O Deus escondido

A sociedade indígena se move dentro de um sistema cultural, com língua, costumes, danças, mitos, enfeites, instrumentos musicais e ritos de iniciação próprios. A sociedade civilizada é paternalista e transforma as pessoas em permanentes instrumentos. Daí a necessidade de corretivos como a FUNAI, INPS, para ocultar o pecado institucionalizado

Valores indigenas Funai
Valores indigenas Funai (Foto: Mario Vilela | Funai)
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Apesar de todas as interferências os índios nos oferecem ainda todo um sistema de valores: A comunidade. O trabalho comunitário. A solidariedade. A partilha...A Amazônia é ainda paraíso dos mais preciosos valores humanos, apesar da vasta depredação em curso desde 1540 primeira invasão europeia.

Tive o privilégio de passar a minha vida em total sintonia com mais de uma centena de povos indígenas, do Brasil e da América Latina e de conviver durante quase dois anos, encarnado com minha família na vida do Povo Kiña ou Waimiri-Atroari, onde além de conseguir sentir de perto o sofrimento desse povo durante a invasão do Exército Brasileiro, com a BR-174 e suas armas modernas de fogo, tive oportunidade de conhecer der perto muitos valores vividos por esse povo excluído da sociedade brasileira por meio de muitos preconceitos e mentiras.

A profunda vivência religiosa desse povo é comunitária. Os Kiña ou Waimiri-Atroari, conservam a sua religião que impregna toda a sua vida. Eles celebram os ritos de passagem, da caça, da pesca e das colheitas. Celebram a Deus com muita alegria, externada em cantos, danças e enfeites. Celebram o heroísmo, as doenças e a morte. Todos participam ativamente e têm a sua função bem definida nas celebrações, nas quais usam apenas a língua nativa: kiñayara = a língua da nossa gente. Geralmente tem até uma linguagem própria para se expressar nos seus rituais. Toda a festa é uma expressão da comunidade, que envolve orações, alegria, lazer e abundancia de alimentação. As expressões religiosas acompanham o ciclo da vida.

A religiosidade embebe toda a vida da aldeia e as suas atividades sociais e de subsistência. Celebram a vida em seus ritos de passagem e no culto aos mortos. Celebram o Deus da vida com toda a alma e alegria externada. Todos participam ativamente e com sua função definida. Toda a festa é uma expressão da comunidade que acompanha o ritmo da vida e da natureza. Eles não conhecem a divisão sagrado-profano, natural-sobrenatural, corpo-alma. Tudo é vida, tudo é natural. Eles vivem as bem-aventuranças, em harmonia com o mundo do além. Suas expressões religiosas são espontâneas e expressam o momento e o vivem intensamente: na alegria, na dor e na morte...

O sentido de sua vida está na sua comunidade. É no encontro da comunidade que o sentido da vida emerge. Ali rememoram e reanimam a história do povo. E uma pergunta que sempre vem à tona: “O que é bom e o que não presta para nós?” Os índios mantem um ambiente propicio para a memória. Ela crescer as pessoas humanamente. Amam estar juntos em reuniões, celebrações. Convivem. Provam que a comunidade humana é possível, que a terra pertence aos homens, é coletiva. Que não é do boi, da soja... Que não deve ser propriedade privada, de alguns. É isto que cria a entre-ajuda.

Tem tudo em comum: a segurança, a solidariedade, a terra... O índio não é calculista. Não prevê individualmente, mas em comunidade. Sente prazer em sacrificar-se para a comunidade. Um dia escutei esta frase: “Entre nós índios quem tem mais dá ao que tem menos”. O que vem da terra é de todos. Não conhecem a palavra roubo.

O seu sistema de valores questiona o nosso que visa meramente produção.

Amam as reuniões. Todas as tardes se encontram. Tomam um banho comunitário. Depois, enquanto as mulheres tomam conta da caça, os homens conversam e confeccionam flechas ou brincam juntos. 

Têm muito amor à família. Depositam a sua segurança na terra, na família e na comunidade. Daí o empenho com que defendem o seu chão. Orgulham-se de si e do seu povo. É ao mesmo tempo altivo e simples. Não há marginalizados entre eles.

A família é organizada em função da comunidade, do povo. Isto se choca com a organização da nossa sociedade individualizada, classista, exploradora. A sociedade indígena forma para a humildade e a compreensão para com as outras pessoas e povos. Não tem estruturas rígidas, leis escritas. A sua vida obedece a um ritmo que permite a originalidade das pessoas, o equilíbrio social. Respeita a autoridade dos chefes e dos velhos como conselheiros. Mas a autoridade não é dominadora e nem remuneradora, nem repressora e nem centralizadora de poder. A autoridade indígena é ´participativa, é serviço à união, ao interesse comunitário.

Os pais respeitam a liberdade dos filhos. 

O nome do povo e da pessoa é importante. Mostra que se sentem gente, povo. A língua é fator de união e de identidade do povo.

São simples e altivos, manifestando um autêntico orgulho de suas pessoas e do povo. “Kiña mudî yapreme = a nossa gente é dona desta casa”. Foi a primeira frase que o mais velho da aldeia Yawara, - sul de Roraima - desenhou e grafou em letras num papel. A língua Kiñayara é fator de identidade e de união. Prezam muito o nome do povo Kiña = a nossa gente! A altivez é manifestada em face do estrangeiro e não na convivência Kiña. Entre eles tambem não existem marginalizados.

Os povos indígenas são agradecidos e generosos. Não é verdadeira a imagem de esmoleres na qual a Funai e empresas exploradoras de suas terras os transformaram, chegando até a interpretar alguns massacres contra os civilizados como sendo motivados pela falta de presentes. Agradecem à sua maneira. As nossas crianças jamais esquecerão os dias passados na aldeia Yawará. Não só pelas alegrias e divertimentos, mas também pela generosidade que sempre encontrava alguma fruta, carne moqueada ou beiju para lhes oferecer e alegrá-los, apesar da pobreza imposta às aldeias pela interferência da BR-174, da Funai, da Paranapanema e da Eletronorte.

Eles mantêm um sistema de educação que guarda a memória do povo, transmitida através de lendas e da história que os Kiñá, ou Waimiri-Atroari, denominam de Kwa ou Kiñayka = a história da nossa gente. Não surram as crianças, mas as respeitam muito. São pacientes, solidários e delicados. Manifestam a seu modo a afeição.

A liberdade é a linha-força de sua educação. Tem consciência do que fazem. Não fazem o que não sabem explicar. A educação começa nos mais tenros anos com liberdade e responsabilidade. Por isso amadurecem depressa para a vida. Educam através da vida: ambiente, lendas e celebrações comunitárias. Daí o seu respeito natural pelos velhos e pelas crianças. A sua tradição é transmitida via oral através das lendas e da sua história. Para isso treinam a memória. As crianças0 são educadas para a docilidade e para ouvir e respeitar as lições e orientações do mais velhos.

Penetram a natureza e a educam em benefício da comunidade. Não a destroem. E a comunidade os ensina a serem verazes, a cumprirem o prometido, a serem leais. A comunidade toda é educadora. A pessoa vale pelo que é e não pelo que produz.

Não conhecem o sexo como tabu. Têm uma educação sexual harmoniosa. Têm o seu sistema próprio de carinho. Existe um trato carinhoso entre as pessoas do mesmo sexo. Os homens se afagam e andam frequentemente abraçados, conversando animadamente entre si. Algumas vezes são tagarelas, outras vezes silenciosos, quase fechados. Uma brincadeira comum entre os sexos opostos: os homens se apoderam clandestinamente de tarefas das mulheres e as executam até certo ponto. Exemplo: as mulheres deixaram por aí, a meio caminho da aldeia, o jamanxim cheio de mandioca para beber água num igarapé próximo, ou para colherem frutas. Os homens surpreendem a carga abandonada, se apoderam dela, a carregam um trecho, onde a escondem, sumindo em seguida.

O seu modo de vida assemelha-se quase uma constante grupo-terapia.

São silenciosos e sabem escutar. É agradecido e generoso, mas espera que as coisas do outro também lhe sejam disponíveis. Não conhece o aspecto paternalista e farisaico da esmola. Tem o sentido da retribuição e agradece à sua maneira.

São hospitaleiros. Oferecem casa e comida e se colocam à disposição dos visitantes, criando rapidamente um ambiente de mutua confiança. Sofre e resiste ao orgulhoso. Daí a sua desconfiança histórica do “civilizado”.

Entre eles há grande docilidade para receber instruções e aceitar orientações. Nas aulas, quando a história do povo aflorava, os mais velhos tomavam a palavra espontaneamente, repercutindo os mais novos com a voz, cada frase ou expressão que saía da boca dos mais velhos, como sinal de compreensão e aprovação. A comunidade indígena é educadora. Na escola tivemos que encontrar um jeito para acomodar diariamente toda a comunidade: homens, mulheres, crianças e bebês. Isto durante todo o período que demos aulas na aldeia dos Kiña. Nunca houve uma só falta sem motivo sério.

Não tem o apego individual às coisas materiais. A terra tem um sentido social, não pode ser comercializada. É isto que traz o sentido social e econômico aos povos indígenas e não permite uma sociedade de pobres e ricos, de órfãos e desamparados. A sociedade indígena não é competitiva. Os meios de produção pertencem a todos. O seu sistema é distributivo, não centraliza o capital e este não pode ser apropriado por poucos. Para entender este sistema é preciso entrar nele, despojarmo-nos de nossas categorias culturais.

O sistema indígena não tem cercas, chaves, muros. Não necessita de um Ministério da defensa de propriedade privadas. Eles vivem o respeito social e comunitário que emerge da natureza.

Vivem o sentido da liberdade como conduta da sua educação. Reagem contra a repressão e a coerção de onde quer que venham. O índio é perspicaz e tem consciência do que faz e diz. Reage forte contra a mentira=“Madana!” – protestavam os Kiña diante da falsidade.

A educação indígena é um treinamento permanente para a liberdade e para a responsabilidade, iniciando-se desde os mais tenros anos. Amadurecem cedo para a vida. Foi emocionante nos defrontarmos com uma aldeia que durante vários anos foi sustentada por crianças e mulheres, pois os homens foram, na sua quase totalidade, abatidos pelos militares na guerra promovida para a construção da rodovia BR-174.

Tudo é motivo de educação. Os acontecimentos da vida, as lendas, as celebrações, as festas, a terra com toda a sua abundância de frutas, árvores, peixes, aves, animais e águas.

Tem muita sensibilidade artística demostrada na tatuagem, nos enfeites, na plumagem e na música. São criativos. Vivem social e artisticamente, comunicando-se de geração em geração, por meio da arte e da tradição.

Vivem intensamente o presente, sem antecipar o peso do futuro.

Os Kiña são muito engenhosos. O tuxaua da aldeia recebeu da Funai uma máquina de costura. Em pouco tempo passou a confeccionar a roupa de toda a aldeia, inclusive da nossa família enquanto ministramos as aulas ali. Eles têm grande desejo de aprender e exigem o cumprimento do prometido.

Tem uma grande capacidade de adaptação a novas situações. Sentem o perigo.

Apesar do grande sofrimento e da morte de centenas de parentes, apesar das imagens não esquecidas de dor e de violência que marcaram a infância de todo o Kiña, eles não carregam o peso desse passado com depressões e frustrações. Entre eles não há discriminação de pessoas. Se hoje desconfiam do branco é pela experiência amarga do passado remoto e recente que dificulta o diálogo. São de índole pacífica. Seus ataques têm visado a defesa do seu povo. A sua presença faz crescer e incentiva os valores humanos.

As comunidades Kiña foram apresentadas frequentemente à opinião pública como rudes, assassinas e terroristas. Em verdade são hospitaleiras. Quando chega um visitante, ficam à sua disposição oferecendo casa, comida, etc. Mostram-se interessados e gostam de conversar. Curtem as visitas, seja de parentes, seja de estranhos. Na oportunidade das grandes festas, geralmente entre julho e dezembro (período da seca) se preparam para receber os visitantes de outras aldeias, com a máxima alegria, com bebida e comida abundante, com os melhores enfeites e com a música de sua tradição. Por motivo das muitas agressões sofridas se resguardam ante a curiosidade dos civilizados kamña – que normalmente não tem livre acesso às suas festas, nem mesmo os funcionários da Funai com os quais convivem diariamente.

O trabalho está dividido por sexo. Os Kiña mais próximos da rodovia kahwa são hoje bastante sistemáticos no trabalho. O que é fruto da interferência da Funai. Levantam cedo. Vão para a caça. Voltam pelas 7 horas, comem alguma coisa e se dirigem depois aos trabalhos de roça ou aos programas impostos pela Funai em função dos projetos que desenvolvem como a criação de gado. À tarde seguem o ritmo de sua tradição. Reúnem-se para fabricar objetos de uso diário como arcos, flechas, cestas, redes, peneiras, tipitis, pilão, jamaxins, panelas de barro, bancos, remos...

O trabalho indígena é assistemático, o que permite que cada pessoa determine livremente a sua ação. Geralmente é feito com entusiasmo e os frutos são comuns: caça, pesca, lavoura... E não acumula, pois a sua segurança está na distribuição fraterna. O trabalho cria união e entre-ajuda. É feito em mutirão. Até os instrumentos de trabalho estão a serviço da comunidade. Ninguém precisa pedir licença para usá-los. Trabalha para viver bem e não para acumular.

Os roçados e caçadas seguem em mutirão. Não trabalham para acumular. Além dos frutos que cultivam nos seus roçados (mandioca, macaxeira, milho, cará, batata-doce, mamão, pupunha, goiaba, jaca, ingá, ananás, abacaxi, banana, limão, cana-de-açúcar...) coletam uma variedade muito grande de frutas da floresta, como piquiá, cumaru, castanha, uchi, bacaba, buriti, bacuri e outras.

Os Kiña conhecem a natureza não apenas pelo que ela representa de valor econômico ou comercial. A natureza é respeitada em sua totalidade. Daí a sua revolta contra os construtores da BR-174, ao verem os tratores “virando as árvores de raízes para cima”, como se expressavam. Desvendam a natureza na sua totalidade: poder curativo das plantas, alimento: carne e frutas e nos seus mistérios ocultos. A mata pertence à aldeia, ao habitat. Ela é respeitada porque harmoniza o seu ser.

Organização

A família está organizada em função do povo, da comunidade. A organização harmoniosa dos povos indígenas, se choca com a vida individualista, exploradora e classista da sociedade civilizada. Por motivo de sua organização interna, o índio tem atitudes mais humildes e compreensivas para com outros povos, o que por sua vez se choca com a grosseria do civilizado, que pressiona a mudança de hábitos e padrões nativos, chegando ao cúmulo de impor ao índio uma autoridade manipulada por ele.

Os índios não têm estruturas rígidas, imutáveis.

Geralmente não ataca, mas se defende.

A sua vida não se move dentro de uma estrutura mecanizada, mas obedece a um ritmo que permite a originalidade e a criatividade das pessoas.

A sociedade indígena se move dentro de um sistema cultural, com língua, costumes, danças, mitos, enfeites, instrumentos musicais e ritos de iniciação próprios.

A ausência de classes torna a vida indígena de um equilíbrio social extraordinário.

Autoridade 

Respeitam a autoridade dos velhos. A autoridade não é dominadora e não é remunerada. Não é repressiva. É um serviço à união, o que contrasta com a concentração de poder que caracteriza a sociedade civilizada. É participativa.

Julgam-se capazes de liderança. Os chefes são indicados ou escolhidos, não pela sua ‘inteligência’ ou ‘formação’, mas pelo seu interesse e ação comunitários, pela sua capacidade de resolver os problemas do povo.

Integração = etnocentrismo.

Carlos Drummond de Andrade ironizava a filosofia do governo em relação aos povos indígenas: “Homens esquecidos de arco-e-flecha / deixam-se consumir em nome da integração que se integra a raiz do ser e do viver. / Vocês têm obrigação de usar calça, camisa, paletó, sapato e lenço, / enquanto no Leblon nos despedimos de toda a convenção e viva a natureza. (...) Noel, tu o disseste: a civilização que sacrifica povos e culturas antiquíssimas é uma farsa amoral”. 

Conflito entre duas sociedades

Na raiz do ‘decreto de morte’ contra os povos indígenas, está o antagonismo existente entre a sociedade civilizada e indígena. A sociedade civilizada se caracteriza pela ambição pelo lucro, pelo acúmulo de bens, pela busca por eficácia, produção, concorrência... Aqui nas Américas se defrontou com uma sociedade que se caracteriza pelo paciente interesse pelas pessoas dentro de comunidade. A sociedade civilizada mata qualquer processo de crescimento permanente das pessoas humanas: lhe interessam obras acabadas. A obra humana na sociedade indígena não se acaba, cresce permanentemente, como também os bens que a sustentam. Não lhe interessam vistosos monumentos, igrejas para cultuar a Deus. O essencial é um culto no qual todas as pessoas da comunidade participam e crescem juntas para o Criador.

A sociedade civilizada, invade e tira as condições de vida das pessoas humanas. Depreda acumulando egoisticamente os bens, sem preocupação pelas gerações futuras. A indígena se fundamenta na previsão e aumento dos bens de primeira necessidade para legá-las abundantes e sempre mais variadas. 

Acumula valores humanos que levam ao compartilhamento dos bens de produção e consumo. Estes bens jamais podem ficar ao capricho de uma elite de indivíduos.

A sociedade civilizada é paternalista e transforma as pessoas em permanentes instrumentos. Daí a necessidade de corretivos como a FUNAI, INPS, para ocultar o pecado institucionalizado.

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