O desmonte da TV Cultura

Na contramão do desenvolvimento de uma TV pública nos moldes britânicos, a TV Cultura, ao longo dos últimos anos em que o estado de São Paulo se mantém sob o comando do PSDB, tem pecado bastante em vários aspectos

Na contramão do desenvolvimento de uma TV pública nos moldes britânicos, a TV Cultura, ao longo dos últimos anos em que o estado de São Paulo se mantém sob o comando do PSDB, tem pecado bastante em vários aspectos
Na contramão do desenvolvimento de uma TV pública nos moldes britânicos, a TV Cultura, ao longo dos últimos anos em que o estado de São Paulo se mantém sob o comando do PSDB, tem pecado bastante em vários aspectos (Foto: Décio Junior)
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Durante essa semana, um vídeo sobre a TV Cultura de São Paulo tem circulado pela internet com um forte apelo de que aquela emissora, considerada pública, estaria no fim. O vídeo fala de programas históricos que marcaram época com conteúdo de alta qualidade, desde os infantis ao jornalismo, que inovou nos anos de 1990 com o uso de vídeo-repórter e com o apresentador Cunha Junior quebrando o paradigma do teleprompter, muito antes de Tiago Leifert usar do mesmo artifício na apresentação do Globo Esporte em São Paulo. Mas o que de fato está acontecendo com a TV Cultura e por que ela está acabando?

Para que uma emissora seja considerada pública é fundamental a sua constituição a partir de uma organização de direito privado, que zele por sua autonomia perante o Estado. A Fundação Padre Anchieta, criada em 1969, é o órgão mantenedor da TV Cultura, que deveria exercer esse papel com autonomia intelectual, política e administrativa.

Contudo, na contramão do desenvolvimento de uma TV pública nos moldes britânicos, que tem a BBC como maior referência na constituição de emissora pública, a TV Cultura, ao longo dos últimos anos em que o estado de São Paulo se mantém sob o comando do PSDB, tem pecado bastante em vários aspectos. Num deles, no processo de escolha dos membros do seu Conselho Gestor, que fica a cargo do poder Executivo do Estado. Além disso, cabe sempre ao "governador do dia", junto com o Conselho Gestor, nomear o presidente da emissora que, na grande maioria das vezes, mantém estreitas relações de interesses políticos com o Estado.

Segundo o estatuto da Fundação Pe. Anchieta, nove membros do Conselho estão ligados diretamente a uma secretaria estadual ou a alguma instituição governamental, como é o caso dos reitores das três universidades paulistas: USP, Unesp e Unicamp. Os demais membros estão ligados a conselhos estaduais, fundações e associações do governo.

Portanto, fica claro que a decadência da TV Cultura está diretamente relacionada à gestão de interesses do PSDB paulista. Enquanto em 2007 o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, coordenava a realização do primeiro Fórum Nacional de TVs Públicas em Brasília, de onde se editou a "Carta de Brasília – Manifesto pela TV pública independente e democrática", que norteou a criação da TV Brasil, o governo de São Paulo começava, de forma descarada, a transformar a TV Cultura em um aparelho político.

Primeiro suspendeu, do dia pra noite e sem nenhuma explicação profissional, o contrato com o jornalista Luiz Nassif, que era tido como um dos mais respeitados colunistas da emissora. Em 2010, após questionar o então candidato à presidência da república, José Serra (PSDB), sobre a farra dos pedágios nas estradas paulistas, foi a vez do então apresentador do programa Roda Viva, Heródoto Barbeiro, sentir o peso da interferência política. O espaço a Serra e a condução de suas entrevistas eram asseguradas pelo economista João Sayad, que assumira à presidência numa derrubada de seu antecessor, o jornalista Paulo Markun. Sayad provou do mesmo veneno ao ser substituído por Marco Mendonça, numa condução do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

A programação, que tinha nos infantis um importante produto de geração de recursos, começou a ser intercalada pelas publicidades comerciais, o que, queira ou não, acaba influenciando a formação da grade e do conteúdo da emissora. O Roda Viva transformou-se num carrossel de personagens do PSDB e a bancada do Jornal da Cultura em um palanque para o professor Marco Villa, um dos arautos da moralidade política em defesa dos tucanos.

Portanto, o que está acontecendo é que a TV Cultura deixou a muito tempo de ser uma emissora pública. Sem autonomia financeira, sem uma regulamentação legal e com insolente intervenção dos tucanos paulistas em sua gestão, a TV Cultura irá definhar cada vez mais e servirá apenas para satisfazer os interesses políticos do governo de São Paulo.

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