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Luciano Rezende Moreira

Professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Doutor e mestre em Ciências Agrárias, é graduado em Agronomia (UFV), Geografia (UERJ), Administração Pública (UFF) e Letras (UFF)

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O Foro de São Paulo e a hipocrisia da extrema direita

O problema do Foro de São Paulo, aos olhos da extrema direita, nunca foi sua existência

O Foro de São Paulo e a hipocrisia da extrema direita

Poucas expressões provocam tanto alvoroço na extrema direita brasileira quanto “Foro de São Paulo”. O termo é repetido à exaustão, quase sempre como sinônimo de conspiração, plano secreto ou ameaça à democracia. No entanto, basta um exame minimamente honesto da realidade política internacional para que essa narrativa caia por terra. Por acaso a própria direita não se organiza internacionalmente?

Enquanto denunciam esse espaço legítimo de articulação política como uma ameaça obscura à democracia, essas mesmas forças de direita atuam de forma sistemática e organizada em múltiplas frentes nacionais e internacionais, por meio de fundações, think tanks, fóruns multilaterais e organizações privadas, muitas vezes com amplo financiamento e baixa transparência pública. Tal assimetria discursiva não apenas evidencia um duplo padrão moral, mas também busca deslegitimar iniciativas de cooperação política do campo progressista, ao mesmo tempo em que naturaliza e invisibiliza redes transnacionais de poder conservador que influenciam agendas econômicas, midiáticas e institucionais em escala global.Criado em 1990, o Foro de São Paulo surgiu em um contexto de profunda derrota estratégica da esquerda mundial, após a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética. Longe de ser um espaço conspiratório, tratou-se de uma tentativa legítima de articulação política, troca de experiências e reconstrução programática entre partidos e movimentos de esquerda da América Latina e do Caribe. Sempre foi público, assumido e transparente. Nunca foi um comando militar, nem um governo paralelo, nem uma organização clandestina com descaradamente falam abertamente todos os dias centenas de influencers remunerados pela burguesia.

Mesmo sendo uma organização extremamente plural, aberta e transparente, a extrema direita conseguiu construir em torno do Foro uma verdadeira mitologia do medo. O curioso, mais uma vez, é que essa mesma direita participa, há décadas, de estruturas internacionais muito mais poderosas, infinitamente mais bem financiadas e mais influentes, sem que isso seja tratado como escândalo.

Um exemplo emblemático é a chamada União Democrata Internacional (IDU), fundada em 1983 por ninguém menos que Margaret Thatcher, Ronald Reagan e Helmut Kohl. Trata-se de uma articulação global de partidos conservadores, liberais e de direita, com atuação explícita na formulação de estratégias eleitorais, formação de quadros e difusão de uma agenda econômica neoliberal. Partidos brasileiros tradicionais já mantiveram vínculos com esse tipo de organização e nunca houve qualquer alarde sobre “ameaça à soberania nacional”.

Mais recentemente, a extrema direita abandonou qualquer pudor. Em 2020, surgiu o chamado Foro de Madri, liderado pelo partido espanhol Vox. Diferentemente do Foro de São Paulo, o Foro de Madri não se limita ao debate político: ele define inimigos, propõe combate ideológico aberto à esquerda e constrói uma narrativa de guerra cultural. Lideranças do bolsonarismo aderiram ou manifestaram apoio a essa iniciativa, sem que seus seguidores vissem nisso qualquer contradição.

Outro espaço fundamental de articulação da direita extremista é a CPAC (Conservative Political Action Conference). Originalmente estadunidense, a CPAC tornou-se um evento internacional, com edições no Brasil. Ali se alinham discursos, se constroem narrativas comuns e se consolidam lideranças da extrema direita global. Jair Bolsonaro e seus filhos participaram ativamente desses encontros, sempre sob aplausos.

Há ainda uma dimensão menos visível, porém decisiva que são as redes de think tanks ultraliberais, como a Atlas Network, a Heritage Foundation e fundações ligadas a partidos reacionários europeus. Essas organizações atuam na formação intelectual, no financiamento de pesquisas, na produção de consensos e na influência direta sobre políticas públicas. Apesar de serem muito mais influentes e adotarem uma pauta abertamente antidemocrática, nunca foram tratadas como conspiracionistas.

Diante desse quadro, a demonização do Foro de São Paulo revela-se aquilo que de fato é, ou seja, uma operação ideológica. Não se trata de preocupação com democracia ou soberania, mas de criminalizar o legítimo direito de organização da esquerda, enquanto se naturaliza a organização da direita em diversas frentes internacionais, inclusive de caráter nazifascista.

O problema do Foro de São Paulo, aos olhos da extrema direita, nunca foi sua existência. O verdadeiro incômodo é a ideia de que os setores populares, os trabalhadores e os movimentos sociais possam pensar e agir de forma articulada, para além das fronteiras nacionais. Em última instância, o ataque ao Foro de São Paulo é apenas mais um capítulo da velha luta de classes. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.