O Encilhamento e a bolha dos EUA

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Em 17 de Janeiro de 1890, "O primeiro dia da criação", como registrou Machado de Assis em suas crônicas, é promulgado por Deodoro o decreto Nº165. Após o golpe militar que instalou a República, era a hora do novo governo mostrar a que veio. Em 15 de Novembro de 1889, "o povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada", retratou Aristides Lobo, o ministro do interior do governo provisório em 18 de novembro no Diário Popular. 

Com a promulgação do decreto Nº 165 o País começa a provar agora o novo ciclo prometido : apoio à agricultura, ao comércio e à industrialização acelerada, assim anunciava o ministro da Fazenda, o general de brigada Rui Barbosa. Sim, general, pois Deodoro quis que todos seus ministros fossem militares e por decreto concedeu a patente de general à todos os ministros civis e, é claro, tornou-se generalíssimo de terra e mar, o único marechal de 6 estrelas. Deodoro e Rui, esse oximoro vivo foi resolvido de maneira castrense. Afinal, todo general bate continência para o marechal. 

Lima Barreto, atento observador  dos primórdios da República assinalou em "Os Bruzundangas" essa fixação dos militares pela inteligência: "Foi, no que me toca, um traço que, além de me surpreender, me cativou imensamente, apesar de toda e qualquer presunção que se lhes possa atribuir, eles têm sempre um sincero respeito pelas manifestações da inteligência, partam elas de onde partirem".

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As medidas econômicas adotadas, nesse primeiro pacote econômico, dividiram o Brasil em três regiões: a Norte composta da Bahia e de toda a região norte-nordeste, a Centro integrada pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina e a do Sul que abarcava Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso. Cada uma destas regiões teria um banco emissor de moeda, algo equivalente hoje ao Banco Central. Posteriormente, foi criado um outro banco em São Paulo. Estes bancos eram responsáveis por todos os aspectos da vida econômica.

Uma cornucópia de cédulas invadiu o país, nos mais diferentes tamanhos e cores. Umas com boa aparência, outras nem tanto. Um verdadeiro frenesi acometeu o país. Soem os clarins! Progresso e industrialização acelerada!  Aberturas de estradas, mesmo as vicinais? Apoio à lavoura? Imigração de mão de obra? Ferrovias? Indústrias? Comércio? Os bancos vão resolver tudo imprimindo dinheiro e mais dinheiro. Enfim, com a ordem instaurada, agora o progresso está no horizonte, mera questão de tempo...

Os decretos de Rui trouxeram uma nova lei para bancos de emissão, criando vários deles, e para diferentes regiões do país, e também algumas importantes alterações na lei societária, modificando substancialmente os entraves à incorporação de novas empresas. A reação do “mercado” a tudo isso foi de absoluto deslumbramento. O "encilhamento" ganhou enorme impulso: de pouco mais de 90 companhias listadas na Bolsa no início de 1888, passou-se a cerca de 450 em meados de 1891, às vésperas da debacle.

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Chegamos ao "Encilhamento", o nome pelo qual ficou conhecida essa política. De onde se tirou essa denominação? Foi usada pela primeira vez em Retrospecto Commercial, no Jornal do Commercio, em 1890. "Era o encilhamento, palavra quase genial do povo, adaptada da linguagem característica do esporte (turfe) - local onde se dá a última demão aos cavalos de corrida antes de atirá-los à raia da concorrência e forçá-los, ofegantes e em supremos esforços, a pleitearem o prêmio da vitória", assim descreveu Taunay em romance homônimo.

"O Encilhamento" foi escrito em forma de folhetim no jornal carioca Gazeta de Notícias, a partir de 26 de fevereiro de 1893. Contendo 70 capítulos e assinado com o heterônimo de Heitor Malheiros, usado por Alfredo D’Escragnolle Taunay, o visconde de Taunay. Taunay secundou a forma de Emile Zola, onde personagens reais apareciam com nomes modificados e praticando ações também relacionadas com as que empreenderam na vida real. Assim o conselheiro Francisco de Paula Mayrink, Paulo de Frontin e Henry Lowndes, o visconde de Leopoldina, os três personagens principais, aparecem no romance respectivamente como Meyermayer, Lamarin e  Drowns, o visconde de Petrolina. 

Obra seminal para compreender os primórdios da República, "O Encilhamento" disseca o frenesi dessa onda especulativa, nosso primeiro choque ultraliberal, que quebrou o Brasil e levou a bancarrota centenas de empresas numa espiral inflacionária até então inédita.

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Henry Lowndes, o Conde de Leopoldina, título comprado em Portugal, já era grande especulador em Lisboa quando pressentiu a oportunidade de se instalar no Brasil, durante o Império. Rapidamente tornou-se diretor de três bancos e 13 companhias, entre as quais a Fábrica de têxteis São João (...). Até 1888 nada parecia anormal na empresa, que aumentou seu capital para mil contos, subscritos não só pelos fundadores, mas também por 11 novos acionistas. Mas sob os bons ventos do "encilhamento", e tendo entre seus acionistas homens que participaram ativamente das especulações de Bolsa, a empresa triplicou o capital no ano seguinte, tendo ficado Henry Lowndes com 37% das ações.

Um ano antes, Lowndes fundara outra companhia de tecidos - a São Cristóvão - e no ano seguinte quadruplicava seu capital, e mais uma vez em 1890. As duas empresas têxteis somavam agora 5.400 contos. Essas operações de aumentos exorbitantes de capital das duas empresas foram uma manobra para supervalorizá-las, atrair mais dinheiro e tornar mais lucrativo o golpe que tinha em vista. Nessa altura, Henry Lowndes fez um lançamento espetacular na Companhia União Industrial São Sebastião, com o capital astronômico de dez mil contos, constituído da fusão da São João com a São Cristóvão. 

O comendador Gomes Brandão, presidente do Colonizador Agrícola, fez um empréstimo de seis mil contos para essa operação e apresentou a cautela dessa transação como penhor no Banco Rural e Hipotecário. A nova companhia de Londres no ano seguinte (...) incorporou a Bomfim. Em 1894, o Banco Rural e Hipotecário moveu uma ação contra a Companhia União Industrial São Sebastião, pretendendo reaver os debêntures da empresa, a quantia que descontara para o banco Colonizador Agrícola, já então falido. A empresa de Henry Lowndes simulou um papel de quitação com o banco do comendador, mas a ação foi considerada improcedente e a união, dissolvida.

Lowndes conseguiu aproximar-se do Barão de Lucena, sucessor de Rui Barbosa no Ministério da Fazenda, para obter um grande depósito de divisas no Banco de Crédito Universal que acabara de fundar, com a promessa de reanimar a Bolsa, que fizera despencar com as ações da Companhia Geral de Estradas de Ferro. Aliás, foi por essa operação que acabou sendo deportado para Cauí. (...) O que mostra que o "encilhamento" permitiu, a quem entendia do ramo, ganhar na alta e lucrar na baixa, mesmo sem criar empresas de papel.

"O marechal Presidente só via pelos olhos do seu primeiro ministro, o primeiro ministro só via pelos olhos da roda que o cercava, e a tal roda, dentro em pouco, só via pelos olhos do visconde de Petrolina. Constituíra este, pois, o árbitro real dos destinos do Brasil, de um extremo a outro - tudo em nome da ordem e do progresso, da liberdade, da democracia e da integração da América meridional", escreveu Taunay.

A crise cambial em 1891 deu impulso à derrocada do "Encilhamento" e fragilizou tremendamente os bancos e as finanças públicas. A euforia foi assumindo ares de pânico, e as dificuldades com os grandes bancos foi tornando prioridade nos debates da nova Assembleia Constituinte. 

A renúncia do marechal Deodoro da Fonseca, em fins de 1891, num episódio que ficou conhecido como o “Golpe da Bolsa”, envolveu os impasses em torno do destino dos bancos de emissão, os quais, por sua vez, traziam em suas carteiras todos os pecados do Encilhamento

Muitos talvez, já tenham se indagado por que Rui Barbosa, cantado em prosa e verso, nunca foi presidente da República. Eis o motivo.

Emissão descontrolada de moeda e valorização artificial dos ativos foi a raiz do desastre do Encilhamento, causando inflação alta e quebradeira. A tentação de resolver problemas econômicos emitindo moeda, por incrível , permanece atual. 

A atuação do FED com o quantitative easing, o que convencionou-se denominar "nova política monetária". Temos hoje em poder dos bancos 4 trilhões de dólares, e o FED está fazendo o repo reverse (gráfico acima foi compilado pelo St. Louis Fed usando os dados do Fed de Nova York para a emissão de Contratos de Recompra Reversa, também conhecidos como Reverse Repos). O que é um Fed Reverse Repo ? De acordo com o Fed de Nova York, é quando as contrapartes emprestam dinheiro ao Fed em troca de garantias, que normalmente são títulos do Tesouro.

Na ação mais recente, estamos falando sobre o Fed de Nova York, agindo em nome do Federal Reserve, vendendo títulos do Tesouro dos EUA para bancos de Wall Street, casas de comércio, fundos mútuos e empresas patrocinadas pelo governo em negócios noturnos e de fim de semana e pagando zero ou próximo de zero como uma taxa de juros quando ele compra de volta os títulos.

Por que os caras mais espertos de Wall Street, que nunca deixaram um centavo solto escapar por entre os dedos para obter uma fatia maior do pool de bônus anual, estariam dispostos a emprestar dinheiro ao Fed com juros de zero por cento? Afinal, são alguns dos mesmos caras que fazem empréstimos com margem de 10 para 1 a fundos hedge de family office duvidosos, como a Archegos, a fim de maximizar a receita com taxas.

Todos em Wall Street parecem ter sua própria ideia do que fez com que o Reverse Repos do Fed de Nova York disparasse durante o mês de maio. Uma das teorias frequentemente expressas é a de que há um excedente de dinheiro circulando em Wall Street como resultado do projeto de estímulo de US$ 1,9 trilhão aprovado pelo Congresso em março e do aumento concomitante de depósitos em bancos e fundos do mercado monetário.

Há um problema, entretanto, com essa tese. De acordo com a planilha Excel do Fed de Nova York de seus Reverse Repos diários, os valores em dólares passaram de um mínimo de $ 3,45 bilhões em 5 de abril - um mês após a aprovação da lei de estímulo e os cheques de estímulo - para uma alta de $ 173 bilhões em abril 30.

O aumento gigantesco nos Reverse Repos do Fed ocorreu em maio, não em abril, e continuou nos primeiros dias de junho. Durante a última semana de maio, o Reverse Repos noturno do Fed variou de US$ 369 bilhões em 21 de maio a uma alta histórica de US$ 485 bilhões em 27 de maio. No caso do Reverse Repo de 21 de maio, que caiu em uma sexta-feira, que o negócio não foi feito durante a noite, mas durou todo o fim de semana, com vencimento na segunda-feira, 24 de maio. As contrapartes que pegaram garantias do Tesouro do Fed e emprestaram US$ 369 bilhões no fim de semana, ganharam juros zero de acordo com os dados do Fed de Nova York.

Outra teoria que está circulando é que as empresas têm medo de estacionar seu dinheiro ocioso em fundos do mercado monetário que detêm títulos que não sejam papéis do governo dos Estados Unidos. Isso porque o Fed teve que criar um mecanismo de resgate para os fundos não governamentais do mercado monetário de papel durante a crise de mercado de março de 2020. Uma vez que os fundos do mercado monetário do Tesouro, para os quais tantas empresas e instituições  estão se aglomerando, normalmente não podem deter nada mais do que um instrumento de um ano, pode haver um aumento na demanda para colocar as mãos em títulos do Tesouro de um ano.

O que quer que esteja causando o medo crescente em Wall Street, não há dúvida de que o medo está se espalhando para mais empresas que fazem negócios com o Fed de Nova York.

Em abril, o número de contrapartes envolvidas nesses Reverse Repos com o Fed passou de um mínimo de quatro em 5 de abril para um máximo de 38 em 29 de abril. Durante a última semana de maio, o número de contrapartes diárias variou de 54 em maio 24 a 50 contrapartes em 27 de maio, dia em que os Reverse Repos do Fed atingiram uma alta histórica de US$ 485 bilhões.

O que significa uma alta histórica de US$ 485 bilhões nestas operações? Excesso de liquidez e sobrevalorização máxima dos ativos de Wall Street. O investidor veterano David Roche diz que os investidores devem ser cautelosos com o estouro da bolha. "Essas coisas sempre chegam ao fim e é muito difícil dizer qual será o catalisador que vai acabar com isso. Pode ser outra variante da Covid, no momento acho que é bastante improvável", disse ele.

"O mais provável [catalisador] na minha opinião é que o Fed na verdade seja forçado a parar de dar uma mensagem dupla e comece a ter que falar muito seriamente sobre os dias de estímulo monetário adicional e financiamento de déficits orçamentários [que estão] acabando", disse ele.

O problema reside exatamente no fato de que a simples menção do FED de reduzir os estímulos já causou um forte abalo em Wall Street. Com esta orgia financeira, o FED adentrou num labirinto sem o fio de Ariadne. Sair dele é que são elas. Afinal, com o excesso de liquidez e a sobrevalorização dos ativos com a taxa de juros dos treasures em máximos de 0.25%, o FED ficou embretado. Montou uma bomba relógio com graves consequências para os EUA e para a economia mundial.

Só o mais panglossiano pode acreditar que a inflação é algo temporário como alega Jerome Powell, presidente do FED. A inflação é mundial e veio para ficar. A subida vertiginosa das commodities vai ainda reverberar e será incorporada aos preços dos produtos pelos países manufatureiros. É risível a atitude dos EUA: os preços sobem só o único que não é o preço do dinheiro, o dólar, com taxas de juros perto de zero. E dê-lhe papel pintado na economia mundial.

Desde a eclosão da pandemia COVID-19, os bancos centrais das economias desenvolvidas têm afrouxado drasticamente sua oferta de moeda. Os saldos do Federal Reserve dos EUA cresceram para quase US$ 8 trilhões, dez vezes o volume de 2008, enquanto a proporção da dívida federal dos EUA em relação ao PIB atingiu um recorde desde a Segunda Guerra Mundial, de acordo com relatos da mídia.

Os balanços dos bancos europeus mais do que dobraram e, no Japão, aumentaram mais de um quarto. 

A flexibilização da oferta de moeda já desencadeou uma inflação generalizada em todo o mundo. Nos EUA, o Índice de Preços ao Consumidor subiu 4,7 por cento com relação ao ano anterior, ultrapassando o crescimento de 4,2 por cento em abril, que já era o ritmo de crescimento mais rápido em mais de 13 anos. 

No dia 2 de julho foram divulgados os dados de emprego nos EUA, o saldo dos empregos criados versus o aumento do desemprego foi negativo. Aumentou em 0,10, passou de 5,8% para 5,9%.

De acordo com um estudo da Oxford Economics em janeiro deste ano, o custo da guerra comercial com a China para os EUA foi de cerca de 0,5% do PIB em 2018-2019, cerca de 245.000 empregos e US$ 88 bilhões de renda familiar real. Se o cenário aumentar, o PIB dos EUA encolherá US$ 1,6 trilhão nos próximos cinco anos e resultará em 732.000 empregos a menos nos EUA em 2022.

A questão não é se, mas quando essa bolha vai explodir.

O que nos aguarda ali na frente é uma inflação de dois dígitos nos países centrais com sérias repercussões mundiais. Ainda estão vivas as lembranças da década de 70, onde uma inflação brutal, aumento da taxa de juros foi seguida de uma forte recessão.

Sobra às autoridades estadunidenses, dois caminhos, a continuar com essa injeção de liquidez. Uma estagflação ou uma recessão.

Qual o crédito que merece as promessas retóricas de Jerome Powell e Biden? O mesmo que Deodoro e Rui receberam quando desmoronou o Encilhamento.

Os ventos do Norte não movem moinhos.

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