O eixo da desordem
O eixo da desordem transforma a bagunça de um quarto em uma divertida crise de proporções internacionais
— Não vou arrumar meu quarto.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Então vamos ter que chamar o Trump.
— Vocês não fariam isso.
— Faríamos, sim.
— Por causa de um quarto bagunçado? Isso não faz o menor sentido.
— Nem todas as grandes guerras da História fazem.
— O que exatamente vocês acham que ele faria?
— Difícil dizer.
— É porque vocês não sabem.
— É porque ninguém sabe.
— Eu continuo não arrumando.
— Certo. Vou avisar.
— Para quem?
— Para o Trump.
— Vocês têm o contato dele, é?
— Não diretamente.
— Então?
— Existem canais.
— Que canais?
— Canais apropriados.
— Isso está ficando surreal.
— Concordo. Mas o seu quarto está mais surreal ainda.
— O quarto é meu. Vocês sabem.
— O Trump talvez questione essa interpretação.
— O Trump mora em outro país.
— Hoje em dia isso não significa muita coisa.
— Calma, gente. Tem uma meia suja no chão. Só isso.
— Tem também duas camisetas, um tênis sem par, três revistas e alguma coisa que parece ter desenvolvido consciência própria.
— Aquilo é uma mochila.— Achei que fosse uma capivara.
— Vocês, como sempre, estão exagerando.
— O Trump gosta de números. Vamos a eles: sete peças de roupa fora do armário.
— Nove.
— O quê?
— Tem duas cuecas atrás da porta.
— Você parece muito seguro.
— Porque isso é absurdo.
— Foi o que seu pai disse quando mencionei o Trump pela primeira vez.
— E o que aconteceu?
— Ele arrumou a garagem.
— Porque a garagem precisava ser arrumada.
— Coincidência interessante.
— Isso é manipulação.
— Não. É política doméstica.
— Eu me recuso a participar.
— Tudo bem.
— Tudo bem?
— Tudo.
— Não vão chamar o Trump?
— Vamos.
— Então por que agora estão tão calmos?
— Porque, uma vez iniciado o processo, não há mais o que fazer.
— Que processo?
— O do Trump.
— Isso não existe.
— Não somos país, mas somos pais.
— Eu continuo sem acreditar. Ninguém vai aparecer aqui por causa de um quarto.
— Provavelmente não.
— Provavelmente?
— Nunca se sabe.
— Vocês estão blefando.
— Talvez.
— É blefe, é blefe!
— Pode ser.
— Então não tem problema se eu deixar tudo como está.
— Nenhum.
— Vocês não vão fazer nada.
— Não.
— Nem chamar o Trump.
— Não.
— Então por que o pai está tirando fotos do quarto?
— Documentação.
— Documentação pra quê?
— Para o Trump.
— Mas vocês acabaram de dizer que não iam chamar o Trump.
— E não vamos.
— Então por que as fotos?
— Porque você vai explicar isso diretamente para ele.
— Pra quem?
— Você sabe para quem.
— …
— Quer começar pelas camisetas ou pela mochila que desenvolveu consciência própria?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

