O diabo mora nos detalhes
Milhões de brasileiros foram às ruas para lutar contra a corrupção. Se voltarem, e eu até espero que voltem, vai ser um verdadeiro carnaval de Olinda, com aquele desfile de bonecos gigantes do Temer, do Sarney, Renan, Jucá, Jader, do Cunha, da patota toda, incluindo aí o japonês da Federal
Um desses movimentos fakes criados na internet, coordenado por um coreano que adora tirar fotos ao lado da fina flor da banda podre do PMDB envolvida na Lava Jato, está convocando a população para ir às ruas no dia 31 de julho em favor da cassação definitiva da presidente Dilma Rousseff. Kim Jong-Un, acho que esse é o nome dele, parece desconhecer um provérbio alemão que diz: "O diabo mora nos detalhes". Estimulado pela arrogância que turbina seu ego, Kim, que não passa de um jogador de truco, pode colocar tudo a perder, se o recado das ruas para os senadores for diferente daquilo que os golpistas esperam.
Com as primeiras medidas anunciadas por Michel Temer, qual o aposentado que vai vestir camisa da CBF para mandar a Dilma embora? Aquela pensionista que vai ter o valor do benefício achatado pela equipe econômica do governo vai apoiar quem lhe coloca a corda no seu pescoço? E quando a banca internacional estiver drenando o que resta de riqueza no Brasil, sem gerar um único emprego? Imagine o que virá depois de consumado o golpe de misericórdia contra Dilma. Sou capaz de apostar que a volta da CPMF vai ser a primeira medida. O brasileiro entendeu nesses poucos dias de governo Temer, o que o espera após a execução da presidente pelos verdugos do Senado. E não é coisa boa.
Milhões de brasileiros foram às ruas para lutar contra a corrupção. Se voltarem, e eu até espero que voltem, vai ser um verdadeiro carnaval de Olinda, com aquele desfile de bonecos gigantes do Temer, do Sarney, Renan, Jucá, Jader, do Cunha, da patota toda, incluindo aí o japonês da Federal. Eu mesmo vou fantasiado de Janaína Paschoal, balançando enlouquecido a minha peruca, pedindo prisão de todos eles. O coreano precisa entender que, na política, o mais bobo é capaz de consertar um relógio usando luva de boxe. Essa manifestação tem tudo para ser um tiro no pé, e os patrocinadores da molecada vão ordenar que a operação seja abortada. Disso não tenho a menor dúvida.
Os caras que manipularam milhões de pessoas, para obter respaldo popular ao golpe, agora querem limar o Janot da condução dos trabalhos da Lava Jato. Cochicham, entre goles de uísque, sobre formas de engessar as ações do juiz Sérgio Moro. Como colecionadores de álbuns, indicam onde encontrar aquela figurinha premiada dentro do Judiciário, que pode dar uma ajeitada nas coisas para eles. Tomaram o governo como quem divide uma pilhagem entre piratas, e ainda ficam indignados com a "petulância" de um procurador, quando pede a prisão dos sócios do poder usurpado de Dilma Rousseff.
Tirando Henrique Meirelles que, justiça seja feita, tem grande experiência em agradar aos predadores, digo, investidores – o que no fundo dá no mesmo -, os demais ministros não entendem nada sobre as pastas que comandam. O maior drama do brasileiro, hoje, é o desemprego. E o sujeito responsável pelo ministério da Indústria, Comércio e Serviços é um bispo da Igreja Universal. Pode pegar um copo com água, botar o nome na fogueira santa de Israel, que seu emprego está garantido, meu camarada.
A população brasileira entendeu que tomou uma pedalada. Janaína Paschoal, Miguel Reale, Hélio Bicudo, a turma do coreano, os barões da mídia, todos são Flautistas de Hamelin, mas seus instrumentos só estão afinados para atrair os ratos do PT. Não entoam uma única nota musical para abater tucanos. Não li de nenhuma dessas pessoas qualquer declaração de apoio ao procurador Rodrigo Janot, quando este enfrentou forte reação do ministro Gilmar Mendes, pelo "atrevimento" de correr atrás dos malfeitos de Aécio Neves.
Se a manifestação marcada para 31 de julho é para sacramentar a luta contra a corrupção, os organizadores que se preparem para ouvir aquilo que está entalado na garganta povo, que acreditou estar participando de um movimento ético, apartidário e cívico. Hoje, como resta provado, o grupo fake nada mais é do que um aplicativo financiado pelo PSDB. A quadrilha do PT está desarticulada, vários políticos estão condenados e cumprindo pena. O Partido dos Trabalhadores não tem força nem capacidade de articulação política para atrapalhar os trabalhos da Operação Lava Jato. Então, sair às ruas para que? Só se for para exigir punição exemplar também para a banda podre que faz "cara de paisagem", no melhor estilo "não tenho nada com isso", quando é sabido que se lambuzaram na mesma roubalheira. Essa passeata cai como uma luva para unir mortadelas e coxinhas em torno de uma pauta única, como no período em que estávamos unidos em defesa da restauração da democracia. Está aí uma boa oportunidade para acabar com essa divisão ideológica, criada em laboratório com ingredientes de ódio e preconceito, nos fazendo esquecer de que estamos, todos, no mesmo barco.
Muita coisa vai acontecer até o dia 31 de julho. O humorista Sérgio Mallandro tinha um quadro num programa de TV chamado "Porta dos Desesperados". Era mais ou menos assim: um sujeito ficava diante de três portas e uma delas tinha o prêmio desejado. Se escolhesse mal, era agarrado por um sujeito fantasiado de monstro. Os empreiteiros beneficiados por delação premiada na Lava Jato estão exatamente nessa situação. Se escancararem tudo o que sabem, serão engolidos pelo monstro chamado Sistema. Por isso acredito nas palavras do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, de que a delação será "seletiva", para evitar que ocorra aquilo que a maioria da população deseja, que são novas eleições para presidente, Câmara e Senado.
Todas essas circunstâncias desmascararam os organizadores fakes desse e de outros movimentos em mídias sociais. Essa turma, meu caro aposentado, minha distinta dona de casa, meu amigo trabalhador, come farelos do poder nas mãos dos seus patrões. Dia 31 de julho, por estranha coincidência, é o Dia Mundial do Orgasmo. Pensando bem, acho que vou guardar minha fantasia de Janaína Paschoal e vou ficar em casa, comemorando a data. Não vou dar cartaz a esta turma que sofre de ejaculação eleitoral precoce, que não consegue segurar o desejo de ocupar a presidência pelo tempo que dura um mandato.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

