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Francisco Calmon

Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Membro da Frente Brasil Popular do ES

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"O dever de todo revolucionário é fazer a revolução"

Entre o voluntarismo armado, o reformismo institucional e a urgência de reconstruir uma estratégia revolucionária para a esquerda brasileira

Atos da esquerda, da direita e uma urna (Foto: Rafael Smaira / Midia Ninja I Carla Carniel / Reuters I Agência Brasil)

Marighella defendia que os revolucionários não deveriam esperar as condições ideais, mas, sim, criar as condições por meio de ações práticas, ações diretas armadas.

Não há dúvida de que era um incentivo ao voluntarismo, mas cumpriu um papel e abalou a ditadura.

O foquismo de Che Guevara também foi um voluntarismo que o levou à morte.

As estratégias do tudo ou nada, radicais, não no sentido de ir à raiz, mas do paroxismo, são facilmente assimiláveis e ambientes propícios a infiltrações.

O militarismo de grande parte das organizações revolucionárias que combateram a ditadura raciocinava no estreito cartesianismo de “isso ou aquilo, e se isso ou aquilo, a conclusão só poderia ter tal resultado”.

A autocrítica da esquerda, incentivada pela direita, foi radical: divorciar-se do passado e seguir o permitido pelo sistema dominante.

Esse desquite amigável deu no que é, na atualidade, a esquerda: reformista por excelência, republicanista por pedagogia.

Sem um projeto de nação e sem, obviamente, estratégia, pois, sem a definição de qual lugar chegar, não há como estabelecer uma estratégia.

A esquerda foi reduzida a um movimento eleitoral, no qual finca bandeiras a cada quatro anos, de acordo com as circunstâncias e a correlação de forças eleitorais, e estabelece táticas sem conexão com a estratégia, pois ela não existe.

Não há a menor dúvida de que não existem condições objetivas e subjetivas para uma revolução anticapitalista e imperialista.

O raciocínio cartesiano termina aí: se não há condições, logo não se faz revolução.

Onde está a falácia desse raciocínio?

Está em que, na falta de condições, não se faz, mas se prega a revolução, se combate a ideologia burguesa e o sistema capitalista.

O dever de todo revolucionário, na atualidade, é pregar a revolução.

O reformista também assevera a necessidade da revolução social, mas a prega divorciada da revolução política, ou seja: sem correspondência com o empoderamento da classe trabalhadora. E o resultado é o que temos assistido nos governos Lula.

Lembrando Lenin: que fazer?

Talvez a resposta esteja no seu artigo seguinte: duas táticas. “A libertação dos operários só pode ser obra dos próprios operários; sem a consciência e a organização das massas, sem a sua preparação e a sua educação, por meio da luta de classes aberta contra toda a burguesia, não se pode sequer falar de revolução socialista”.

Duas táticas para a conjuntura: 1. Trabalhar para que o governo Lula 4 seja à esquerda; 2. e pregar a necessidade da revolução anticapitalista e imperialista.
Portanto, a esquerda deve, desde já, procurar influir no programa de governo que será apresentado ao eleitorado.

Ousar para conquistar, conquistar para vencer, vencer para empoderar a base da classe trabalhadora.

O paradoxo é que não há um proletariado com consciência revolucionária; por conseguinte, o que vem ocorrendo é a ascensão de uma elite burocrática pelega.

Voltamos ao que fazer, e a resposta é o que já se tornou um mantra: FOP: Formação, Organização e Participação.

O governo tem uma ampla aparelhagem de comunicação — rádio e TV —, contudo, não a usa com este fito.

Nem todo gato é pardo, nem todo cão é caramelo; contudo, a realidade é dialética.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.