O decano Celso de Melo e a prisão de Lula

O que se pode extrair desse esgoto, além do odor fétido, é que os três poderes da República, estiveram e estão profundamente engajados em evitar a todo custo, que o torneiro mecânico, nascido na base da pirâmide, com toda sua popularidade, retome as rédeas do país

(Foto: Nelson Jr./SCO/STF)

Celso de Melo galgou os batentes do Supremo pegado na mão de Saulo Ramos, então ministro da Justiça do governo Sarney. Deu-se que, lá na frente, Sarney precisou se candidatar a Senador e o PMDB do Maranhão fechou as portas para ele. O jeito foi tentar uma vaga pelo Amapá, já que ele dispunha da legislação eleitoral toda a seu favor.

Questionado juridicamente, o maranhense teve que recorrer à ultima instância para garantir sua candidatura Celso de Melo no entanto, durante o julgamento  no Supremo  votou contra, ao que Saulo Ramos, como seu padrinho, foi verificar o que houve. 

No telefone, seguiu-se esse diálogo, registrado no livro "Código da Vida”, do próprio Saulo Ramos
— Doutor Saulo, o senhor deve ter estranhado o meu voto no caso do Presidente.
— Claro! O que deu em você?
— É que a Folha de S.Paulo, na véspera da votação, noticiou a afirmação de que o Presidente Sarney tinha os votos certos dos ministros que enumerou e citou meu nome como um deles. Quando chegou minha vez de votar, o Presidente já estava vitorioso pelo número de votos a seu favor. Não precisava mais do meu. Votei contra para desmentir a Folha de S. Paulo. Mas fique tranqüilo. Se meu voto fosse decisivo, eu teria votado a favor do Presidente.
Não acreditei no que estava ouvindo. Recusei-me a engolir e perguntei:
— Espere um pouco. Deixe-me ver se compreendi bem. Você votou contra o Sarney porque a Folha de S. Paulo noticiou que você votaria a favor?
— Sim.
— E se o Sarney já não houvesse ganhado, quando chegou sua vez de votar, você, nesse caso, votaria a favor dele?
— Exatamente. O senhor entendeu?
— Entendi. Entendi que você é um juiz de merda! Bati o telefone e nunca mais falei com ele.”

Terça-Feira  passada, o decano acrescentou mais um ponto nesse seu currículo, quando decidiu a votação, que negou a liberdade de Lula. O Brasil e o mundo inteiro gritando indignados com a podridão exalada pela Lava jato e o decano justificou seu voto, alegando não existir certeza nas violentas agressões ao estado de direito, praticadas pelo juiz Sérgio Moro e seus comandados da Operação. Nem sequer lembrou-se de que o juiz foi ser ministro do adversário do ex-presidente e com a promessa de  virar seu colega  na Suprema Corte. 

Num regime ditatorial, essas práticas geram um certo conformismo, porque estão inseridas dentro do próprio contexto do regime. Mas no momento atual, em que somos levados a acreditar que respiramos democracia, é absolutamente impossível um cidadão de bem, com algum grau de consciência democrática, uma fagulha de senso de justiça, ficar impassível diante desse escárnio. Do ponto de vista neuro-gastro-sentimental, náuseas, indignação, revolta e engulhos são os sentimentos mais leves que se pode observar nesses dias. Sentimentos, já algum tempo, sendo alimentados por práticas fascistoides de um governo extremista, sem rumo, nem  prumo e com o devido respaldo de todo esquema judiciário

Agosto, no retorno das atividade do STF, um novo julgamento e mais uma nova expectativa dos cidadãos desse imenso Brasil, que ainda não perderam a fé num país realmente democrático e que ainda alimentam a velha ideia de que a esperança é a última que morre.

Falta combinar com os ministros daquela Casa, que já deram toda a força para o juiz famoso seguir sem cabrestos, violentando todos os princípios do código jurídico e agredindo a Constituição nos seus quesitos mais elementares

Na verdade, o que se pode extrair desse esgoto, além do odor fétido, é que os três poderes da República, estiveram e estão profundamente engajados em evitar a todo custo, que o torneiro mecânico, nascido na base da pirâmide, com toda sua popularidade, retome  as rédeas do país. E tudo isso, monitorado pelos acordes emanados pelos senhores, que habitam a cobertura dessa mesma pirâmide.

Coisas da nossa América Latina!


 

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