiança da real maioria do povo trabalhador.

Há aceso debate sobre saídas possíveis na esquerda, nas forças progressistas e na sociedade. Dilma mostrou ter apreço ao aceitar uma das alternativas que vai se fazendo de crescente apelo: antecipar eleições diretas se o povo assim o decidir em um plebiscito convocado para esse fim. O trabalho de consenso em torno disso vai lavrando e pode representar a bandeira que vai mais à mente e coração das massas, à compreensão da maioria do povo: Fora Temer e remeter as saídas que deem desfecho à crise política a um mandato presidencial confirmado pela força do voto popular, para que não fique refém de um sistema político que já passou, há muito , do ponto de fadiga.

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