O espelho

"O espelho é o espaço da formação do Eu e também é um lugar de ilusões. Bolsonaro, essa aberração que nós vemos, ele não é uma invenção de si mesmo, ele não apareceu do nada, em verdade, ele é um reflexo de nossa sociedade distópica e de nossas instituições deformadas"

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Em uma das versões da morte de Narciso a ninfa Eco ao saber desta fatalidade vai ao encontro do riacho Cefiso para informá-lo do ocorrido, e ao dizê-lo, Cefiso, chocado com o acontecimento, refletiu: “A morte de Narciso me abala profundamente, pois quando ele me contemplava e via a sua imagem refletida na lâmina d’água, eu também me via pelos seus olhos”.

O espelho oferece a possibilidade de contemplação da nossa própria imagem e também o da identificação imaginária do outro, além da projeção da nossa imagem no outro ou mesmo o de sermos o reflexo da imagem do outro. O espelho é o espaço da formação do Eu e também é um lugar de ilusões.

Farei aqui uma digressão, mas não tanto assim como veremos... Bolsonaro, essa aberração que nós vemos, ele não é uma invenção de si mesmo, ele não apareceu do nada, em verdade, ele é um reflexo de nossa sociedade distópica e de nossas instituições deformadas. O Golpe de 2016 abriu a tampa dos bueiros da sociedade e de nossas formas de organização e aí Bolsonaro que já estava ali há anos, há três décadas pelo menos, viu emergir sua força até então contida pelo quase anonimato, mas que àquele tempo se viu revigorado e rugiu como um monstro maldito, uma espécie de Minotauro antes preso em uma caverna e que fora solto... e solto está na buraqueira, como no dizer popular.

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Bolsonaro eleito presidente da república, sabe-se como, faz tudo e diz tudo o que lhe ocorre à cabeça, sem qualquer contenção e limite, é uma explosão de distopia, mas dele próprio apenas? Não! Da nossa sociedade, nisso que é histórico e que não falamos, também, evidentemente, das nossas instituições. Esse homem é a sonoridade e o reflexo de algo que rumina nas entranhas deste país, o que o torna ainda mais incômodo e difícil em combatê-lo.

A monstruosidade de Bolsonaro não é só dele, a coisa é mais ampla quão doentia. Lembremos que o Golpe de 2016 foi antes o de nossas instituições, tanto as do estado quanto as de largas frações da sociedade civil. Essa é uma verdade inconveniente, mas foi isso mesmo, e mais, foi um golpe daquilo que cogita e se especula em nossos espelhos, no que há de primordial nisso, a nossa imago, no que naturalizamos em nossa ignomínia anedótica, digamos assim.

O Golpe foi também daquilo que se materializou a partir de nossos humores e de nossa brutalidade que devassa o outro, faz pegadinhas, bullyings, e acha tudo muito engraçado e normal. Esse grande espelho que é a televisão, e hoje acrescentada pelas redes sociais expõem o tempo inteiro isso sem o menor filtro, e meio impercebido, ou nem tanto, incorporamos em nossos hábitos.

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Hoje não sabemos o que fazer com Bolsonaro, e as nossas instituições tampouco. Reitero: ele diz o que quer, faz as acusações que bem entende, ameaça de Golpe o tempo inteiro com o “seu Exército”, os seus filhos, idem, todos boquirrotos, grotescos, mal-educados, envolvidos em toda sorte de falcatruas, mas, e o que acontece?

Lembremos que no discurso crucial do Golpe contra Dilma Rousseff havia a ideia de faxina, da limpeza moral, da suposta superioridade dos que se envolveram naquela jornada, e observem o quanto é hipócrita esse discurso moralista, higienista. O quanto guarda de perversidades e canalhices.

Bolsonaro é tanto mais incômodo para uns tantos porque ele expõe a face crua não só a dele, mas desses outros já aqui citados. Ele é a mentira de que as Forças Armadas são instituições confiáveis. Ele é a explicitação de um judiciário (o poder e o sistema de justiça) que sempre operou para a Casa Grande. Ele é a manifestação de uma religiosidade dos que se lançaram em armas a Jesus Cristo, os lobos em pele de cordeiros, os mercadores da fé que tudo inverte em seus princípios e pregações. Ele é o estigma que dedicamos aos desvalidos, e que igualmente nega-lhes o acolhimento e a proteção social. Ele é a seriedade apregoada anos a fio pelo Jornal Nacional a jactar-se de si mesmo. Ele é o culto da ignorância crassa observado no discurso da anticiência. Ele é essa nossa generosidade cordial que bate em mulheres, massacra homossexuais, encerra indígenas, desconstitui negros, nordestinos e mata crianças. Ele é aquilo que fizemos com nossas crianças ao ponto de sentirmos medo delas nas ruas. Ele é o desprezo pelos velhos e é a erosão da língua. Ele é a corrupção dos seus que é denegada, projetada e atribuída aos outros. Ele é a poluição do ambiente, o declínio e a submissão de nossa soberania a nos tornar uma colônia allegro; o circo permanente sem o pão de cada dia. E ele é, ademais, essa lógica neoliberal de operar o Mercado subtraindo dos trabalhadores e dos pobres e acumulando mais e mais para uma burguesia ambiciosa, cretina e ociosa. Ele é, afinal, o poder do Estado a serviço disso.

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Bolsonaro é um incômodo espelho que não conseguimos falar e nomear a fim de encontrar uma outra expressão e caminho para a nossa sociedade, pois ele exibe, sem maquiagem, um rosto dela. Ele é esse bolo fecal que está entalado em nossa garganta.

Não basta afastar Bolsonaro seja interditando-o, aplicando o impeachment, cassando a chapa Bolsonaro-Mourão ou mesmo no voto em outubro de 2022...

É preciso vermos o quão ele é reflexo dos nossos espelhos, enquanto ele é imagem deformada de nós mesmos e aquilo que sustenta as nossas identificações imaginárias. Sem falar sobre isso, sem encarar esse supereu, não daremos passos importantes em direção à democracia, a justiça social de fato e de direito e a civilização. Essa figura horrenda não se trata com cosméticos ou cloroquinas, se trata encarando o real de nosso modo de funcionar e existir enquanto sociedade. Isso que a História e a Política nos reclama. E para muitos suponho também o Divã.

Como na canção de Caetano Veloso: “Narciso acha feio o que não é espelho”. E o ódio que tomou conta de nós, que nos roubou o espírito, é o afeto que insurge dessa noção bem distinguida na estrofe da canção, a saber, não suportamos o outro por ser diferente de nós, restando emudecê-lo e destruí-lo. Em uma frase: “A ditadura fez mal em só torturar, seria preciso matar uns trinta mil”.

Mas já foram mortos ou “cancelados” mais de quinhentos mil, e tantos milhões mais estão atônitos.

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