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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O dia em que Michelle deixou de ser coadjuvante

A política brasileira assistiu nesta semana a um daqueles acontecimentos aparentemente domésticos que, de repente, alteram todo o tabuleiro eleitoral.

Michelle Bolsonaro (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
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A ex-primeira-dama rompeu a aparência de unidade do bolsonarismo, expôs a disputa pela sucessão de Jair Bolsonaro e revelou que a principal batalha da extrema-direita já não acontece contra Lula, mas dentro da própria família Bolsonaro.

O vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro, acusando publicamente o senador Flávio Bolsonaro de tê-la humilhado, desrespeitado e "apunhalado pelas costas", rapidamente deixou de ser um conflito familiar. Transformou-se numa crise política de grandes proporções.

Em poucas horas, o episódio dominou jornais, emissoras de televisão, portais de notícias e redes sociais. O que parecia uma divergência entre madrasta e enteado revelou algo muito maior: a disputa pela herança política de Jair Bolsonaro deixou os bastidores e passou a ser disputada diante do país.

Mais do que um desentendimento familiar, o vídeo expôs uma luta pelo comando do maior patrimônio eleitoral da extrema-direita brasileira.

A sucessão começou antes da eleição

Durante anos, o bolsonarismo funcionou como uma estrutura rigidamente vertical. Jair Bolsonaro decidia. Os filhos executavam. O partido acompanhava.

Esse modelo começou a perder consistência à medida que o ex-presidente foi acumulando derrotas eleitorais, condenações judiciais e restrições que reduziram sua capacidade de arbitragem política.

O vídeo de Michelle tornou pública essa transformação.

Hoje já não existe apenas um projeto político dentro do bolsonarismo. Existem diferentes grupos disputando o espólio eleitoral construído ao longo da última década.

O vídeo mudou a natureza da disputa

Michelle não fez uma reclamação reservada.

Gravou um vídeo.

Publicou-o nas redes sociais.

Acusou Flávio Bolsonaro de humilhá-la, desrespeitá-la e traí-la politicamente durante as negociações envolvendo o palanque do PL no Ceará.

A repercussão foi imediata.

Flávio Bolsonaro acabou divulgando um pedido público de desculpas. O gesto, longe de encerrar a crise, acabou confirmando sua dimensão.

Quando um pedido público de desculpas se torna necessário dentro da própria família Bolsonaro, a disputa deixa de ser privada.

Passa a ser política.

O pai já não consegue arbitrar o conflito

Os relatos de bastidores publicados pela imprensa mostram que a crise rapidamente ultrapassou Michelle e Flávio.

Segundo interlocutores ouvidos por diferentes veículos, Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro passaram a pressionar Jair Bolsonaro para que desautorizasse publicamente a esposa de Jair e madrasta dos filhos 01, 02 e 03.

Independentemente do desfecho, o episódio revela uma realidade inédita.

Pela primeira vez, o chefe do clã já não consegue impedir que uma disputa doméstica se transforme numa crise política nacional.

Sua capacidade de arbitragem já não parece a mesma de outros tempos.

O PL também entrou em guerra

A crise atravessou imediatamente as portas do Partido Liberal.

Segundo informações divulgadas pela jornalista Bela Megale, uma ala importante do partido passou a defender a retirada de Michelle da presidência do PL Mulher, afirmando que ela teria "jogado a eleição no colo de Lula".

Outra corrente sustenta exatamente o contrário.

Para esse grupo, Flávio Bolsonaro precisará recompor a relação com a madrasta porque Michelle representa um dos maiores ativos eleitorais do partido, especialmente entre mulheres e parte significativa do eleitorado evangélico — justamente os segmentos em que o senador enfrenta maior resistência.

A divergência revela um dado novo.

A discussão dentro do PL já não gira apenas em torno da candidatura presidencial.

Passa também pela definição de quem exercerá a liderança política do campo bolsonarista daqui para frente.

Michelle deixou de ser personagem secundária

Durante muito tempo, Michelle Bolsonaro foi tratada como um importante cabo eleitoral do marido.

O episódio desta semana indica que essa fase pode ter terminado.

Como observou o jornalista Pedro Doria, Michelle construiu dentro do PL uma força política própria, apoiada principalmente no eleitorado feminino e evangélico, tornando-se uma liderança muito mais autônoma do que costumava ser percebida.

Independentemente de disputar ou não a Presidência da República, ela passou a ocupar um espaço político que nenhum dos filhos de Jair Bolsonaro consegue monopolizar.

Sua influência deixou de depender exclusivamente da figura do ex-presidente.

A pergunta que permanece sem resposta

Há, porém, uma pergunta que continua pairando sobre Brasília.

Jair Bolsonaro sabia que Michelle gravaria e divulgaria aquele vídeo?

A dúvida não é irrelevante.

Michelle convive diariamente com o ex-presidente. É sua principal interlocutora neste período de restrições judiciais e isolamento político.

Se Jair Bolsonaro desconhecia completamente a iniciativa da esposa, isso significa que já perdeu a capacidade de controlar até mesmo os movimentos políticos produzidos dentro de sua própria casa.

Se, ao contrário, tinha conhecimento da gravação — ou ao menos concordou em silêncio com sua divulgação —, o episódio ganha outra dimensão.

Nesse caso, seria legítimo perguntar se o próprio Bolsonaro já admite discutir alternativas para reorganizar sua sucessão política.

Até o momento, não existe prova pública de que ele tenha autorizado o vídeo ou participado de sua elaboração.

Mas também chama atenção seu silêncio.

Segundo relatos de bastidores, Flávio, Carlos e Eduardo esperam uma manifestação do pai que desautorize Michelle.

Ela não veio.

Na política, o silêncio também comunica.

A guerra pelo sobrenome

O que está em disputa não é apenas uma candidatura presidencial.

É o controle da marca política Bolsonaro.

Quem liderar esse processo controlará uma estrutura formada por milhões de eleitores fiéis, uma poderosa rede de comunicação digital, influência sobre centenas de candidaturas proporcionais e um dos maiores partidos do país.

Essa disputa tende a marcar toda a campanha de 2026.

Enquanto isso, Lula observa

Há uma ironia difícil de ignorar.

Todas as recentes pesquisas de intenção de voto colocaram Lula na liderança da disputa presidencial.

Até poucos dias atrás, a principal dificuldade da direita tradicional parecia ser encontrar um candidato suficientemente competitivo para enfrentar o atual presidente.

Agora surge um problema anterior.

Antes de decidir quem enfrentará Lula, o bolsonarismo talvez precise decidir quem comandará o próprio bolsonarismo.

O vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro não encerra essa disputa.

Apenas tornou pública uma guerra que já vinha sendo travada nos bastidores.

Talvez esse seja seu verdadeiro significado histórico.

A eleição de 2026 começou antes do esperado.

E, ao menos por enquanto, a batalha mais intensa da direita brasileira não acontece contra Lula.

Acontece dentro da própria família Bolsonaro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.