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Liszt Vieira

Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92

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O fim do mundo sem redenção

A escatologia científica do século XXI aponta para um colapso ecológico gerado pelas escolhas do capital

O fim do mundo sem redenção (Foto: Gerada por IA/DALL-E)
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Do A Terra É Redonda

A humanidade vem se aproximando perigosamente das “fronteiras planetárias”, ou seja, os limites físicos além dos quais pode haver colapso total da capacidade de o planeta suportar as atividades humanas - J. R. McNeill, Something New Under the Sun

A visão religiosa

As teorias milenaristas religiosas — presentes no cristianismo, judaísmo, islamismo e outras tradições — enxergam o “fim do mundo” como parte de um plano divino. Em geral, anunciam um período de caos, guerras, fome ou decadência moral seguido de julgamento, salvação e renovação do mundo. O Apocalipse bíblico é o exemplo mais conhecido. Muitas correntes acreditam que os sofrimentos históricos seriam “sinais dos tempos”.

O milenarismo é a crença de que a história humana passará por uma transformação radical, geralmente culminando no fim do mundo e no estabelecimento de uma era de paz ou julgamento. Originárias de diferentes culturas e épocas, estas narrativas moldaram a forma como a humanidade encara a finitude dos tempos. Segue abaixo um pequeno resumo de algumas visões milenaristas.

A escatologia judaico-cristã é o estudo do fim dos tempos, a consumação final de tudo, segundo a concepção bíblica. A palavra “escatologia” é derivada de duas palavras gregas que significam: “último” e “estudo”. Trata-se, portanto, do estudo do destino último do ser humano, tal como é revelado na Bíblia, fonte primária de todos os estudos sobre a escatologia judaico-cristã. Baseada no Gênesis e nos Salmos, onde “um dia é como mil anos”, a Teoria do Dia do Milênio defende que a história durará 6 mil anos, seguidos por mil anos, o Milênio, de paz e o Reino de Deus na Terra.

Na cosmologia hindu, o tempo é cíclico e dividido em quatro Yugas, as eras. O fim de um grande ciclo, o Pralaya, ocorre quando o universo se dissolve por meio de dilúvios cataclísmicos e fogo, antes de ser recriado. Na mitologia nórdica, o Ragnarök é a batalha final dos deuses. A lenda prevê invernos rigorosos, a libertação de monstros, o escurecimento do sol e uma conflagração que destruirá o mundo, do qual emergirá uma nova terra verdejante. Já na cosmovisão Guarani, a Terra Sem Males, o mundo está fadado a sucessivas destruições por catástrofes, como fogo, trevas e dilúvio. Os deuses ou o “Jaguar Azul” um dia aniquilarão a humanidade, permitindo que os justos encontrem a mítica “Terra Sem Males”.

Historicamente, as visões milenaristas ganham força em momentos de crises profundas, opressão social ou transições de séculos ou milênios. Foi o caso do Milenarismo Medieval, como os Hussitas, por exemplo. Durante a Idade Média Europeia, a fome, a peste e a opressão feudal criaram o cenário ideal para profecias apocalípticas.

Na era moderna, temos o movimento Testemunhas de Jeová, fundado no final do século XIX, que possui uma escatologia fortemente milenarista. Acreditam que o mundo atual está nos seus “últimos dias”. O ápice se dará na batalha do Armagedom, quando Deus destruirá os governos humanos e o mal. Após isso, a Terra será transformada em um paraíso físico, onde os sobreviventes e os ressuscitados viverão sob o reinado de mil anos de Cristo. No Brasil, um bom exemplo foi a Guerra de Canudos, entre 1896 e 1897. Liderado por Antônio Conselheiro no sertão baiano, o movimento de Canudos misturava messianismo, catolicismo popular, antirrepublicanismo e uma forte veia milenarista.

A visão científica

As teorias milenaristas e escatológicas tradicionais e as previsões contemporâneas de catástrofe global partem de fundamentos muito diferentes. As previsões atuais ligadas à guerra nuclear ou à crise climática não se baseiam em revelação religiosa, mas em análises científicas, geopolíticas e tecnológicas.

A ameaça nuclear surgiu sobretudo após Hiroshima e durante a Guerra Fria: o risco seria uma destruição rápida da civilização humana por bombas atômicas e inverno nuclear. A crise climática, por sua vez, aponta para um processo gradual de desorganização ecológica, econômica e social causado pelo aquecimento global, eventos extremos, perda de biodiversidade e escassez de recursos.

É verdade que os cientistas usam, às vezes, uma linguagem apocalíptica. Hoje, termos como “apocalipse climático” ou “colapso” são utilizados, mas se diferenciam do antigo imaginário religioso do fim dos tempos. A principal diferença está no horizonte final: no milenarismo religioso, o fim geralmente conduz à redenção, juízo ou novo reino; nas projeções científicas, não há promessa de salvação transcendental, mas cenários probabilísticos que podem ser evitados ou mitigados por ação humana. Ou seja, a escatologia tradicional costuma interpretar as catástrofes como inevitáveis ou desejadas dentro de um plano divino, enquanto a ciência trata guerra nuclear e crise climática como riscos produzidos pelas próprias escolhas humanas — portanto, passíveis de prevenção.

Por exemplo, pelo 11º ano seguido, as despesas militares mundiais estão em alta, atingindo, em 2025, a cifra de 2 trilhões e 900 bilhões de dólares, cerca de 2,5 trilhões de euros, segundo o relatório publicado em 27/4/2026 pelo Instituto Internacional de Pesquisa pela Paz de Estocolmo. Os EUA, a China e a Rússia representaram mais da metade do total, cerca de 1,480 trilhão de dólares. A tragédia da guerra está sempre presente no horizonte para destruir vidas humanas e a natureza. O fantasma da guerra nuclear ameaçaria destruir até mesmo a vida humana na Terra.

A pegada ecológica

Além da guerra, há outra desgraça que paira no horizonte: a crise climática e a destruição da biodiversidade pelo sistema econômico estão, aos poucos, destruindo as fontes da sobrevivência humana no planeta. Um dos indicadores mais importantes é a pegada ecológica, que já acendeu o sinal vermelho.

A Pegada Ecológica é uma métrica de contabilidade ambiental que mede a demanda da humanidade sobre a biosfera, comparando o consumo de recursos naturais com a capacidade regenerativa da Terra. Em 2026, os indicadores globais reforçam um estado de sobrecarga crônica, no qual consumimos recursos muito mais rapidamente do que o planeta consegue repô-los.

O indicador mais importante é o Dia da Sobrecarga da Terra, Earth Overshoot Day, que marca a data em que a demanda da humanidade por recursos e serviços ecológicos em um determinado ano excede o que a Terra pode regenerar nesse mesmo ano. Estima-se que, para 2026, o Dia da Sobrecarga Global ocorra por volta de 24 de julho. Isso significa que, a partir desta data, a humanidade passa a operar em “déficit ecológico”, liquidando estoques de recursos e acumulando resíduos, como o CO₂, na atmosfera. Atualmente, a humanidade utiliza o equivalente a 1,7 a 1,8 Terras para sustentar seu estilo de vida.

O “dia da sobrecarga” mede o desequilíbrio entre biocapacidade — o que a natureza consegue regenerar em um ano, como florestas, água, solo fértil e absorção de CO₂ — e Pegada Ecológica — o que a humanidade consome e polui. Quando a pegada supera a biocapacidade, entra-se em “déficit ecológico”, com as seguintes consequências econômicas e ambientais:

a) Mudança climática: mais emissões aceleram o aquecimento global, intensificando secas, enchentes e ondas de calor; b) Perda de biodiversidade: desmatamento e degradação reduzem ecossistemas essenciais; c) Pressão sobre alimentos: solos degradados e clima instável afetam a agricultura; d) Risco econômico: recursos mais escassos significam energia e matérias-primas mais caras; e) Conflitos geopolíticos: disputas por água, terras férteis e energia tendem a crescer.

Nem todos os países consomem recursos na mesma proporção. O indicador de Sobrecarga por País mostra quando o dia chegaria se todos vivessem como a população de uma nação específica. O Brasil possui uma das maiores biocapacidades do mundo, uma reserva ecológica, mas sua pegada vem aumentando devido ao desmatamento e às mudanças no uso da terra, o que reduz nossa margem de segurança ambiental.

Viver além dos limites planetários resulta em sintomas visíveis e mensuráveis. No que se refere a mudanças climáticas, a causa é o acúmulo de gases de efeito estufa acima da capacidade de absorção oceânica e florestal, causado principalmente pelo uso de combustíveis fósseis. No Brasil, o vilão é o desmatamento. Já a perda de biodiversidade resulta do colapso de ecossistemas que não conseguem se regenerar sob pressão constante da atividade econômica. Quanto à insegurança hídrica e alimentar, a causa é o esgotamento de aquíferos e a degradação da fertilidade do solo.

A transição energética e a implementação de economias circulares são as principais ferramentas citadas para tentar “adiar a data” (#MoveTheDate) e trazer a humanidade de volta para dentro dos limites biológicos do planeta. Em síntese: quanto mais cedo um país chega ao seu “dia da sobrecarga”, menos sustentável é seu modo de vida. E o aquecimento global já ultrapassou 1,5ºC, fixado em 2015 pela COP 21, a chamada Conferência de Paris, como o limite para evitar grandes catástrofes ambientais.

Mas o que tem predominado é a acumulação de capital, a busca do lucro e a crença em doutrinas econômicas diversas, do neoliberalismo ao desenvolvimentismo, que barram propostas alternativas como o ecossocialismo ou o decrescimento. Em geral, os governos, os partidos e os mercados costumam ignorar as advertências dos cientistas. Como dizia Proust, os fatos não penetram no mundo onde vivem nossas crenças.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.