O experimento Milei: números, custos sociais e o espelho brasileiro
Melhora dos indicadores sob Milei expõe o alto custo social do ajuste e levanta dúvidas sobre sua sustentabilidade e seus efeitos na América Latina
A experiência recente da Argentina sob o governo de Javier Milei tornou-se, ao mesmo tempo, um laboratório econômico e um campo de disputa narrativa. Seus defensores apontam para indicadores macroeconômicos que melhoraram de forma rápida; seus críticos, para o custo social elevado e para a fragilidade dessa estabilização. O problema é que ambas as leituras, quando isoladas, simplificam um processo muito mais complexo — e profundamente político.
Os números, de fato, impressionam à primeira vista. A inflação, que chegou a superar 200% ao ano em 2023, recuou de forma significativa, aproximando-se da faixa de 30% anual ao longo de 2025. Trata-se de uma desaceleração expressiva, ainda que partindo de um patamar explosivo. Ao mesmo tempo, o governo anunciou superávit fiscal primário — algo que a Argentina não registrava de forma consistente há mais de uma década. A pobreza, que havia ultrapassado 40% da população, recuou para algo próximo de 28%, segundo estimativas recentes.
Mas é precisamente aqui que começa o problema analítico. Esses números não contam toda a história — e, em alguns casos, escondem mais do que revelam.
A queda da inflação, por exemplo, não foi resultado de uma expansão da oferta ou de um ganho estrutural de produtividade, mas de um ajuste recessivo profundo. O consumo interno despencou. O investimento produtivo permanece retraído. O crédito segue limitado. Em outras palavras, a inflação caiu também porque a economia foi comprimida.
O superávit fiscal, por sua vez, foi obtido por meio de um corte abrupto de gastos públicos. Subsídios foram eliminados, programas sociais reduzidos e o investimento estatal praticamente paralisado. A consequência direta foi a deterioração do mercado de trabalho: aumento da informalidade, perda de renda real e retração do emprego em diversos setores.
Mesmo o recuo da pobreza exige leitura cautelosa. Parte desse movimento decorre de ajustes estatísticos e da própria volatilidade dos indicadores em contextos de crise profunda. Ao mesmo tempo, relatos consistentes indicam que amplos segmentos da população experimentam piora nas condições de vida, com dificuldade crescente de acesso a bens básicos e serviços.
Essa dissociação entre indicadores macroeconômicos e experiência social aparece de forma clara nas pesquisas de opinião. Mais de 50% dos argentinos avaliam o governo como ruim ou péssimo e, em algumas sondagens recentes, a desaprovação ultrapassa 60%. Ou seja, há melhora em certos números, mas não há consolidação de legitimidade social.
Esse descompasso não é novo na história econômica. Programas de ajuste frequentemente produzem ganhos rápidos em indicadores fiscais e monetários, ao custo de contração econômica e aumento da desigualdade. O ponto central é que, sem uma estratégia de crescimento e recomposição produtiva, esses ganhos tendem a ser frágeis.
É nesse contexto que a dimensão geopolítica ganha relevância — e ajuda a entender o sentido mais amplo do projeto em curso.
O alinhamento político de Javier Milei com Donald Trump sinaliza uma inserção internacional baseada em afinidade ideológica e em uma agenda econômica liberalizante, com forte abertura externa e redução do papel do Estado. Trata-se de uma estratégia que aposta na reintegração da Argentina a um eixo liderado pelos Estados Unidos, em contraste com iniciativas de maior autonomia, como o fortalecimento do BRICS.
Essa escolha tem implicações concretas. Ao se afastar de mecanismos de cooperação Sul-Sul e de alternativas ao sistema financeiro internacional tradicional, a Argentina tende a reforçar sua dependência de fluxos financeiros externos e de organismos multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional. Em um mundo marcado por tensões geopolíticas e fragmentação econômica, essa posição pode aumentar a vulnerabilidade do país.
O paralelo com o Brasil é inevitável — e revelador.
Enquanto a Argentina segue um caminho de ajuste acelerado, com forte contração do Estado, o Brasil, sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, tem buscado uma estratégia mais equilibrada entre responsabilidade fiscal e manutenção de políticas sociais. Ainda que enfrente suas próprias limitações — crescimento moderado, restrições fiscais e juros elevados —, o país preserva uma rede de proteção social mais ampla e uma capacidade maior de indução econômica.
Do ponto de vista geopolítico, a diferença é ainda mais marcante. O Brasil aposta em uma inserção diversificada, fortalecendo relações com a China, ampliando o papel do BRICS e defendendo uma ordem internacional mais multipolar. A Argentina, ao contrário, opta por um alinhamento mais direto com os Estados Unidos, especialmente sob a influência política de Donald Trump.
Não se trata apenas de escolhas diplomáticas. Trata-se de modelos de desenvolvimento.
O experimento argentino mostra que é possível reduzir rapidamente a inflação e ajustar as contas públicas — mas com custos sociais elevados e riscos estruturais. O caso brasileiro, por sua vez, indica as dificuldades de equilibrar estabilidade macroeconômica com inclusão social em um ambiente global adverso.
A questão que permanece em aberto é se a Argentina conseguirá transformar esse ajuste em uma trajetória sustentável de crescimento ou se estará apenas reorganizando sua economia em bases mais frágeis, mais desiguais e mais dependentes.
Para o Brasil, a lição é clara. O debate econômico não pode ser reduzido a indicadores isolados. Estabilidade de preços e equilíbrio fiscal são importantes, mas não suficientes. O verdadeiro teste de um projeto econômico é sua capacidade de gerar crescimento, reduzir desigualdades e preservar a coesão social.
A experiência argentina, ainda em curso, funciona como um alerta — e como um espelho incômodo do que está em disputa na América Latina.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
