O fim da presunção de autenticidade
A ameaça mais grave não é a mentira vencer a verdade, mas a perda dos critérios capazes de separá-las
Em junho de 1971, o jornal The New York Times iniciou a publicação dos Pentagon Papers, um conjunto de documentos sigilosos que revelou como sucessivos governos norte-americanos haviam ocultado informações relevantes sobre a Guerra do Vietnã. Um ano depois, em 17 de junho de 1972, cinco homens foram presos dentro do complexo Watergate, em Washington. A investigação conduzida por Bob Woodward e Carl Bernstein expôs uma estrutura clandestina de espionagem política que levaria Richard Nixon à renúncia em agosto de 1974. Em 2013, os arquivos revelados por Edward Snowden mostraram a amplitude dos programas globais de vigilância eletrônica dos Estados Unidos. Em 2016, os Panama Papers descortinaram redes financeiras utilizadas para ocultar fortunas em diversas jurisdições.
O impacto desses episódios não decorreu exclusivamente dos documentos que vieram à luz. Documentos não derrubam presidentes, não constrangem governos e não alteram decisões de Estado.
Para que adquiram relevância histórica, precisam ser examinados, confrontados, contextualizados e submetidos à verificação independente. É esse processo que separa evidências de alegações.
Quando provas resistentes ao escrutínio público encontram instituições capazes de examiná-las, informações antes ocultas deixam de ser registros privados e passam a integrar a história pública de uma nação. Watergate, os Pentagon Papers, os arquivos de Snowden e os Panama Papers produziram consequências duradouras porque percorreram exatamente esse caminho.
Essa observação ajuda a compreender uma característica fundamental da civilização moderna. Tribunais, universidades, bancos centrais, mercados financeiros, organismos multilaterais, agências reguladoras e redações funcionam apoiados numa premissa compartilhada: a existência de mecanismos capazes de estabelecer fatos com grau razoável de confiabilidade. Sem essa capacidade, contratos tornam-se frágeis, sentenças perdem legitimidade e decisões públicas passam a repousar sobre terreno instável.
A construção desse sistema consumiu séculos. A Bíblia impressa por Johannes Gutenberg em Mogúncia, concluída por volta de 1455, não representou apenas um avanço técnico na reprodução de textos. Ela ajudou a consolidar a ideia de que registros poderiam ser preservados, comparados e auditados. Nos séculos seguintes, arquivos públicos, registros civis, escrituras, balanços empresariais e procedimentos administrativos passaram a compor uma infraestrutura destinada a responder a uma pergunta simples e decisiva: o que realmente aconteceu?
Ao longo desse percurso, a imprensa conquistou uma posição singular. A partir do final do século XVIII, consolidou-se a compreensão de que ocupava um lugar inédito na arquitetura do poder. Não governava, não legislava nem julgava, mas podia produzir consequências concretas sobre os três. Dessa percepção nasceu a expressão “quarto poder”, destinada a descrever uma instituição cuja força não derivava da autoridade legal, mas da capacidade de transformar informações verificadas em fatos públicos capazes de constranger governos, derrubar reputações e alterar o curso de decisões nacionais.
Fraudes documentais acompanharam todas as épocas. Nenhuma sociedade esteve imune a falsificações, testemunhos mentirosos ou registros adulterados. A diferença é que fabricar uma evidência convincente exigia recursos, especialização técnica e elevado risco de exposição. A mentira encontrava barreiras materiais que limitavam sua escala e sua velocidade de disseminação.
É justamente esse equilíbrio histórico que começa a ser rompido. Grande parte das análises sobre inteligência artificial concentra-se nos impactos sobre empregos, produtividade ou modelos de negócios. Considero que a transformação mais profunda ocorre em outro plano. Pela primeira vez desde a invenção da imprensa, tornou-se economicamente viável produzir em massa evidências plausíveis sem a existência do fato correspondente.
Essa mudança não afeta apenas a comunicação. Ela alcança os mecanismos utilizados para arbitrar disputas sobre a realidade. Quando uma fotografia, uma gravação ou um vídeo deixam de possuir vínculo presumido com um acontecimento verificável, o problema deixa de ser tecnológico e passa a ser institucional. O que está em questão não é apenas a autenticidade de um conteúdo específico. É a credibilidade dos instrumentos utilizados para estabelecer fatos.
Vejo aí uma ruptura mais séria do que muitos imaginam. A modernidade construiu sistemas complexos de confiança impessoal. Milhões de pessoas assinam contratos com desconhecidos, depositam recursos em bancos administrados por pessoas que jamais encontrarão e aceitam decisões produzidas por instituições que não conhecem pessoalmente. Esse arranjo funciona porque existe a expectativa de que registros, auditorias, documentos e evidências possam ser submetidos à verificação independente.
Quando essa expectativa enfraquece, não desaparece apenas a confiança. Enfraquece também a legitimidade. Nenhuma democracia funciona adequadamente quando parcelas crescentes da população acreditam que toda evidência pode ser fabricada, toda investigação pode ser manipulada e todo fato pode ser reinterpretado conforme conveniências políticas. A suspeita permanente não produz cidadãos mais críticos. Produz sociedades incapazes de construir consensos mínimos sobre a realidade.
Esse cenário interessa a grupos radicais de diferentes orientações ideológicas. Nem sempre o objetivo consiste em fazer prevalecer uma versão específica dos acontecimentos. Frequentemente, basta destruir a credibilidade dos mecanismos encarregados de verificá-los. Quando desaparecem árbitros reconhecidos, fatos e boatos passam a disputar o mesmo espaço público. A verdade deixa de ser examinada. Passa a ser escolhida.
Hannah Arendt percebeu esse risco ao analisar os totalitarismos do século XX. O êxito da manipulação sistemática não depende necessariamente de convencer todos sobre uma mentira particular. O resultado mais perigoso surge quando as pessoas deixam de acreditar que exista qualquer critério confiável para distinguir entre mentira e verdade. Nesse ambiente, o debate público deixa de girar em torno de evidências e passa a gravitar em torno de identidades, ressentimentos e lealdades políticas.
As consequências já estão diante de nós. Informações falsas influenciaram processos eleitorais, estimularam movimentos antivacina e alimentaram teorias conspiratórias em diferentes continentes. Em sentido inverso, fatos rigorosamente documentados passaram a ser descartados por grupos que os consideravam incompatíveis com suas convicções. O problema contemporâneo não consiste apenas na circulação de falsidades. Consiste na crescente incapacidade de reconhecer fatos quando eles se apresentam.
Governos não tomam decisões apenas com base em valores. Tomam decisões com base em informações. Quando informações falsas passam a orientar políticas públicas, decisões econômicas, estratégias diplomáticas ou avaliações de segurança, os prejuízos ultrapassam o campo das ideias. Recursos são desperdiçados, crises são agravadas e erros de julgamento podem produzir consequências que atravessam gerações.
Por essa razão, considero imprecisa a afirmação de que enfrentamos uma crise da informação. Informação nunca circulou em tamanha quantidade. O recurso que se torna escasso é outro: a capacidade de certificar autenticidade. A disputa decisiva das próximas décadas talvez não ocorra entre produtores de conteúdo, mas entre instituições capazes ou incapazes de demonstrar a integridade dos registros que apresentam à sociedade.
Durante mais de cinco séculos, a pergunta central consistiu em determinar se uma afirmação correspondia aos fatos. Essa tarefa permanece indispensável. Já não basta. Antes de examinar o conteúdo de uma evidência, será necessário verificar sua origem, os procedimentos que cercaram sua produção e as garantias que sustentam sua integridade. A investigação sobre a procedência passa a ser tão importante quanto a investigação sobre a veracidade.
Entre a Bíblia impressa por Gutenberg em 1455 e os sistemas generativos disseminados globalmente a partir de 2023, a humanidade ergueu instituições inteiras sobre a convicção de que evidências verificáveis permitiam estabelecer fatos compartilhados. O desafio emergente não consiste apenas em acompanhar avanços tecnológicos nem em desenvolver ferramentas mais sofisticadas de autenticação. O desafio consiste em preservar os critérios que permitem distinguir alegações de evidências, fabricação de registro histórico e propaganda de realidade.
Quando uma sociedade perde essa capacidade, a primeira vítima não é o jornalismo, nem a ciência, nem o sistema de Justiça.
A primeira vítima é a própria possibilidade de julgamento racional. A partir desse ponto, decisões coletivas deixam de ser tomadas com base no que ocorreu e passam a ser determinadas pelo que grupos suficientemente organizados conseguem fazer parecer que ocorreu. Nenhuma democracia permanece sólida por muito tempo quando a aparência conquista mais autoridade do que os fatos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

