O dia é do historiador, mas temos pouco a comemorar

O afã de um governo autoritário em construção para destruir a produção cientifica nacional, com destaque é claro para as ciências humanas, sinaliza para um dos elementos centrais do ofício do historiador no atual Brasil: escancarar nossas mazelas sociais e econômicas como parte constitutiva de nossa atual realidade

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Quando Marc Bloch escreveu o clássico Apologia da História reascendeu um intenso debate acadêmico que versa sobre o que é ser historiador e para que serve a história. Essa discussão volta para a ordem do dia na contemporaneidade brasileira muito por conta de nossa realidade alarmante de constantes ataques e ameaças vindas daqueles que nos governam. 

A degradação profissional do historiador no Brasil chegou a níveis tão preocupantes que ameaça, inclusive, a possibilidade de continuarmos desenvolvendo nossas práticas científicas, o que afeta não apenas o campo de estudos historiográfico, mas a área de humanidades de modo geral.  O aniquilamento das já combalidas bolsas cientificas de órgãos como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além é claro da nova política de concessão de fomento proposta pelo Ministério da Educação e da Ciência e Tecnologia, quer asfixiar as ciências humanas de um modo nunca visto.

O afã de um governo autoritário em construção para destruir a produção cientifica nacional, com destaque é claro para as ciências humanas, sinaliza para um dos elementos centrais do ofício do historiador no atual Brasil: escancarar nossas mazelas sociais e econômicas como parte constitutiva de nossa atual realidade. Esse componente denuncista, que revela para o mundo nossa face mais obscura, tonou-se um inconveniente para aqueles que através do pensamento monocrático e acrítico querem reescrever a história de nossa elite burguesa justificando e apaziguando suas relações umbilicais com a escravidão, torturas, mortes e desaparecimentos.

Essa fatigante tarefa de denúncias constantes aliada às condições precárias de sobrevivência do historiador, tornou nosso exercício profissional uma máquina de adoecimento psicológico com destaque para os casos de transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de ansiedade social e da depressão clínica. Por isso, no dia de hoje em que o calendário teima em lembrar nossa existência, desejo a todos os meus colegas de profissão que se mantenham vivos, firmes e com muita disposição de lembrar a sociedade aquilo que ela mais quer esquecer.


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