Eduardo Matysiak avatar

Eduardo Matysiak

Jornalista e fotógrafo paranaense, premiado no Brasília Photo Show e homenageado com menção honrosa pela Alep por sua trajetória no fotojornalismo. Colaborador de veículos nacionais e internacionais, escreve artigos que cruzam a atualidade com a análise cinematográfica, unindo cultura e política sob um olhar visual único.

3 artigos

HOME > blog

O despertar do instinto: onde o meu quintal redime o caos

No meu quintal, cada ave luta por sua parte com uma voracidade que afirma o agora acima de qualquer amanhã incerto

O despertar do instinto: onde o meu quintal redime o caos (Foto: Divulgação)

O sol de hoje bate no meu terreiro com uma clareza que o filme A Última Noite jamais conseguiria capturar em sua fotografia pálida e aristocrática de fim de mundo. Enquanto o longa de Camille Griffin se sufoca tentando higienizar o apocalipse com vinhos caros e diálogos polidos, o meu quintal transborda uma vitalidade bruta. Aqui, a linhagem espiritual do Galo Coc e da galinha Ocarina ainda reverbera no ciscado das aves atuais; uma conexão que dá o sentido real ao meu chão. Coc e Ocarina, meus companheiros de infância, foram os primeiros a me ensinar: a vida não espera permissão para acontecer.

Ao ver minhas galinhas hoje, percebo que elas carregam essa mesma chama ancestral que ignora a finitude humana e as neuroses do mundo moderno. Nesse cenário de puro instinto, surge Carlota, minha buldogue francês, que entra em êxtase no exato momento em que vou alimentar o bando. Para ela, aquele pedaço de vegetal encarna o que Lacan chamaria de gozo absoluto — o desejo que não conhece a barreira da civilidade. Quando o repolho toca o solo, as galinhas lutam por cada migalha em uma disputa frenética que rompe qualquer tentativa de ordem aristocrática.

Elas são a antítese perfeita daquela ceia de Natal terminal do filme, onde os personagens se entregam a um suicídio coletivo gourmetizado. No meu quintal, cada ave luta por sua parte com uma voracidade que afirma o agora acima de qualquer amanhã incerto. Se Jung estivesse sentado comigo observando essa cena, ele veria nessa briga a manifestação da Sombra que não se esconde, mas que se integra à luz do dia como força motriz necessária para a sobrevivência. É a confiança primitiva que os humanos do filme perderam ao se desconectarem da terra.

A política do privilégio no filme se disfarça de civilidade para esconder um egoísmo terminal. A cena em que a mãe tenta vender a pílula de morte aos netos como um "ato de responsabilidade" é a falência final da empatia adulta diante da pureza do questionamento infantil. No filme, os adultos são movidos por um medo que os paralisa, preferindo o extermínio indolor à luta incerta pela vida.

Já no meu quintal, Carlota demonstra uma ética instintiva: respeita as aves e o Bento, o nosso gato bebê, compreendendo na sua natureza bruta que existe um limite sagrado entre o desejo pelo bocado e a integridade do próximo. Essa conexão cria uma antologia de convivência que humilha a diplomacia hipócrita daquela ceia cinematográfica. O Bento, sendo apenas um gato bebê, traz a renovação. Enquanto ele descobre o mundo, os personagens do filme estão ocupados demais preparando um necrotério de luxo.

A sobrevivência de Art, o filho mais novo que acorda sozinho após todos tomarem a pílula, é a prova de que a vida tem uma teimosia que o pessimismo não mensura. Essa teimosia ecoa aqui, cada vez que colho um ovo com a Carlota ou vejo o Bento se aventurar entre o bando, ignorando a profecia da última noite oficial. Cada ovo encontrado entre o barro e o capim é o nascimento constante — uma herança que começou com o Coc e a Ocarina e que se renova agora sob o meu olhar.

Essa energia transforma o meu pequeno pedaço de chão no centro de um universo onde o fim do mundo é apenas uma nota de rodapé diante da urgência de alimentar o bicho. Enquanto o ser humano se perde em narrativas de culpa e arrependimento, a Carlota que surta na hora da comida e as galinhas que lutam por cada migalha estão ocupadas demais vivendo para se preocupar com o roteiro da extinção.

É nesse caos barulhento, honesto e visceral que encontro o meu alvorecer particular. A sabedoria do terreiro é a única que realmente importa: a vida não pede permissão para continuar sendo soberana. Mantenho-me firme, celebrando a memória eterna do Galo Coc e da galinha Ocarina em cada novo salto do pequeno Bento diante daquele pedaço de vida que cai ao solo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.