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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O filme, o banco e a implosão do bolsonarismo

O escândalo Vorcaro atingiu Flávio, Eduardo e abriu na direita a discussão que parecia impossível: insistir no sobrenome Bolsonaro ainda é viável em 2026?

Flávio Bolsonaro, agente da PF, Daniel Vorcaro e, ao fundo, Congresso e Banco Master (Foto: Reprodução I Divulgação )
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Até poucas semanas atrás, a extrema direita brasileira acreditava ter resolvido o problema da sucessão presidencial de 2026. 

Com Jair Bolsonaro preso e condenado, o bolsonarismo apostava na transferência do capital político da família para um dos filhos do ex-presidente. O favorito era Flávio Bolsonaro. 

As pesquisas mostravam empate técnico com Lula em vários cenários. O PL tratava sua candidatura como prioridade estratégica. Parte do mercado financeiro passou a enxergá-lo como o nome “menos tóxico” do clã Bolsonaro. E a máquina digital bolsonarista já operava em ritmo eleitoral. 

Então veio Daniel Vorcaro. 

O banqueiro do Banco Master — preso e investigado em múltiplas frentes — atravessou o coração do projeto eleitoral bolsonarista e abriu uma crise que já não é apenas policial ou financeira. 

O caso começou a produzir efeitos eleitorais concretos, imediatos e potencialmente devastadores. 

O que parecia um escândalo periférico transformou-se numa pergunta central da política brasileira: 

A direita continuará insistindo num candidato da família Bolsonaro? 

O filme, os áudios e as contradições 

A crise explodiu quando vieram à tona mensagens, áudios e relatos envolvendo negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, produção destinada a transformar Jair Bolsonaro em personagem épico da extrema direita internacional. 

O projeto teria participação do ator Jim Caviezel — conhecido por “A Paixão de Cristo” — e fazia parte de uma tentativa mais ampla de reconstrução internacional da imagem do bolsonarismo após o fracasso do governo Jair Bolsonaro — cumprindo pena de 27 anos e três meses de prisão — e do golpe de 8 de janeiro de 2023. 

O problema político surgiu quando as revelações começaram a contradizer frontalmente declarações públicas do próprio Flávio Bolsonaro. 

Durante semanas, o senador negou vínculos com Vorcaro. Chamou reportagens de “mentira”. Atacou jornalistas. Disse não possuir relação com o banqueiro. Depois, diante da divulgação dos áudios e mensagens, acabou admitindo reuniões, conversas e tratativas ligadas ao financiamento do filme. 

A reversão produziu estrago imediato. 

A Reuters informou que aliados de Flávio “entraram em pânico” após os vazamentos e passaram a discutir reservadamente os danos eleitorais do episódio. Setores do PL consideram que o senador administrou a crise “de forma desastrosa”. 

O caso deixou de ser apenas um problema jurídico. 

Virou um problema de credibilidade política. 

O banco e a máquina 

Mas o centro da crise talvez não esteja apenas no filme. 

Está no banco. 

E na máquina política construída em torno dele. 

As investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master já avançam sobre operações envolvendo figuras centrais do Centrão, governadores, fundos públicos e estruturas de poder espalhadas por vários estados brasileiros. 

O nome de Daniel Vorcaro começou a aparecer ligado: 

  • ao aporte bilionário do BRB no Banco Master;  
  • aos R$ 400 milhões da previdência dos servidores do Amapá;  
  • a operações envolvendo governos estaduais;  
  • e a relações profundas com setores da direita e da extrema direita.  

É nesse ambiente que a ligação direta de Flávio Bolsonaro com Vorcaro se torna explosiva. 

Porque o senador deixa de aparecer apenas como beneficiário político indireto de um sistema de poder. 

Passa a surgir conectado pessoalmente ao operador financeiro que se transformou no epicentro do maior escândalo financeiro da história recente do Brasil. 

O vídeo divulgado pelo canal Canadá Diário Notícias na quinta-feira, 15 de maio — “O escândalo de Flávio Bolsonaro e Vorcaro ficou pior: o filme, o banco e a máquina” — sintetiza precisamente essa engrenagem. 

Não se trata apenas de um filme. 

Nem apenas de um banco. 

Mas da articulação entre dinheiro, política, propaganda ideológica, financiamento de poder e projeto eleitoral. 

O caso sobe de nível 

A nova reportagem publicada pelo The Intercept Brasil alterou novamente a dimensão política do escândalo. 

Segundo documentos divulgados pelo Intercept, Eduardo Bolsonaro possuía poderes formais sobre movimentações financeiras do projeto “Dark Horse”. 

A revelação é politicamente devastadora porque desmonta a tentativa de restringir o caso a Flávio Bolsonaro. 

O escândalo deixa de parecer um episódio isolado. 

E passa a indicar a existência de uma engrenagem familiar, política e financeira muito mais ampla. 

O “Dark Horse” surge agora não apenas como um filme. 

Mas como parte de uma operação internacional de reconstrução do bolsonarismo após o fracasso do golpe de 8 de janeiro de 2023. 

Eduardo Bolsonaro e a ofensiva contra o Brasil 

A nova revelação do Intercept recoloca no centro do debate o papel desempenhado por Eduardo Bolsonaro desde que deixou o Brasil, em abril de 2025, para viver nos Estados Unidos. 

Eduardo mudou-se com a família para o ambiente político do trumpismo radical justamente quando Jair Bolsonaro enfrentava o avanço das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado. 

Nos EUA, intensificou relações com assessores próximos de Donald Trump e com figuras centrais da extrema direita internacional, especialmente Steve Bannon. 

Ao longo desse período, Eduardo tornou-se uma espécie de operador internacional do bolsonarismo. 

Atuou politicamente contra decisões do Supremo Tribunal Federal brasileiro, promoveu campanhas internacionais contra instituições brasileiras e passou a defender sanções políticas e diplomáticas contra autoridades do próprio país que o elegeu com mais de um milhão de votos. 

Agora, a revelação de que possuía poderes formais sobre movimentações financeiras do “Dark Horse” amplia ainda mais o alcance político do escândalo. 

O filme deixa de parecer apenas uma produção cinematográfica. 

Passa a surgir como peça de um projeto internacional de reconstrução política do bolsonarismo após o fracasso da tentativa golpista de 2023. 

O impacto imediato sobre 2026 

O efeito político foi quase instantâneo. 

A nova pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quinta-feira mostrou Lula abrindo vantagem sobre Flávio Bolsonaro no primeiro turno: 

  • Lula: 39%  
  • Flávio: 33%  

Há poucas semanas, vários cenários mostravam empate técnico ou até vantagem marginal do bolsonarismo. 

Agora, o cenário mudou. 

No segundo turno, Lula aparece numericamente à frente: 

  • Lula: 42%  
  • Flávio: 41%  

Embora dentro da margem de erro, o dado politicamente importante é outro:
a candidatura Flávio começou a perder força exatamente quando o escândalo Vorcaro explodiu nacionalmente. 

O CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, afirmou que as chances de reeleição de Lula “dispararam” após as revelações envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. 

A Bloomberg também registrou o abalo político produzido pelo caso. 

O nome Bolsonaro voltou ao centro do noticiário — mas agora associado: 

  • a investigações;  
  • a banqueiros presos;  
  • a áudios vazados;  
  • a contradições públicas;  
  • e ao colapso do Banco Master.  

A direita começa a procurar saída 

O dado talvez mais importante ainda esteja ocorrendo longe dos microfones. 

Nos bastidores. 

A imprensa brasileira e internacional já começou a registrar especulações sobre a possibilidade concreta de Flávio Bolsonaro desistir da candidatura presidencial. 

O jornal britânico The Guardian informou que setores conservadores passaram a discutir discretamente alternativas ao nome de Flávio após o escândalo. 

Em Brasília, cresce a percepção de que a permanência da candidatura pode contaminar toda a direita. 

É aí que entram as movimentações da chamada direita liberal-conservadora. 

Governadores como Ronaldo Caiado e Romeu Zema acompanham atentamente o desgaste do bolsonarismo. 

O cálculo é evidente:
se a marca Bolsonaro entrar em colapso eleitoral, abre-se espaço para uma candidatura conservadora sem o peso judicial, policial e financeiro que hoje cerca o clã. 

Até pouco tempo atrás, o debate era:
“qual Bolsonaro enfrentará Lula?” 

Agora, outra pergunta começa a circular:
“insistir num Bolsonaro ainda é eleitoralmente viável?” 

O início da sucessão do bolsonarismo? 

Talvez este seja o verdadeiro significado histórico do Caso Vorcaro. 

O escândalo não atingiu apenas um senador. 

Pode ter atingido o próprio modelo político construído pelo bolsonarismo desde 2018. 

Um modelo baseado: 

  • em radicalização permanente;  
  • guerra digital;  
  • redes de financiamento opacas;  
  • alianças com setores do mercado;  
  • estruturas religiosas;  
  • e construção industrial de propaganda política.  

O filme Dark Horse — “Azarão” — deveria funcionar como instrumento de reconstrução épica do bolsonarismo internacional. 

Acabou se transformando no símbolo de sua crise. 

A pergunta que atravessa Brasília nesta metade de maio de 2026 já não é apenas se Lula será reeleito. 

A pergunta é outra: 

A extrema direita brasileira ainda conseguirá chegar unificada a outubro sob o sobrenome Bolsonaro — ou o Caso Vorcaro abriu oficialmente a disputa pelo espólio político do bolsonarismo? 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.