Carlos Castelo avatar

Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

127 artigos

HOME > blog

O eixo da desordem

O eixo da desordem transforma a bagunça de um quarto em uma divertida crise de proporções internacionais

O eixo da desordem (Foto: IA/Freepik)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

— Não vou arrumar meu quarto.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Então vamos ter que chamar o Trump.

— Vocês não fariam isso.

— Faríamos, sim.

— Por causa de um quarto bagunçado? Isso não faz o menor sentido.

— Nem todas as grandes guerras da História fazem.

— O que exatamente vocês acham que ele faria?

— Difícil dizer.

— É porque vocês não sabem.

— É porque ninguém sabe.

— Eu continuo não arrumando.

— Certo. Vou avisar.

— Para quem?

— Para o Trump.

— Vocês têm o contato dele, é?

— Não diretamente.

— Então?

— Existem canais.

— Que canais?

— Canais apropriados.

— Isso está ficando surreal.

— Concordo. Mas o seu quarto está mais surreal ainda.

— O quarto é meu. Vocês sabem.

— O Trump talvez questione essa interpretação.

— O Trump mora em outro país.

— Hoje em dia isso não significa muita coisa.

— Calma, gente. Tem uma meia suja no chão. Só isso.

— Tem também duas camisetas, um tênis sem par, três revistas e alguma coisa que parece ter desenvolvido consciência própria.

— Aquilo é uma mochila.— Achei que fosse uma capivara.

— Vocês, como sempre, estão exagerando.

— O Trump gosta de números. Vamos a eles: sete peças de roupa fora do armário.

— Nove.

— O quê?

— Tem duas cuecas atrás da porta.

— Você parece muito seguro.

— Porque isso é absurdo.

— Foi o que seu pai disse quando mencionei o Trump pela primeira vez.

— E o que aconteceu?

— Ele arrumou a garagem.

— Porque a garagem precisava ser arrumada.

— Coincidência interessante.

— Isso é manipulação.

— Não. É política doméstica.

— Eu me recuso a participar.

— Tudo bem.

— Tudo bem?

— Tudo.

— Não vão chamar o Trump?

— Vamos.

— Então por que agora estão tão calmos?

— Porque, uma vez iniciado o processo, não há mais o que fazer.

— Que processo?

— O do Trump.

— Isso não existe.

— Não somos país, mas somos pais.

— Eu continuo sem acreditar. Ninguém vai aparecer aqui por causa de um quarto.

— Provavelmente não.

— Provavelmente?

— Nunca se sabe.

— Vocês estão blefando.

— Talvez.

— É blefe, é blefe!

— Pode ser.

— Então não tem problema se eu deixar tudo como está.

— Nenhum.

— Vocês não vão fazer nada.

— Não.

— Nem chamar o Trump.

— Não.

— Então por que o pai está tirando fotos do quarto?

— Documentação.

— Documentação pra quê?

— Para o Trump.

— Mas vocês acabaram de dizer que não iam chamar o Trump.

— E não vamos.

— Então por que as fotos?

— Porque você vai explicar isso diretamente para ele.

— Pra quem?

— Você sabe para quem.
— …
— Quer começar pelas camisetas ou pela mochila que desenvolveu consciência própria?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.