O filisteísmo acadêmico

Esta investida contra a Plataforma Lattes pelos atuais gestores da educação no país se configura como uma manifestação grosseira do mais raso antiintelectualismo a serviço de interesses do mercado, sobretudo das empresas privadas de educação e treinamento da mão de obra

O filisteísmo acadêmico
O filisteísmo acadêmico (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

A expressão "filisteísmo acadêmico" deve-se à crítica iconoclasta do filósofo Friedrich Nietzsche ao sistema universitário alemão de sua época. Dizia Nietzsche que os pensadores de sua geração só se preocupavam com a carreira e as conquistas sociais e profissionais que ela podia proporcionar. Saberes retóricos sem nenhuma importância para vida. A estes, teria consagrado Goethe a sua famosa frase: "cinzenta é toda teoria. Verde é a árvore da vida".

Essas considerações vem à tona no momento em que se cogita no MEC de por fim o sistema de avaliação da carreira universitária através de consulta e alimentação da chamada "plataforma Lattes", penosamente aperfeiçoada pela Capes e CNPq. Quero dizer, inicialmente, que sempre tive muitas reservas a esse sistema de avaliação do trabalho docente. Como estudante da Filosofia, desde meus tempos de colegial, nunca apreciei os critérios quantitativos e cartoriais dessa maneira de julgar o conhecimento produzido no âmbito das universidades. Chamo a este sistema avaliativo de Taylorismo acadêmico, ou o produtivismo universitário. Avaliar o valor pela quantidade, expresso em certificados, papéis e publicações. O nosso atual ensino de pós-graduação está escorado nesse tipo de julgamento. Ou seja, pouco importa a relevância social desse conhecimento.

Apesar dessas críticas, nada justifica o ódio ao conhecimento, as universidades e aos professores demonstrado pelo atual governo, através de seus gerentes e prepostos. A atual disposição do atual ministro em substituir a militarização das escolas pelas parcerias público-privadas com as fundações empresariais e religiosas é muito grave, não só pelo progressivo refinanciamento público da educação (através do mecanismo das desvinculações das rubricas constitucionais), mas sobretudo pelo caráter instrumental, técnico, pragmático de um tipo de educação - de perfil aligeirado - para um mercado de trabalho em crise e desregulado. Educar para a exploração selvagem e irrefreada da mão de obra barata.
Esta investida contra a Plataforma Lattes pelos atuais gestores da educação no país se configura como uma manifestação grosseira do mais raso antiintelectualismo a serviço de interesses do mercado, sobretudo das empresas privadas de educação e treinamento da mão de obra. Ela vem se somar aquela outra declaração da desnecessidade dos nordestinos estudarem filosofia, história, sociologia, artes etc.

Para os filhos da elite econômica e social, um tipo de educação integral e humanista. Para os filhos do povo, outra. É assim vai se reproduzindo a desigualdade de classes e regiões no Brasil.

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