O fascismo e os bunda-moles. (ou, o dia que o PT contou tudo)

Vamos revelar o Brasil real. Vamos desmistificar a política. Vamos entender a ciência do poder. Conta tudo, Lula! Conta tudo, PT! Conta tudo, Ciro Gomes! Contem tudo, todos aqueles que sabem. Só assim, deixaremos de ser os bunda-moles e poderemos destruir o Ur-Fascismo, ou, pelos menos, voltar a pô-lo a dormir

EX-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em meio ao povo
EX-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em meio ao povo (Foto: Heraldo Tovani)

Há quem ache anacrônico o termo "fascista", pois consideram que um fenômeno político-social nascido em 1919, na Itália, não se aplica ao Brasil de um século depois.

Sim, de fato as conjunturas são muito diferentes. Porém, o termo "fascismo" designa uma forma de dominação, de práticas e um discurso que extrapolam datas e locais.

Umberto Eco, pensador italiano que estudou e viveu o fascismo, tem um texto lapidar sobre o caráter eterno do fascismo, que ele chama de Ur-Fascismo.

No texto, intitulado "O Fascismo Eterno", de 1995, Umberto Eco relaciona 14 tópicos de atitudes ou eventos que revelam faces do Ur-Fascismo.

As semelhanças com o atual momento político brasileiro são reveladoras e constrangedoras.

No Brasil, onde já disseram que a política não é coisa para amadores, as nossas particularidades por um lado escancaram, por outro, escamoteiam o nosso fascismo de cada dia.

Tudo aqui, porém, corrobora a frase de Bertold Brecht: "A cadela do fascismo está sempre no cio".

Pelo menos desde a década de 1930 as ondas fascistas estão sempre prontas para emergir, a qualquer pequena ruptura na ordem institucional brasileira.

Nos anos 30, os integralistas, liderados por Plínio Salgado, emergiram da crise oligárquica que desembocou na Revolução de 30. Seus quadros chegaram perto de um milhão de filiados. Organizados em milícias armadas, confrontavam os militantes de esquerda, em várias batalhas de rua. Defendiam e imitavam seu líder mundial, Benito Mussoline, inclusive com suas versões tupiniquins das vestimentas e da saudação, "Anauê".

Tudo declaradamente fascista.

Plinio Salgado foi um dos articuladores do golpe de 1937, que sepultou a raquítica democracia brasileira.

Um golpe de Estado, para justificar-se, precisa de um inimigo nacional.

Um destacado integralista das Forças Armadas, o Capitão Olímpio Mourão Filho, criou o factoide que Getúlio Vargas necessitava para justificar o golpe: O Plano Coem, um documento falsificado, que falava de um suposto complô comunista para tomar o poder no Brasil.

No dia primeiro de novembro de 1937, os integralistas realizaram uma grande manifestação em frente ao Palácio do Catete, sede do Governo, apoiando Getúlio Vargas e contra os vermes comunistas que queriam tomar o poder no país.

No dia 10 do mesmo mês, Getúlio dá o Golpe e implanta a ditadura, que iniciaria os 15 anos de terror do Estado Novo.
Getúlio Vargas, no entanto, viria a proibir a existência de todos os partidos, e o integralismo foi traído. Plínio Salgado saiu do Brasil e só voltou com o processo de redemocratização, em 1945. Ironicamente, só a democracia, contra a qual ele conspirou, permitiu o seu renascimento político.

Em 1950, Getúlio Vargas volta, pelo voto, ao governo. Sua plataforma é solidamente assentada no desenvolvimentismo econômico de cunho nacionalista e no trabalhismo, ou seja, no fortalecimento da indústria nacional e na valorização do trabalho e do trabalhador.

A elite nacional e seus eternos representantes no parlamento e na imprensa colocam-se em oposição a esse projeto.

A cadela do fascismo voltava a parir.

Nas Forças Armadas um forte movimento ameaça as instituições democráticas e o clima de instabilidade se implanta.

O desfecho dessa história é amplamente conhecido e desemboca no suicídio de Getúlio Vargas.

Suicídio esse que frustrou a nova tentativa das forças fascistas de golpear a democracia.

Como sabemos, um golpe de Estado, para justificar-se, precisa de um inimigo nacional.

Então, repetindo o método já utilizado em 1937, as forças de oposição recorreram à fórmula infalível de provocar terror na população idiotizada: Apelaram para o perigo comunista.

Propagandearam com intensidade, por toda a imprensa, um novo factoide, um plano secreto de Getúlio Vargas de se unir a Juan Carlos Perón, da Argentina e João Goulart para instaurar no Brasil uma república sindicalista.

Estavam prestes a consolidar um novo golpe no Brasil.

O suicídio, último ato político de Getúlio Vargas, derrotou os golpistas. Ao menos, momentaneamente.

Juscelino Kubitschek penou com diversas investidas de fascistas. Mas, nesse momento, as forças reacionárias estavam muito enfraquecidas, por um lado, pela habilidade política de JK e, por outro, pelo trauma do suicídio de Getúlio, que ainda provocava desconfianças e revoltas contra aqueles que o forçaram ao ato extremo.

É em 1963 que o discurso fascista volta a ter força.

A instituição fascista TFP (Tradição, Família e Propriedade), de Plínio Correa de Oliveira, apoiada pelo outro Plínio, o Salgado, promovem a grande marcha da família com Deus contra o Comunismo, que apoiava do golpe militar.

Mais uma vez, um golpe de Estado, para justificar-se, precisa de um inimigo nacional.

Utilizando o mesmo discurso de 1937 e 1954 permitiram que em 1964 os militares inaugurassem a ditadura, que durou 21 anos.

Chega a ser enfadonha a repetição do mesmo discurso, vezes sem fim, sempre que a população pobre se vê na eminência de ser minimamentecontemplada por alguma política de governo.

Nenhum dos discursos que vemos espalhar-se hoje é novo, é a mesma repetição do velho discurso das elites tacanhas e reacionárias que não querem dividir um mínimo do poder que acumulam ditatorialmente, deste sempre.

Nossa situação atual é só um espelhamento desse cansativo discurso fabricado e repetido constantemente, no Brasil.
Vivemos hoje mais uma fissura da ordem institucional, que insiste em repetir-se de tempos em tempos, desde pelo menos o início do século XX.

É sempre a mesma luta das elites dominantes contra a democracia, sempre que esta procura se consolidar.

O novo discurso da direita, hoje com a nova embalagem do liberalismo, é totalmente Ur-fascista.

O discurso Ur-Fascista vem se constituindo desde as eleições de 2014.

A grande imprensa foi, mais uma vez, sua maior divulgadora e incentivadora ao rebaixar a discussão política a uma briga de torcidas.
Lembremos que a os jornais, todos eles, divulgavam abundantemente mapas do Brasil dividido entre o sul/sudeste, tingidos de azul e o norte/nordeste, pintados em vermelho, na distribuição das intensões de votos.

A Folha de São Paulo chamava de FlaxFlu a disputa que deveria ser política e programática.
A vitória de Dilma, que deveria coroar o processo democrático, virou frustração, reavivando até os sentimentos humilhantes da derrota de 7x1, na copa do mundo.

A quebra dos compromissos de campanha de Dilma Roussef, logo ao assumir o segundo mandato, foi o erro histórico que abriu caminho aos discursos Ur-Fascistas de todas as colorações. Isso foi repisado exaustivamente pela grande imprensa.

Se olharmos no texto de Umberto Eco, o sexto ponto de seus 14 tópicos de uma conjuntura Ur-Fascista, entenderemos que as intenções das críticas da grande imprensa iam além do interesse jornalístico.

"6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos".

Vale lembrar que esse texto, que parece ter sido escrito por alguém que olhava as manifestações pelo impeachment de uma janela da Av. Paulista, em 2016, foi escrito na Itália, em 1995.

O discurso Ur-Fascista avançou até conseguir o êxito extraordinário de colocar milhões de pessoas nas ruas pedindo a cassação da presidente.

Era uma multidão de classe média frustrada, desvalorizada por uma crise econômica e humilhada pela política. Assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos que, em seus peitos verdeamarelados, conjuravam e purgavam também, com suas camisas da CBF, o vexame da fragorosa derrota contra a Alemanha, em pleno solo nacional.

Imediatamente após o Golpe e a vitória sobre a democracia, uma horda fascista assustadora avançou sobre população e sobre os seus direitosadquiridos.

A truculência das polícias aumentou proporcionalmente ao avanço político dos conservadores.

Tudo virou alvo do ódio Ur-Fascista: As escolas, os movimentos sociais, a aposentadoria, os direitos trabalhistas, os artistas, a cultura, oInstituto Lula, o próprio Lula, os projetos sociais, o PT e os partidos de esquerda, o movimento LGBT, a UNE, a CUT...

O desmatamento deu um salto assustador, respaldado pelo súbito crescimento do poder adquirido pelos ruralistas.

As reservas indígenas estão hoje sob ameaça e a violência no campo multiplica suas vítimas entre os mais vulneráveis.

 

O quadro geral já nos permite comparar o fascismo historicamente registrado com a nossa conjuntura atual.

É claramente Ur-Fascista, por exemplo, a humilhação imposta pela polícia aos movimentos sociais, quando há manifestações de rua.

A humilhação é uma arma poderosa do Ur-Fascismo.

É Ur-Fascismo quando, em outro exemplo, o procurador Deltan Dallagnol conjuga à sua fé protestante uma missão messiânica de combate àcorrupção e transforma tudo isso em espetáculo televisivo.

A corrupção, aliás, pelo seu apelo popular, é um dos temas preferidos dos Ur-Fascistas.

A demonstração de força do superior sobre o inferior é um pressuposto essencial do UR-Fascismo. Foi essa demonstração que Michel Temer quis, ao convocar o exército às ruas, em Brasília.

Dificilmente acharemos demonstração mais claramente fascista do que a internação compulsória aos desvalidos da Cracolândia, em São Paulo, proposta pelo Prefeito Dória e seu padrinho, o Governador Alkmim.

E, por se tão óbvio, caricato e hipócrita não falaremos aqui de Jair Bolsonaro, está implícito.

A construção de uma tese Ur-Fascista de salvação nacional exige a identificação de um inimigo nacional.
Re-repitindo, porque nunca é demais, um golpe de Estado, para justificar-se, precisa de um inimigo nacional.

Aqui no Brasil, essa construção está em pleno desenvolvimento.

A velha estratégia desse discurso consiste em primeiramente simplificar tudo, achando-se uma conspiração contra os interesses do país. E aqui já ouvimos fartamente a tese de que o PT formou uma quadrilha de corrupção para seu plano de perpetuação no poder. Depois, o discurso quer unificar os movimentos Sociais, os Direitos Humanos, os Sindicatos, os Partidos de esquerda, a CUT, UNE, MST e tudo o que se vincula a direitos populares, em uma só sigla: PT.

Aí está, pronto e já construído o inimigo nacional.

Já foi, em outras épocas, o perigo comunista, em 1937; a república sindicalista, em 1954; a volta do comunismo, em 1963 agora é o bolivarianismo sindicalista do PT.

Bem, isso posto, ficamos com a questão a responder: O que fazer?

Umberto Eco, no final de seu texto conclui e aconselha:

"O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas — a cada dia, em cada lugar do mundo".

E aqui está exatamente o que não fazemos.

Quem já, como eu, tem pouco amor próprio e está imune ao despudor e a canalhice, e assiste TV Senado ou TV Câmara, amarga a cada discurso dos representantes do DEM, PSDB e PMDB, a uma repetição, como um mantra, de frases como "O PT destruiu a economia nacional",

"O PT é o culpado pelos 14 milhões de desempregados", "O PT é responsável pela maior corrupção da história desse país", "Era uma quadrilha no poder", "Enquanto estavam no poder, não fizeram nada e agora têm a cara de pau de vir criticar".

E ficamos lá, horas e horas esperando a resposta salvadora, o desmascaramento do discurso enganoso, a denúncia ao discurso Ur-Fascista, e nada. Nenhuma contradita, nenhuma revolta.

Vi o Senador Paulo Paim (a quem respeito) ao criticar o horário de almoço de 30 minutos, proposto na reforma trabalhista, dizer: "Tem um senador aqui propondo 15 minutos de horário de almoço. Não vou dizer seu nome em respeito ao senador".

Como? Que respeito esse senador merece?

Desculpe, mas é um desrespeito ao trabalhador respeitar um senador que propõe 15 minutos de almoço.
Estão construindo um discurso do inimigo nacional. Estão dizendo que somos nós. Estão se auto construindo como os salvadores éticos da nação. E nós estamos calados, escutando impassíveis e nem mesmo umazinha veia de ódio nos salta.

Seremos assim, de fato, tão bunda-moles?

O PT conviveu 13 anos no cargo maior da administração pública do país.

Conviveu com toda a elite nacional e sabe como é a sua forma de transar com a política.

Conheceu como funcionam as relações nacionais e internacionais.

Sabe onde estão as esquinas, as transversais e os cruzamentos do poder.

Está na hora de cumprir seu papel histórico de Partido dos TRABALHADORES e dizer aos seus trabalhadores como funciona e como se realiza o poder no Brasil.

Não importa quanto custe. Não importa a quem fira.

O fascismo histórico, o Ur-Fascismo assim como qualquer ditadura são formas de governo eficazes para a manutenção do poder do capital. Só existem se forem financiadas por esse capital.

Defender o fascismo é defender o capital na sua forma mais tirânica.

Tristemente, no entanto, vemos aqueles que serão os mais prejudicados pelo Ur-Fascismo defendendo suas teses e pontos de vista.

Estamos perdendo esse jogo por mais de 7x1.

Só viraremos o jogo com a educação política dos trabalhadores e dos pobres desse país.

Se queremos um mundo novo, precisamos saber como o velho funciona.

Quem financia a política no Brasil?

Por que financiam?

O que ganham em troca?

Quais foram os políticos que votaram a favor de seus financiadores e contra o povo?

Quais financiadores foram beneficiados?

Por que o Brasil optou pela política econômica neoliberal de superávit primário em prejuízo ao investimento?

Qual é o real poder do sistema financeiro sobre o governo brasileiro?

Por que se permitiu o Swap Cambial, que, com garantias do governo, desvia dinheiro público para o sistema financeiro privado?

Qual é o real poder da Rede Globo no Brasil?

Por que a imprensa brasileira é um cartel?

Quem é contra a radicalização da democracia no país?

Como funciona a ação dos lobistas sobre o congresso e sobre o governo?

Quem são e como agem as poucas famílias milionárias que controlam o país?

Precisamos urgentemente das armas do conhecimento, da educação popular, do empoderamento político das classes populares e dos trabalhadores para fazermos frente ao poderoso discurso Ur-Fascista, que já seduz grande parcela da população despolitizada.

Vamos revelar o Brasil real.

Vamos desmistificar a política.

Vamos entender a ciência do poder.

Conta tudo, Lula!

Conta tudo, PT!

Conta tudo, Ciro Gomes!

Contem tudo, todos aqueles que sabem.

Só assim, deixaremos de ser os bunda-moles e poderemos destruir o Ur-Fascismo, ou, pelos menos, voltar a pô-lo a dormir.

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