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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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O Custo do agora

Ganhos de curto prazo continuam sendo priorizados enquanto os efeitos acumulados recaem sobre ecossistemas, economias e populações inteiras

O Custo do agora (Foto: Freepik)

A Terra não grita — suporta. E é exatamente esse silêncio que me parece mais perturbador, porque ele não significa ausência de violência, mas sua normalização. O que está em curso não é descuido, não é distração coletiva, não é ignorância. 

Vamos mandar a real: o que existe hoje uma forma contínua, organizada e legitimada de agressão: o bullying planetário.

Quando penso no significado de bullying, não o reduzo a um episódio escolar ou a um conflito interpessoal. Trata-se de uma prática sistemática de intimidação, humilhação e imposição, quase sempre sustentada por uma assimetria brutal de poder. Não é um gesto isolado — é repetição, método, persistência. A palavra vem do inglês bully, aquele que oprime e subjuga. E o que mais me inquieta é perceber que esse padrão deixou de ser apenas humano. Ele foi ampliado, institucionalizado e agora se exerce contra aquilo que nos sustenta.

Ao olhar para o planeta, não vejo metáfora — vejo evidência. 

A Terra, sem representação política, sem direito de resposta, sem qualquer capacidade de veto, é submetida a decisões que ignoram seus limites físicos e desrespeitam seus ciclos mais elementares. 

Não há instância de apelação. Não há defesa possível. Apenas consequências que se acumulam e já começam a nos alcançar.

Vejo chefes de Estado, líderes econômicos e grandes corporações autorizando desmatamento em escala industrial, expandindo mineração predatória e prolongando a dependência de petróleo e gás como se não houvesse alternativa. Empresas como ExxonMobil, Shell, Chevron e BP seguem entre as maiores responsáveis por emissões associadas a combustíveis fósseis. E tenha Monsanto — e suas cúmplices predatórias — que tratarei em outro texto.

Não consigo mais aceitar a leitura confortável de que se trata de erro. É escolha. Escolhe-se o ganho imediato — lucros trimestrais, expansão de reservas, valorização acionária — mesmo quando os custos futuros estão amplamente documentados: eventos climáticos extremos mais frequentes, perdas agrícolas em larga escala, bilhões em prejuízos por desastres naturais e deslocamentos humanos forçados.

Os oceanos, por sua vez, foram convertidos em depósitos globais de resíduos. Plásticos, metais pesados, fertilizantes e esgoto não tratado são despejados de forma contínua. Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente indicam que mais de 11 milhões de toneladas de plástico entram nos mares todos os anos. Não é apenas poluição visível — são microplásticos já detectados no sangue humano e em tecidos animais, um sinal inequívoco de que o ciclo foi rompido.

A atmosfera também foi capturada por essa lógica.

Tornou-se um repositório invisível de dióxido de carbono, metano e óxidos de nitrogênio liberados por cadeias produtivas inteiras. Cada tonelada emitida não desaparece — acumula, intensifica, altera. São decisões repetidas, conscientes e cumulativas.

E a Terra responde. 

Não com discursos, mas com números que já não permitem interpretação indulgente. A temperatura média global ultrapassou cerca de 1,2°C acima dos níveis pré-industriais, conforme o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, criado em 1988, vinculado à ONU e à Organização Meteorológica Mundial, financiado por governos e estruturado por comunidades científicas internacionais). Esse aumento já se traduz em ondas de calor mais longas, incêndios florestais mais intensos e padrões climáticos instáveis.

O nível médio dos oceanos subiu aproximadamente 20 centímetros desde o início do século XX. Não é detalhe técnico — é avanço real sobre cidades costeiras, é salinização de aquíferos, é deslocamento silencioso de populações inteiras. 

Ao mesmo tempo, relatórios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, fundada em 1948, financiada por governos, fundações e organizações multilaterais, reunindo cientistas e instituições globais) registram mais de 40 mil espécies ameaçadas de extinção.

Entre elas, o rinoceronte-de-java, com cerca de 70 indivíduos confinados a uma única área protegida na Indonésia; o leopardo-de-amur, reduzido a pouco mais de 90 exemplares no extremo oriente russo; a vaquita, com menos de 20 indivíduos no Golfo da Califórnia; o orangotango-de-sumatra, com aproximadamente 14 mil indivíduos sob pressão constante; a tartaruga-de-pente, cuja população caiu mais de 80% em algumas regiões; e o gorila-da-montanha, com cerca de mil indivíduos sobrevivendo em áreas fragmentadas da África Central. 

No Brasil e na América do Sul, o mico-leão-dourado já chegou a menos de 200 indivíduos e hoje luta para se manter com cerca de 2.500; a ariranha, dizimada pela caça e pela contaminação dos rios, sobrevive em populações isoladas na Amazônia e no Pantanal. 

Não são números — são sinais de colapso. quando um ser humano colapso todos ao seu redor sentem o choque imediatamente: alguém amado está prestes a desaparecer. 

Mas por quê quando o planeta já vem colapso ando há tanto tempo parece que não nos causa tanta aflição, tanta agonia, tanta angústia?

Há ainda um elemento que amplia a gravidade desse quadro e que não pode ser ignorado: o chamado efeito borboleta, formulado na década de 1960 pelo meteorologista Edward Lorenz. A ideia, central na teoria do caos, demonstra que pequenas variações iniciais podem desencadear consequências amplas e imprevisíveis. 

Está mais do que comprovado que um gesto aparentemente mínimo — uma área desmatada, uma emissão adicional, um rio contaminado — não permanece local. Propaga-se, interage, amplifica-se. Tudo está conectado. Será que preciso desenhar?

Nesse ponto, lembro de Walt Whitman, quando escreve: “Entrego-me à terra para brotar da relva que amo” e também: “Uma folha de grama não é menos do que a jornada das estrelas.” Há nesses versos uma percepção radical: não estamos separados da Terra — somos continuidade dela. E, no entanto, agimos como se estivéssemos acima.

Cada vez mais estou convencido de que tudo aquilo que infelicita a parte faz sofrer o todo. E, ainda assim, seguimos insistindo em um comportamento que beira o absurdo. Há algo de profundamente irracional — e, ao mesmo tempo, tragicamente lógico dentro de um modelo que naturalizou a exploração — no fato de causarmos dor, destruição contínua ao único lugar que sustenta mais de oito bilhões de vidas humanas. E isto apenas para início de conversa.

É aqui que formamos nossas famílias, desenvolvemos nossos ideais, cultivamos alimentos, erguemos cidades e projetamos futuros. É daqui que retiramos tudo o que nos mantém vivos. E, no entanto, é também aqui que exercemos uma violência persistente, quase automática, como se a Terra fosse um ente descartável, um território sem dignidade, um espaço a ser exaurido até o limite.

O que mais me inquieta não é apenas a dimensão da crise, mas a clareza com que ela já se apresenta. 

Não faltam dados. Não faltam alertas. O que falta é decência, aquilo que sempre deveria responder pelo adjetivo humano. O que falta é decisão. E em todas as camadas do processo decisório das sociedades.

Bullying não termina quando a vítima colapsa. Termina quando o agressor interrompe o ciclo. 

E o que vejo, com desconforto crescente, já não me permite conforto algum: não estamos apenas testando limites — podemos já tê-los ultrapassado. Como ignorar a frequência crescente de terremotos devastadores, tsunamis que redesenham litorais inteiros, a retomada de testes e tensões nucleares, ou a sucessão de verões sufocantes e invernos extremos que colocam em risco a própria sobrevivência humana? 

Até que ponto esses eventos ainda podem ser tratados como episódios isolados — e não como sinais de um sistema pressionado além do suportável? 

E se o limite não estiver à frente, mas atrás de nós, já rompido, já silenciosamente consumado?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.