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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O foco volta para Moraes e a ofensiva segue contra o STF

A mudança no caso Master reduz a pressão sobre um ministro, mas confirma o padrão

O foco volta para Moraes e a ofensiva segue contra o STF (Foto: Luiz Silveira/STF)

A mudança no caso Master reduz a pressão sobre um ministro, mas confirma o padrão: o alvo imediato muda, o alvo estratégico permanece o tribunal que puniu a tentativa de ruptura democrática de 2023. Separar a crise individual da disputa institucional tornou-se a linha que divide a autocorreção democrática da desmoralização deliberada da Justiça. 

Trata-se de proteger a Corte 

A decisão do ministro Dias Toffoli de deixar a relatoria do caso Master altera o cenário imediato, mas não encerra a crise. 

O gesto retira do centro do processo um magistrado sob pressão e, ao mesmo tempo, revela algo essencial: a disputa em curso ultrapassou a esfera individual e entrou definitivamente no terreno institucional. 

O pedido formal da Polícia Federal para que Toffoli fosse considerado suspeito já havia elevado o episódio a outro patamar. Não se tratava mais de rumor de bastidor ou pressão difusa. Tratava-se de um questionamento institucional concreto. Quando isso ocorre, a credibilidade do tribunal passa a ser parte da equação. 

A mudança de relatoria responde a essa necessidade de preservação institucional. Mas também confirma que a crise não se limitava à permanência de um ministro à frente do caso. 

Toffoli tornou-se politicamente indefensável no centro do processo.
O STF, não. 

Ministros da Suprema Corte operam sob padrão de exigência mais alto do que qualquer outro agente público. Não basta a defesa jurídica formal. É necessário que a confiança institucional permaneça intacta. Quando essa confiança é abalada por suspeitas reiteradas e tensões com investigadores, a permanência no epicentro de um caso sensível compromete a percepção de imparcialidade. 

A saída da relatoria, portanto, não é apenas um movimento técnico.
É um gesto de contenção institucional. 

O tribunal que julgou o golpe 

A crise ocorre num momento em que o Supremo Tribunal Federal desempenhou papel decisivo na defesa da ordem constitucional brasileira. Foi o tribunal que julgou e condenou o núcleo da tentativa de golpe de 2023 e do plano de assassinato do presidente Lula, do vice-presidente e de ministros da Corte. 

Foi ali que militares de alta patente foram responsabilizados por participação em articulações golpistas.
Foi ali que o ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado como líder da organização que tentou subverter o resultado eleitoral, foi condenado a 27 anos de prisão. 

Essas decisões não têm precedentes na história republicana.
Pela primeira vez, setores da elite política e parte do alto comando militar enfrentaram condenações severas por tentativa de ruptura institucional. 

O STF tornou-se, nesse processo, a principal barreira institucional ao avanço de um projeto autoritário. 

É nesse contexto que a crise atual precisa ser lida. 

A estratégia conhecida 

A reação da extrema direita segue um roteiro já testado: 

  1. escolhe-se um ministro sob suspeita; 
  2. amplifica-se o escândalo; 
  3. generaliza-se a desconfiança; 
  4. conclui-se que todo o tribunal seria ilegítimo. 

O objetivo não é moralizar o Judiciário.
É enfraquecer a instituição que impôs derrotas políticas e jurídicas ao bolsonarismo. 

O caso Toffoli ofereceu oportunidade estratégica para essa ofensiva.
Mas a saída da relatoria não encerra a lógica. Apenas desloca o foco. 

Se a campanha de desmoralização continuar após a mudança, ficará evidente que o alvo nunca foi apenas um ministro.
O alvo sempre foi o tribunal. 

Alexandre de Moraes volta a ser o foco 

A saída de Toffoli da relatoria não encerrou a ofensiva contra o Supremo. Apenas deslocou o foco.
Reportagem publicada nesta quinta-feira, 13, pela jornalista Malu Gaspar, em O Globo, indica que o próximo alvo político da pressão passa a ser de novo o ministro Alexandre de Moraes, responsável pela condução dos processos que resultaram na condenação de militares envolvidos na tentativa de golpe e na prisão de Jair Bolsonaro. 

É preciso deixar algo claro desde o início.
Tanto Toffoli quanto Moraes têm o dever de responder, com transparência e firmeza, às críticas e aos gravíssimos erros que vêm sendo apontados em sucessivas reportagens, artigos e comentários. Isso não se discute. Ministros do Supremo não estão acima de questionamentos públicos. Ao contrário: estão submetidos a um nível de escrutínio ainda maior. 

Defender-se, explicar-se e, quando necessário, corrigir procedimentos é obrigação institucional de qualquer integrante da Corte. 

Mas uma coisa é a responsabilização individual.
Outra, muito diferente, é a tentativa de transformar questionamentos a ministros em campanha contra a instituição. 

O movimento que se observa agora segue um padrão conhecido.
Quando um nome sai do centro da crise, outro assume a posição de alvo.
O objetivo não é apenas questionar decisões específicas, mas fragilizar a autoridade dos magistrados que conduziram o julgamento do núcleo golpista. 

É imprescindível proteger a instituição STF 

Moraes coordenou os inquéritos que investigaram a tentativa de ruptura institucional e os ataques às instituições. Foi sob sua condução que se consolidou o conjunto de provas que levou à responsabilização penal de integrantes das Forças Armadas e do ex-presidente apontado como líder da organização. 

Se há críticas a serem respondidas — e há — elas precisam ser enfrentadas diretamente pelos próprios ministros.
Mas é igualmente essencial proteger a instituição STF de uma operação política que busca transformar falhas individuais, reais ou alegadas, em argumento para desacreditar o tribunal como um todo. 

A mudança de foco confirma que a disputa não gira em torno de um ministro específico.
Ela se dirige ao tribunal que conduziu, até o fim, o processo que resultou na punição dos responsáveis pela tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito. 

Se a pressão se desloca de Toffoli para Moraes, o padrão se torna ainda mais evidente:
o alvo imediato pode variar, mas o alvo estrutural permanece o mesmo. 

A convergência de crises 

O episódio se desenrola em meio à crise do Banco Master, que rapidamente extrapolou o campo financeiro e se tornou disputa institucional de alta intensidade. Investigações, decisões judiciais e pressões políticas passaram a se cruzar em torno do caso. 

Durante semanas, o nome de Toffoli esteve simultaneamente no centro de duas tempestades:
– a crise bancária;
– e a reativação de disputas sobre a memória da Lava Jato. 

Essa convergência produziu um efeito previsível: concentrar pressões em uma figura que integra o tribunal responsável por condenações históricas contra o golpismo. 

Com a saída da relatoria, o ponto de convergência pessoal se desfaz.
Mas a convergência institucional permanece. 

Separar pessoa e instituição 

É necessário estabelecer uma distinção clara. 

Criticar a situação de um ministro não significa aderir a campanhas contra o STF.
Defender o STF não significa blindar ministros individualmente. 

Democracias maduras conseguem investigar seus próprios juízes sem destruir seus tribunais.
Projetos autoritários fazem o contrário: transformam investigações legítimas em arma para desacreditar a instituição. 

A diferença entre esses dois caminhos define o momento político atual. 

Se conduzido com transparência e rigor, o episódio pode fortalecer o STF ao demonstrar capacidade de autocorreção.
Se capturado pela guerra política, pode alimentar uma campanha de desmoralização cujo objetivo final não é a ética pública, mas a revanche. 

O que realmente está em jogo 

O problema imediato foi a situação de um ministro. O que está em jogo continua sendo a credibilidade do tribunal que julgou a tentativa de ruptura democrática. 

A saída de Toffoli da relatoria reduz a pressão individual.
Mas não elimina a estratégia de transformar crises pontuais em campanha contra a Corte. Se a ofensiva prosseguir, ficará claro que o objetivo nunca foi apenas investigar um magistrado. Era enfraquecer o tribunal que condenou o golpismo. 

A democracia brasileira entrou numa fase em que seus adversários compreenderam algo fundamental: derrotar o STF no voto é difícil.
Desmoralizá-lo pode ser mais eficaz. 

Por isso, a crise atual não pode ser lida apenas como episódio individual.
Ela é parte de uma disputa mais ampla pela legitimidade das instituições que impediram a ruptura democrática. 

Toffoli deixou a relatoria. O foco migra agora para Alexandre de Moraes.
O tribunal permanece. 

E é justamente isso que está em jogo: se o país será capaz de investigar seus próprios juízes com rigor — sem permitir que a investigação se transforme em pretexto para destruir a Corte que condenou o golpismo. 

Um projeto autoritário transforma cada erro em argumento para demolir o sistema inteiro. Uma democracia sólida corrige seus erros. 

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.